Capítulo 14. Sonho

1081 Palavras
Sarah fechou o diário com cuidado, como quem encerra um capítulo sem saber ainda se terá coragem de relê-lo. Guardou-o de volta na caixa não no fundo desta vez, mas por cima, visível. Um lembrete silencioso de que fugir não estava funcionando. Ela precisava de ar. De barulho. De algo que não fosse papel, silêncio e memória. Pegou o celular e digitou quase sem pensar. Sarah: Você tá livre hoje? Lívia: Sempre livre pra salvar uma escritora à beira de um colapso existencial. Sarah: Balada. Agora. Lívia: MILAGRE. Me dá 40 minutos. Sarah tomou um banho rápido, vestiu algo que não exigisse reflexão jeans escuro, blusa preta, cabelo preso de qualquer jeito. Não queria estar bonita. Queria estar anônima. A balada era barulhenta, quente, cheia de luzes que piscavam sem pedir permissão. O tipo de lugar que ela normalmente evitava exatamente por isso. — Você precisa beber — decretou Lívia, empurrando um copo gelado na mão dela. — E não pensar. Em nada. Sarah riu, um pouco tensa, mas obedeceu. O som alto não permitia introspecção. As pessoas se moviam sem cuidado, sem análise, sem estrutura. Tudo o que Sarah não era. E, surpreendentemente… funcionava. Ela dançou sem ritmo por alguns minutos, riu de algo que nem ouviu direito, sentiu o corpo aquecer não por emoção, mas por movimento. Pela primeira vez em dias, a mente desacelerou. — Tá vendo? — gritou Lívia no ouvido dela. — Você não tá quebrada. Só tá presa demais na própria cabeça. Sarah assentiu, respirando fundo. Foi quando percebeu os olhares. Não um em específico vários. Discretos. Interessados. Não invasivos. Ela sentiu algo curioso: indiferença confortável. Não precisava corresponder. Não precisava provar nada. Um homem se aproximou, falou algo que ela não ouviu. Ela sorriu, negou com a cabeça, educada. Ele entendeu e se afastou. — Antigamente você teria ficado sem graça — comentou Lívia. — Hoje você parece… intacta. Sarah pensou nisso por um segundo. — Eu só não estou com fome — respondeu, simples. E era verdade. Ela dançou mais um pouco, sentindo o suor na nuca, o grave da música vibrar no peito. Não pensou em Noah. Não pensou no agente. Não pensou no diário. Até que, em um instante quase traiçoeiro, algo mudou. Não foi um rosto conhecido. Não foi uma memória. Foi uma sensação. Alguém passou por ela, muito perto, e o cheiro masculino, fresco, com algo de menta atravessou o ar. Sarah congelou por meio segundo. Depois franziu a testa, irritada consigo mesma. — Para com isso — murmurou. Não era ele. Não significava nada. Ela virou o copo de uma vez, sentindo o álcool queimar, e voltou a dançar. Mas, mesmo com a música alta e as luzes girando, algo dentro dela se mantinha alerta não saudoso, não carente… apenas consciente de que fugir do bloqueio criativo não significava que ele tinha ido embora. Talvez só estivesse esperando ela parar de correr. E, enquanto a madrugada avançava, Sarah teve uma certeza incômoda e estranhamente libertadora: Ela não precisava voltar ao passado. Mas talvez precisasse encará-lo de frente para finalmente escrever sem medo. A balada continuou. Mas, em algum lugar silencioso dentro dela, Votos de Gelo e Fogo começava a mudar de forma. Sarah voltou para casa quando a cidade já tinha baixado o volume. Tirou os sapatos na entrada, deixou a bolsa cair sobre a cadeira, apagou as luzes sem nem conferir direito. O apartamento ainda estava bagunçado livros fora do lugar, a caixa aberta no quarto mas ela não tinha energia para organizar nada. Deitou-se vestida mesmo, puxou o cobertor até o peito e fechou os olhos. O sono veio rápido. Pesado. Traiçoeiro. E levou Noah com ele. No sonho, eles estavam de novo na escola. O corredor era mais claro do que deveria ser, quase dourado. Os armários azuis, as paredes cheias de cartazes antigos. Sarah se via mais jovem, mochila nos ombros, coração acelerado sem saber por quê. Noah estava ali mais novo, sorriso fácil, aquela confiança inconsequente de quem ainda não sabe o peso das próprias atitudes. Ele se aproximava sem dizer nada. O beijo vinha primeiro. Era igual ao do diário. Desajeitado, quente, real demais para ser só sonho. O gosto de menta. O nariz encostando. A risada contida depois. — Calma ruiva… — ele murmurava, encostando a testa na dela. Sarah sorria no sonho. Um sorriso aberto, sem defesas. O tipo de sorriso que ela não se permitia há anos. Mas a cena mudava. Bruscamente. O corredor desaparecia. Agora era a sala de aula. Cheia. Barulhenta. Os colegas sentados, o professor escrevendo no quadro. Sarah entrava atrasada, procurando um lugar. Noah estava cercado de gente. Ela se aproximava ainda no clima do beijo, ainda acreditando que havia algo só deles. Então ele falava. Alto demais. — Olha lá a enferrujadinha, gente — dizia, rindo. — Ainda grudada em mim, Sarah ? A sala inteira ria. No sonho, o som era distorcido, exagerado, quase c***l. Sarah sentia o rosto queimar, o corpo encolher. Tentava falar, mas a voz não saía. Noah nem olhava para ela direito. Virava o rosto. Ignorava. Como se o beijo nunca tivesse existido. E ali, no sonho, vinha a decisão. Sarah via a si mesma sentar no fundo da sala. Abrir o caderno. Endireitar a postura. O rosto neutro. O olhar firme demais para alguém tão jovem. Era o dia em que ela parava de falar com ele.. ou pelo menos tentaria. Noah ainda aparecia depois tentando puxar conversa, brincando como se nada tivesse acontecido. Mas ela não respondia. Não sorria. Não explicava. No sonho, ele parecia confuso. Ela, não. O sonho terminava com Sarah olhando para frente, escrevendo algo no caderno, enquanto a voz de Noah ficava distante, irrelevante. Ela acordou de repente, o coração disparado. O quarto estava escuro. Silencioso. Sarah levou a mão ao peito, respirando fundo, tentando se situar no presente. Itália. Apartamento. Adulto. Escritora. — Droga… — murmurou. Não era saudade. Era memória não resolvida. Ela virou de lado, encarando a parede, sentindo uma clareza incômoda se instalar. Ela não tinha parado de falar com Noah só por orgulho. Tinha sido sobrevivência. E talvez só talvez fosse exatamente essa linha tênue entre beijo e humilhação, entre carinho privado e desprezo público, que faltava no livro. O gelo tinha nascido ali. O fogo também. Sarah fechou os olhos de novo, não para fugir do sonho… mas com a sensação inquietante de que, ao acordar de verdade, já sabia exatamente por onde a história precisava começar
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