Capítulo 16. Erro que vira acerto

631 Palavras
Sarah dormiu como não dormia há semanas. Sem sonhos. Sem Noah. Sem corredores de escola. O corpo desligou inteiro, exausto e, estranhamente, satisfeito. O celular tocou cedo demais. Ela gemeu, virou de lado, tateou a mesa de cabeceira até achar o aparelho. — Alô… — a voz saiu rouca, pesada de sono. — Finalmente — disse o agente, sem bom-dia. — Você sumiu. Eu ia ligar de qualquer jeito. Sarah apertou os olhos, tentando organizar o cérebro. — Eu… refiz as páginas de Votos de Gelo e Fogo — murmurou, ainda meio perdida no tempo. — Tava travada, mas ontem fluiu. Vou te encaminhar agora. — Agora? — a voz dele ficou alerta. — Ótimo. Manda. Ela desligou antes que ele dissesse mais alguma coisa. Sentou na cama, ainda zonza, abriu o notebook sem nem levantar. O arquivo estava lá o sem título. Dez páginas. Ben e Aruna. Cru, intenso, perigoso. Perigoso demais... Sarah hesitou, ainda não era hora. Selecionou as novas páginas de votos de Gelo e Fogo. Anexou. Digitou um e-mail curto demais para alguém tão metódica: Refiz o começo. Depois falamos. E enviou. Só depois que fechou o notebook e caiu de volta no travesseiro foi que algo piscou, atrasado, na mente dela. — Espera… — murmurou, mas o sono venceu outra vez. Quando acordou de verdade, quase duas horas depois, o celular estava vibrando enlouquecido. Mensagens. Chamadas perdidas. Áudio atrás de áudio. O estômago dela afundou. — Merda. Atendeu. — SARAH — o agente praticamente gritou. — O QUE FOI ISSO? Ela sentou na cama num pulo. — O quê? — perguntou, já se preparando para o impacto. — Não gostou? Houve um silêncio do outro lado. Depois, uma risada. Alta. Incrédula. — Gostar? — ele repetiu. — Eu li tudo de uma vez. Sem respirar. Isso é outra escritora. O coração dela disparou. — Como assim? — Tem conflito real. Dor real. Diálogo que corta. — Ele falava rápido, empolgado. — Essa Aruna… ela sangra. E esse Ben não é confortável. É humano. Imperfeito. Exatamente o que eu te pedi. Sarah passou a mão pelo rosto, ainda confusa. — Mas… não tem título. Não tem sinopse. Nem certeza se isso é o livro. Eu.. eu enviei errado, não era pra ser isso, eu reescrevi votos de gelo e fogo.. eu já vou evia— — Não me importa — ele cortou. — Isso é o livro. Ou o começo dele. E é o melhor começo que você já me mandou. Ela engoliu em seco. — Você não achou… clichê demais pra mim ? — Se isso é clichê, então que o mercado aguente. — Ele baixou um pouco o tom. — Sarah, você saiu da sua zona de conforto. Dá pra sentir. Tem verdade aí. E verdade vende porque conecta. Ela fechou os olhos por um instante, o peito apertado. — Você quer que eu continue? — Eu quero que você não volte atrás — ele respondeu. — Não refine demais. Não se esconda. Continua exatamente desse lugar. A ligação terminou com prazos, reuniões, promessas de investidores animados. Sarah ficou sentada na cama, em silêncio. Abriu o notebook de novo. Releu o arquivo com olhos menos sonolentos agora. Ben. Aruna. O beijo. A humilhação. O afastamento. Ela levou a mão à boca, um misto de choque e riso nervoso. — Eu mandei isso… — sussurrou. Não tinha enviado Votos de Gelo e Fogo. Tinha enviado ela. E, em vez de pânico, sentiu algo inesperado se espalhar pelo peito: Alívio. Talvez porque, sem perceber, ela tivesse feito exatamente o que sempre evitou e descoberto que, ao expor a própria história, não tinha perdido controle algum. Tinha ganhado voz. E agora… não havia mais como fingir que aquele amor que não era mais dela não merecia ser contado
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