Sarah dormiu como não dormia há semanas.
Sem sonhos.
Sem Noah.
Sem corredores de escola.
O corpo desligou inteiro, exausto e, estranhamente, satisfeito.
O celular tocou cedo demais.
Ela gemeu, virou de lado, tateou a mesa de cabeceira até achar o aparelho.
— Alô… — a voz saiu rouca, pesada de sono.
— Finalmente — disse o agente, sem bom-dia. — Você sumiu. Eu ia ligar de qualquer jeito.
Sarah apertou os olhos, tentando organizar o cérebro.
— Eu… refiz as páginas de Votos de Gelo e Fogo — murmurou, ainda meio perdida no tempo. — Tava travada, mas ontem fluiu. Vou te encaminhar agora.
— Agora? — a voz dele ficou alerta. — Ótimo. Manda.
Ela desligou antes que ele dissesse mais alguma coisa.
Sentou na cama, ainda zonza, abriu o notebook sem nem levantar. O arquivo estava lá o sem título. Dez páginas. Ben e Aruna. Cru, intenso, perigoso.
Perigoso demais... Sarah hesitou, ainda não era hora.
Selecionou as novas páginas de votos de Gelo e Fogo.
Anexou.
Digitou um e-mail curto demais para alguém tão metódica:
Refiz o começo. Depois falamos.
E enviou.
Só depois que fechou o notebook e caiu de volta no travesseiro foi que algo piscou, atrasado, na mente dela.
— Espera… — murmurou, mas o sono venceu outra vez.
Quando acordou de verdade, quase duas horas depois, o celular estava vibrando enlouquecido.
Mensagens.
Chamadas perdidas.
Áudio atrás de áudio.
O estômago dela afundou.
— Merda.
Atendeu.
— SARAH — o agente praticamente gritou. — O QUE FOI ISSO?
Ela sentou na cama num pulo.
— O quê? — perguntou, já se preparando para o impacto. — Não gostou?
Houve um silêncio do outro lado.
Depois, uma risada. Alta. Incrédula.
— Gostar? — ele repetiu. — Eu li tudo de uma vez. Sem respirar. Isso é outra escritora.
O coração dela disparou.
— Como assim?
— Tem conflito real. Dor real. Diálogo que corta. — Ele falava rápido, empolgado. — Essa Aruna… ela sangra. E esse Ben não é confortável. É humano. Imperfeito. Exatamente o que eu te pedi.
Sarah passou a mão pelo rosto, ainda confusa.
— Mas… não tem título. Não tem sinopse. Nem certeza se isso é o livro. Eu.. eu enviei errado, não era pra ser isso, eu reescrevi votos de gelo e fogo.. eu já vou evia—
— Não me importa — ele cortou. — Isso é o livro. Ou o começo dele. E é o melhor começo que você já me mandou.
Ela engoliu em seco.
— Você não achou… clichê demais pra mim ?
— Se isso é clichê, então que o mercado aguente. — Ele baixou um pouco o tom. — Sarah, você saiu da sua zona de conforto. Dá pra sentir. Tem verdade aí. E verdade vende porque conecta.
Ela fechou os olhos por um instante, o peito apertado.
— Você quer que eu continue?
— Eu quero que você não volte atrás — ele respondeu. — Não refine demais. Não se esconda. Continua exatamente desse lugar.
A ligação terminou com prazos, reuniões, promessas de investidores animados.
Sarah ficou sentada na cama, em silêncio.
Abriu o notebook de novo. Releu o arquivo com olhos menos sonolentos agora.
Ben.
Aruna.
O beijo.
A humilhação.
O afastamento.
Ela levou a mão à boca, um misto de choque e riso nervoso.
— Eu mandei isso… — sussurrou.
Não tinha enviado Votos de Gelo e Fogo.
Tinha enviado ela.
E, em vez de pânico, sentiu algo inesperado se espalhar pelo peito:
Alívio.
Talvez porque, sem perceber, ela tivesse feito exatamente o que sempre evitou e descoberto que, ao expor a própria história, não tinha perdido controle algum.
Tinha ganhado voz.
E agora…
não havia mais como fingir que aquele amor que não era mais dela não merecia ser contado