Capítulo 15. Dez páginas ?

878 Palavras
Sarah acordou de mau humor. Não aquele mau humor elegante e silencioso que ela dominava bem era um incômodo visceral, quase infantil. Abriu os olhos e ficou alguns segundos encarando o teto, tentando se convencer de que aquilo tinha sido só um sonho. Não funcionou. — Ridículo — murmurou, passando a mão pelo rosto. Já fazia anos. Anos sem pensar em Noah daquela forma, sem lembrar do cheiro, do tom de voz, da sensação de ter dezesseis anos e não saber se proteger. Ela tinha construído uma vida inteira em cima dessa ausência. E bastaram dois dias de reencontro para o passado se infiltrar como se tivesse permissão. Levantou-se da cama com movimentos bruscos, foi até a cozinha e colocou água para ferver com força desnecessária. O café borbulhou demais, quase transbordou. — Ótimo — resmungou. Enquanto tomava café, o sonho insistia em se repetir em flashes indesejados: o beijo, a risada, a sala de aula inteira olhando. A humilhação. A decisão silenciosa de não falar mais com ele. Ela apertou a xícara com força. — Eu não tenho dezesseis anos — disse em voz alta, como se precisasse se lembrar. Era adulta. Publica. Respeitada. Vivia em outro país. Escrevia histórias sobre mulheres que não se diminuíam. E ainda assim… Ver Noah ali, no casamento, pedir desculpas, abraçá-la na despedida tudo isso tinha revirado algo que ela acreditava arquivado, resolvido, superado. Sarah abriu o notebook com irritação. Não para escrever o livro. Para provar a si mesma que estava no controle. Mas o arquivo que abriu não foi Votos de Gelo e Fogo. Foi um documento em branco. E, sem perceber, digitou a primeira frase quase em automático: Ela achou que tinha enterrado aquele amor junto com a adolescência. Mas algumas memórias não morrem apenas esperam. Sarah parou. Ficou olhando para a frase, o coração batendo rápido demais para alguém que se dizia indiferente. — Não — sussurrou, fechando o documento sem salvar. Ela se levantou, caminhou pelo apartamento, abriu a janela com força. O ar frio da manhã bateu no rosto, trazendo lucidez. Era só um sonho. Um reflexo tardio. Nada mais. Mas, no fundo, Sarah sabia: não era coincidência que, depois de anos sem lembranças, o passado tivesse voltado justamente agora quando ela precisava escrever sobre risco, vulnerabilidade e fogo. Ela respirou fundo, mais calma, porém alerta. Talvez não fosse sobre Noah. Talvez fosse sobre a garota de dezesseis anos que ela nunca permitiu que virasse personagem. E isso… isso a irritava mais do que qualquer investidor.. Sarah ficou alguns segundos parada no meio do quarto, o maxilar tenso, como se estivesse discutindo consigo mesma em silêncio. — Ótimo — murmurou. — Vamos fazer isso direito. Pegou o diário onde o tinha deixado, sentindo um incômodo quase físico ao tocar na capa azul. Não era nostalgia. Era irritação. Irritação por ainda doer, por ainda existir, por ainda ter matéria-prima demais para algo que ela jurava superado. Sentou-se à escrivaninha, abriu o notebook. Abriu um arquivo novo. Sem título. Sem sinopse. Sem contrato pairando sobre a cabeça. Colocou o diário ao lado do teclado, aberto em uma página qualquer, e começou a ler trechos aleatórios. Não em ordem. Não com cuidado. Como quem procura faísca. E então escreveu. Não pensou em estilo. Não pensou em mercado. Não pensou no agente. As palavras vieram rápidas, quase agressivas. A personagem ganhou nome sem cerimônia: Aruna Observadora demais. Inteligente demais. Sentindo tudo em silêncio. O outro veio logo depois: Benjamin ( Ben) Carismático. Irresponsável. c***l sem perceber. Sarah descreveu as características deles e depois as memórias. Escreveu o beijo no corredor. A menta. A risada. A palavra dita como brincadeira. Escreveu a sala de aula. As risadas. O constrangimento público. O carinho privado que confundia tudo. E escreveu, principalmente, a decisão. A menina que para de falar. Que para de esperar. Que começa a se proteger. Sarah digitava com força, quase sem piscar. Os dedos acompanhavam o ritmo de algo antigo, guardado, finalmente liberado. O texto não era elegante era vivo. Ela não releu. Não editou. Não apagou. Quando percebeu, o sol já tinha mudado de posição no céu. O café estava frio ao lado do notebook, intocado. Ela parou de escrever só quando os dedos começaram a doer. Olhou para a tela. Dez páginas. Sarah piscou, surpresa. Rolou o texto, o coração acelerado. — O quê… — sussurrou. Não lembrava de ter escrito metade daquilo. As cenas estavam ali, coesas, intensas, sem o controle excessivo que sempre teve. Havia vulnerabilidade. Havia fogo. E, pela primeira vez em muito tempo, não havia medo. Ela apoiou as costas na cadeira, soltando o ar devagar. O livro ainda não tinha nome. Talvez nem fosse Votos de Gelo e Fogo. Talvez fosse outra coisa. Mas aquelas páginas… aquelas páginas eram verdadeiras. Sarah fechou o diário com cuidado e pousou a mão sobre o teclado, sentindo algo raro e perigoso: entusiasmo. Irritada consigo mesma, sim. Exposta, com certeza. Mas, acima de tudo, escrevendo de novo não como quem se protege do passado, mas como quem finalmente decide usá-lo. E, no silêncio do apartamento, uma certeza começou a se formar, clara demais para ser ignorada: Talvez a história que ela sempre evitou fosse, justamente, a única capaz de quebrar o gelo sem apagar o fogo.
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