Capítulo 18 - O Aniversário

1022 Palavras
Liam Dirigi em silêncio. O carro parecia pequeno demais para a fúria que me consumia. Eu a ouvia respirar, lenta, pesada pelo álcool. Ainda assim, cada som dela me atingia como um convite. Quando finalmente estacionei em frente à mansão, fiquei alguns segundos sem me mover. Eu podia simplesmente deixá-la ali, dormir no banco de trás como uma qualquer. Mas Kyra não era qualquer. Nunca foi e nunca seria. Saí do carro, contornei até a porta traseira e a abri. Ela me olhou com os olhos semicerrados, a maquiagem borrada, os lábios entreabertos. Linda. Mesmo destruída, ainda era linda. — Vamos. — Minha voz saiu firme ao encará-la. Ela balançou a cabeça, como uma criança birrenta. — Não quero... você me odeia... — o sussurro m*l alcançou meus ouvidos. — Pode ir, eu vou sair do seu carro assim que você der às costas. Inclinei-me e, sem pedir permissão, passei um braço por baixo de suas pernas e outro em sua cintura, erguendo-a. Kyra arfou, surpresa, mas não fez questão de me soltar. — Me solta... — ela gemeu, fraca. — Cale a boca. — Rosnei baixo, subindo os degraus da entrada. — Já causou problemas demais por hoje. Atravessamos o corredor em silêncio. Julie dormia no quarto dela, alheia à tempestade que era a babá que eu havia trazido para nossas vidas. Levei Kyra até o quarto de hóspedes — o dela. Empurrei a porta com o pé, caminhei até a cama e a depositei sobre o colchão. Ela tentou se sentar, mas tombou de lado, rindo amargamente e caindo no chão em seguida. — Viu? Não sirvo pra nada. Nem pra ficar em pé. — Talvez porque eu não queira mesmo. Senti a mandíbula travar. Ajoelhei ao lado da cama e puxei seus pés delicados. Retirei as sandálias gastas e joguei-as para o canto. A levantei do chão do chao colocando-as na cama, depois puxei o lençol e a cobri. Não por gentileza, mas porque era meu dever como homem naquele momento. Meu olhar percorreu cada detalhe dela. O pijama amassado, os cabelos desgrenhados, o perfume barato misturado ao cheiro de álcool. E tudo em mim gritou: Ela ficaria perfeita acorrentada. A imagem veio tão nítida que fechei os olhos por um instante. O quarto debaixo, o que ninguém mais conhece, piscou em minha mente como uma tentação constante. A cruz de madeira, as correntes, o chicote pendurado. E Kyra... ajoelhada, submissa, os olhos marejados, implorando não por piedade, mas por mais. Abri os olhos e a encontrei me observando, confusa, vulnerável. — O que está pensando...? — ela perguntou, quase um sopro. — Vai me mandar embora depois de hoje? Ou me dizer que sua Ana nunca havia lhe feito vergonha? — Ela ria com um tom sarcástico, como se aquilo fosse uma brincadeira batata entre a gente. Me levantei bruscamente. — Nada que lhe diga respeito. — Endureci a voz, antes de sair do quarto e fechar a porta com força. Mas a verdade é que tudo nela me dizia respeito. Fui direto ao porão. A chave girou fácil, e ao entrar no quarto de b**m, senti o ar frio me acolher. As correntes tilintaram quando passei a mão. Caminhei até a poltrona de couro e me joguei nela, pressionando os olhos com as mãos. Para não enlouquecer, precisei de outra mulher. Liguei para uma das submissas habituais. Alta, magra, cabelos castanhos longos. Ela chegou em menos de uma hora, obediente. Vesti-a, ordenei que se ajoelhasse. Ela era perfeita, quase perfeita. Fechei os olhos e imaginei Kyra em seu lugar — pela segunda vez seguida. A pele dela, o olhar dela, os lábios trêmulos dela. Tudo me lembrava ela, mas outra vez era uma tentava falha, porque não era a p***a Sá babá da minha filha. — Senhor...? — a submissa chamou, insegura. Abri os olhos. A ilusão se desfez. Não era Kyra. Nunca seria. Afastei-me, irritado, batendo na porta para que ela fosse embora. Fiquei sozinho, de novo, com a sensação sufocante de que estava perdendo o controle. E tudo por causa de uma mulher que eu mesmo humilhei, afastei e agora estou buscando redenção em semelhanças que possam me lembrar ela. Kyra Quando abri os olhos, já era madrugada. Minha cabeça latejava, e o gosto de álcool amargo ainda queimava na minha boca. Estava na cama, coberta, os pés descalços. Então, lembrei do rosto de Liam e de suas pequenas gentilezas. A retirada de sapatos, o lençol sendo puxado até acima dos meus ombros, lembro dele até apagando as luzes. Por que Liam se importava? Por que, depois de me esmagar com palavras cruéis, vinha me resgatar como se eu fosse uma criança perdida? Rolei de lado, abraçando o travesseiro. O cheiro dele ainda impregnava o ar do quarto. Eu odiava. Eu odiava o quanto aquilo me fazia sentir segura, mesmo depois de tudo. Quis levantar, ir embora, mas minhas pernas ainda estavam pesadas. Então, ouvi. Passos no corredor. Depois, silêncio. Então, uma porta sendo fechada com chave. Assim como na outra vez. O barulho vinha do mesmo lugar, seria um quarto secreto? Curiosa, levantei devagar. Fui até a janela e vi o reflexo da mansão no vidro. As luzes do porão estavam acesas. Meu coração acelerou. O que Liam escondia lá embaixo? Voltei para a cama, inquieta. Por mais que tentasse me convencer de que não me importava, sabia que não era verdade. Porque, de algum modo, eu já estava presa a ele. E, talvez, ele soubesse disso melhor do que eu mesma. Parte de mim só não queria admitir. E por mais que eu queira fugir, ainda não posso. Seria desumano da minha parte ir embora nas vésperas do aniversário Julie. Seria crueldade. A Isabelle já teria ido embora, fugido na primeira vez que tivesse oportunidade, mas eu sou a Kyra agora. Quero poder ser diferente do que eu não pude ser ao lado de Marco. Mas, parece que Liam sufoca tudo que eu chamei de liberdade algum dia, e por certa parte, isso me destrói mais do que eu gostaria de admitir. Porque não é somente por Julie que permaneço, também por Liam.
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