Liam
Eu devia estar satisfeito. Eu a vi tremer quando ergui a voz, vi os olhos dela se encherem de lágrimas contidas quando a lembrei, mais uma vez, do lugar que ocupa: a babá da minha filha, nada mais. Fiz de propósito, é claro. Precisava daquilo. Precisava me convencer de que não estava deixando Kyra atravessar barreiras que não deveriam existir. Que não havia mais espaço para ninguém além de mim.
Só que, ao invés de me sentir no controle, fiquei em fúria. Porque a maldita desapareceu antes de amanhecer. Passei a tarde inteira ligando, e nada. Julie me perguntava onde ela estava, e eu menti sem pestanejar, dizendo que Kyra tinha resolvido visitar uma amiga. Mas, por dentro, eu estava em combustão. Eu sabia. Sabia que ela não iria para qualquer lugar seguro, sabia que ela era teimosa o bastante para se colocar em risco. Ela é imprevisível demais. Mas não desisti, eu iria encontrá-la. Minha filha precisava de uma resposta.
Quando o carro preto estacionou diante daquele bar imundo na periferia, eu quase sorri. Aquilo era tão Kyra. Ela nunca escolheria um restaurante sofisticado, nem teria coragem de ir a um hotel caro sozinha. Não. Ela preferiria se esconder num buraco barato, com cheiro de cigarro e cerveja azeda. Onde sabia que era pouco movimentado e procurado.
Desci do carro e o segurança tentou me impedir de entrar. Olhou para o meu terno, meu relógio, como se dissesse que eu não pertencia àquele lugar. Eu o encarei uma única vez e ele se afastou. Lá dentro, o som alto e os risos forçados me agrediram. Mas nada me afetou tanto quanto a visão dela.
Kyra estava encostada no balcão, os cabelos soltos em desordem, os olhos marejados, a boca vermelha de álcool. Havia um copo vazio à frente dela e outro já sendo preenchido pelo barman. Ela não me viu. Ou talvez tenha visto e apenas tenha decidido me ignorar. O i****a ao lado dela tocou-lhe o braço, tentando uma aproximação barata. Kyra não reagiu. Estava mole, entregue, como se tivesse desistido até mesmo da própria raiva.
E foi nesse momento que eu percebi: eu não podia permitir que outro a tocasse. Cruzei o bar em passos firmes. O sujeito ainda falava alguma coisa ao pé de seu ouvido quando agarrei o braço dela e a puxei para mim.
— Ela não está interessada. — Minha voz cortou o ambiente como uma lâmina. — E também não está sozinha. Cai fora.
O homem protestou, mas um único olhar bastou. Ele recuou, envergonhado, talvez até assustado. Kyra me olhou, confusa, com aquele misto de ódio e necessidade que me destruía. Eu queria beijá-la, tirar todo aquele ódio que ela tem dentro de si.
— Me larga… — ela sussurrou, a voz embargada. — Eu não pedi pra você vir aqui. Isso não é lugar para você, Liam. Me solta. Vai embora.
— Não. — apertei seu pulso com mais força. — Mas você é minha responsabilidade. Até que se prove o contrário. Julie está te esperando. Vamos embora.
Ela riu. Uma risada amarga, carregada de dor e bebida. Não estava bêbada o suficiente, mas também não tão lúcida.
— Responsabilidade? Não foi isso que você disse. Você disse que eu não passo de uma babá. Que sou nada. O que está fazendo aqui então? Não percebe que esse não é o seu lugar? Vai embora, Liam. Aqui você não é meu patrão e eu não sou sua babá. Eu vou chegar em tempo de trabalhar, lúcida e sóbria, fica tranquilo.
Cada palavra foi como uma facada. Mas eu não recuei. Não posso recuar. Ela estava querendo se destruir, mas eu não quero minha babá destruída.
— Exato. — Inclinei meu rosto próximo ao dela, para que apenas ela ouvisse. — E é justamente por ser minha babá que não vou permitir que se desfaça em pedaços nesse lugar de merda. Agora levante e vamos embora. Eu não vou sair daqui sem você. Não adianta insistir.
Ela tentou resistir, mas estava fraca demais. Então, eu a puxei pela mão, ignorando os olhares, ignorando os protestos dela. Passei um braço firme em sua cintura e a arrastei até o carro. Ela se debateu. Chorou. Me xingou. Mas eu não soltei. Nem protestei nada.
Quando finalmente a coloquei no banco de trás, prendi o cinto e fechei a porta com violência. Respirei fundo antes de entrar no carro. Minha mão tremia. Não de raiva, mas de algo muito pior. Eu a queria ali. Eu a queria naquela submissão torta. Eu a queria aos meus pés, chorando e ao mesmo tempo implorando por algo que só eu poderia dar.
Mas não era hora. Ainda não. Liguei o carro, sem olhar para ela. Se eu olhasse, cederia e as coisas não iriam acabar bem.
— Nunca mais ouse desaparecer assim, Kyra. — minha voz saiu baixa, mas carregada de veneno. — Você não faz ideia do que pode acontecer se me... se sair sozinha, a essa hora e para um lugar tão decadente como aquele. Você não é assim, Kyra.
Não esperei resposta. Talvez porque sabia que a dela me destruiria mais uma vez. Ela sabe que poderia responder, mas preferiu se manter calada
Kyra
Eu estava cansada. Tão cansada para rebater as provocações de Liam, que o mais viável era deixá-lo falando sozinho.
As palavras dele ainda pariravam em minha mente. Você é só a babá da minha filha. Eu já devia estar acostumada, já devia saber que não poderia esperar nada de diferente de Liam Blackthorne. Mas doeu. Doeu como se ele tivesse arrancado um pedaço de mim. Mas, o que eu posso esperar? Eu sou realmente somente uma funcionária imprestável de um bilionário arrogante e viúvo.
Então eu fugi. Fui para o único lugar que minha mente perturbada conseguiu encontrar: aquele bar barato, onde ninguém me conhecia, onde eu podia beber até esquecer. Eu já era conhecida, uma visitante antiga, desde que cheguei na cidade. Mas não esqueci. Cada gole me lembrava mais dele. Cada risada falsa ao meu redor soava como escárnio. E quando aquele homem tentou falar comigo, eu quase permiti. Quase deixei que ele me levasse, só para provar a mim mesma que Liam não tinha poder sobre mim.
Só que ele tinha. Sempre teve. Quando vi Liam atravessando o bar, de terno, imponente, os olhos ardendo de fúria, eu sabia que não tinha mais escolha. Eu estava presa. Presa nele.
Ele me arrancou de lá como se eu fosse um objeto. Não importava quem olhasse, não importava o quanto eu implorasse. Ele não me soltava. E, no fundo, parte de mim não queria que soltasse.
No carro, tentei dizer alguma coisa, mas minha voz falhou. Estava bêbada, sim, mas não tanto para não perceber a tensão. Liam estava controlado por um fio. Ele segurava o volante como se estivesse tentando esmagá-lo. Eu não quis arriscar a dizer algo que o irritasse.
— Por que veio atrás de mim? — consegui murmurar, a voz arrastada. — Você não se importa. Você nunca se importa. Eu não sua responsabilidade, Liam. Eu não vou fugir, tá legal? Só não faz mais isso, por favor. Não vai mais atrás de mim.
Ele não respondeu de imediato. Apenas respirou fundo, como se cada palavra fosse uma luta.
— Porque você me pertence, Kyra. Querendo ou não. E você sabe disso, p***a. Agora não enche a p***a da minha paciência. Só não faz mais isso de sair sozinha, nunca mais.
Meu coração disparou. A raiva e o desejo se misturaram como veneno. Eu devia odiá-lo. Eu devia saltar daquele carro e nunca mais olhar para trás. Mas eu não conseguia. Apenas encostei a cabeça no vidro e fechei os olhos, tentando esquecer o quanto aquelas palavras me destruíam. Porque, no fim, eu sabia que ele tinha razão...
— Eu não sei mais o que dizer, Liam. Não quero causar problemas para sua família, entende?