Pré-visualização gratuita Cadeia
O barulho vinha antes mesmo da imagem.
Ferro batendo em ferro.
Gritos cortando o ar.
Passos pesados ecoando pelos corredores estreitos.
A cadeia respirava violência.
Era um organismo vivo — sujo, quente, pulsando ódio em cada parede manchada. O cheiro era uma mistura de suor velho, sangue seco e desespero. Ali dentro, ninguém fingia ser bom. Não existia máscara. Só existia o que cada um era de verdade.
E a maioria era podre.
Mas, no meio daquele caos, existia uma exceção.
Um nome que não precisava ser gritado… porque já era sentido.
Cristian Torres.
Não era o mais antigo.
Não era o mais barulhento.
E definitivamente não era o mais desesperado.
Ele era o mais perigoso.
O corredor principal abriu passagem antes mesmo que ele aparecesse.
Dois detentos que discutiam pararam no meio da briga. Um deles ainda segurava um pedaço de escova de dentes afiado, improvisado como faca. O outro tinha o rosto aberto, sangue escorrendo pelo queixo.
Mas nenhum dos dois terminou o que começou.
Porque ouviram os passos.
Lentos.
Firmes.
Sem pressa.
Sem medo.
Cristian surgiu na curva do corredor como se aquele lugar fosse dele.
E, de certa forma… era.
Alto, postura reta, olhar frio. O tipo de presença que não precisava de esforço pra impor respeito. Ele não olhava pros lados. Não media ninguém. Não avaliava ameaça.
Porque não existia ameaça ali.
Os outros presos desviavam.
Alguns abaixavam o olhar.
Outros apenas ficavam imóveis, esperando ele passar.
Ninguém encarava.
Ninguém testava.
Ninguém era burro o suficiente.
A cela dele não era como as outras.
Enquanto a maioria dividia espaço com três, quatro, até cinco homens… Cristian estava sozinho.
A porta abriu com um barulho metálico seco.
O guarda nem fingiu rigidez.
— Boa noite, chefia — disse, quase num tom de respeito.
Cristian não respondeu.
Entrou.
A porta fechou atrás dele.
O ambiente ali dentro parecia outro mundo comparado ao restante da cadeia.
Nada de colchão rasgado no chão.
Nada de paredes completamente destruídas.
Tinha uma cama decente.
Um ventilador funcionando.
Uma pequena televisão presa no alto da parede.
E silêncio.
Um luxo naquele inferno.
Ele sentou na cama com calma, apoiando os cotovelos nos joelhos.
Os olhos escuros percorriam o nada… mas a mente estava longe dali.
Sempre estava.
Do lado de fora, a cadeia continuava viva.
Mas ali dentro… ele controlava o próprio tempo.
Poucos minutos depois, a porta abriu de novo.
Um detento entrou sem precisar ser autorizado. Magro, nervoso, olhar inquieto.
Parou a uma distância segura.
— Chefe…
Cristian ergueu os olhos devagar.
Só isso já foi suficiente pra fazer o outro engolir seco.
— Fala.
A voz era baixa. Controlada. Sem pressa.
— Tá tudo certo lá fora… mas teve movimentação estranha hoje.
Silêncio.
Cristian inclinou levemente a cabeça.
— Que tipo de movimentação?
— Polícia subindo em dois morros… mas não ficaram. Parecia mais reconhecimento.
Cristian encostou as costas na parede.
Pensando.
Calculando.
Mesmo preso… ele ainda mandava.
Nada parava.
Nada desacelerava.
As bocas continuavam funcionando.
O dinheiro continuava entrando.
As armas continuavam circulando.
Ele não tinha perdido o império.
Só tinha mudado o ponto de comando.
— E os nossos?
— Tudo no lugar. Ninguém caiu.
Cristian assentiu, quase imperceptível.
— Então não é problema.
O detento hesitou.
— Pode virar.
Cristian deu um leve sorriso de canto.
Mas não era humor.
Era aviso.
— Quando virar… você me avisa. Não antes.
O homem assentiu rápido.
— Sim, chefe.
— Mais alguma coisa?
— Não.
— Então some.
Não foi um pedido.
O cara saiu na mesma hora.
A porta fechou de novo.
Silêncio outra vez.
Cristian passou a mão pelo rosto lentamente.
Sem tensão.
Sem nervosismo.
Aquilo tudo era rotina.
Ele levantou, caminhando até a pequena janela gradeada.
Do lado de fora, só dava pra ver um pedaço do céu escuro.
Nenhuma estrela.
Só escuridão.
Ele ficou ali por alguns segundos.
Imóvel.
Cristian Torres não sentia falta da rua.
Sentia falta do controle direto.
Mas não da liberdade.
Liberdade era uma ilusão pra quem não tinha poder.
E ele sempre teve.
Dinheiro resolve.
Poder garante.
O resto… é fraqueza.
Ele já tinha perdido a conta de quantas pessoas mandou m***r.
Policial.
Político.
Concorrente.
Traidor.
Pra ele… não fazia diferença.
Nunca fez.
Não existia culpa.
Não existia peso.
Não existia arrependimento.
Se alguém precisava cair… caía.
Simples assim.
Cristian voltou pra cama, se sentando com calma.
Pegou um maço de cigarros e acendeu um, tragando devagar.
A fumaça subiu lenta pelo ar quente da cela.
Ele construiu tudo do nada.
Do lixo.
Do desprezo.
Do lugar onde ninguém acreditava em nada.
E nunca precisou de ninguém.
Nunca dependeu de ninguém.
Nunca escolheu ninguém.
Se tivesse que escolher entre uma pessoa e o império…
Ele escolheria o império.
Sempre.
O tempo passou sem pressa.
Até que…
Barulho de passos de novo.
Diferente.
Mais pesado.
Mais de um.
A porta abriu.
Dois homens entraram.
Um deles era conhecido.
Marcão.
Velho no sistema. Sobreviveu tempo suficiente pra aprender a respeitar quem devia.
Ele parou na frente da cela.
— E aí, Torres…
Cristian nem se mexeu.
— Fala.
Marcão soltou um riso curto.
— Sempre direto.
Silêncio.
— Tô sabendo que teu julgamento já tá marcado.
Cristian tragou o cigarro.
Soltou a fumaça devagar.
— E?
— E que não é qualquer um que vai te julgar.
Agora… um mínimo de interesse.
Cristian levantou o olhar.
— Quem?
Marcão cruzou os braços.
— A doutora durona.
Pausa.
— Aquela que não alivia pra ninguém.
Silêncio.
O outro detento ao lado completou, quase animado demais:
— Dizem que já enterrou muito figurão.
Marcão assentiu.
— Político grande já caiu com ela. Empresário. Gente que achava que era intocável.
Cristian ficou em silêncio.
Analisando.
Nome.
Ele precisava do nome.
— Qual é o nome dela?
Marcão sorriu de leve.
Como quem sabe que aquilo ia ter peso.
— Luiza Souza.
O tempo… travou por um segundo.
Quase imperceptível.
Quase.
Cristian desviou o olhar.
De volta ao vazio.
Como se não tivesse significado nada.
Mas teve.
Uma memória antiga tentou surgir.
Rápida.
Incômoda.
Ele matou aquilo na hora.
Sem esforço.
Como sempre fazia.
Cristian deu mais uma tragada.
— Tanto faz.
A resposta saiu fria.
Indiferente.
Como se fosse só mais um nome comum, porque era.
Marcão observou.
— Não subestima não… essa aí gosta de derrubar gente grande.
Cristian soltou um riso baixo.
Sem humor.
— Todo mundo gosta… até tentar.
Silêncio.
Pesado.
O recado estava dado.
Marcão levantou as mãos, como quem não quer problema.
— Só tô avisando.
— Já avisou.
Os dois entenderam.
Era hora de sair.
A porta fechou mais uma vez.
Sozinho de novo.
O cigarro já estava no fim.
Cristian apagou no chão, esmagando com o pé.
Luiza Souza.
O nome ficou no ar.
Pesado.
Antigo.
Ele fechou os olhos por um segundo.
Só um.
E, mesmo contra a própria vontade…
Uma imagem veio.
Rápida.
Distante.
Um sorriso.
Um uniforme de escola.
Um olhar que não combinava com o mundo de onde ele vinha.
Cristian abriu os olhos na mesma hora.
Frio de novo.
Fechado.
Intocável.
Aquilo não importava mais.
Nada daquilo importava.
O passado… não existia.
Ou pelo menos…
Era o que ele sempre acreditou.
Do lado de fora, a cadeia continuava gritando.
Mas dentro daquela cela…
Pela primeira vez…
O silêncio não estava totalmente sob controle.
E isso…
Era perigoso.