Liam
Julie faria quatro anos em três dias. Três. E, como em tudo na minha vida, nada poderia ser medíocre. O aniversário da minha filha não seria apenas uma festa infantil, mas um espetáculo digno da herdeira que ela é. Da única Blackthorne inocente.
Passei a manhã em reuniões com organizadores, floristas, fornecedores. O jardim precisava ser transformado em um palco de contos de fadas: bailarinas, coelhos, música suave. Balões não bastavam — eu queria esculturas de gelo, fontes de chocolate, convites que mais pareciam obras de arte. Julie não se lembraria de cada detalhe agora, mas eu queria que, no futuro, soubesse que nunca economizei esforço para ela. Que jamais impus a palavra "não vai dar", quando o assunto era ela.
E, ainda assim, a cada passo dado, minha irritação crescia. Porque não era apenas sobre flores e mesas. Era sobre Kyra. Ela sobre a constante ausência dela — mesmo com sua presença constante na mansão — ela não parecia estar ali.
Ela organizava tudo com zelo quase exasperante. Eu a observava de longe, ajustando laços de guardanapos, conferindo a posição de cada cadeira. Suas mãos delicadas se moviam com precisão, mas o que me prendia era o suor em sua nuca, a curva suave da coluna quando ela se abaixava. Ela parecia feita para estar sob comando — o meu comando.
A raiva me corroía porque não podia simplesmente tomá-la. Não ainda.
Decidi quebrar a rotina naquela noite. Convidei as duas para jantar. Era uma maneira de observar Kyra fora das paredes da casa, de testá-la, de medir até onde iria. Julie, animada como sempre, vestiu-se de azul. Ela parecia uma boneca viva.
O restaurante estava iluminado em dourado, discreto e sofisticado. Julie ria, batendo os pés, enquanto Kyra cortava cuidadosamente o pedaço de bolo que a menina insistiu em comer antes da refeição. Eu a observava. O modo como ela soprava o garfo, testando a temperatura antes de dar à criança. Era um gesto simples, mas íntimo. Tão íntimo que me fez ranger os dentes.
Foi quando meu irmão apareceu. Um i****a que evolheu morar com nosso pai, quando ele abandonou nossa mãe quando ela mais precisava.
— Então esta é a sua amiga? — perguntou, descarado, os olhos fixos em Kyra. — Belos cabelos... combina com seus olhos. — A piscadela me tirou o fôlego, e aquilo estava por um fio.
Minha mandíbula travou. Eu mesmo havia escolhido a palavra amiga. Não quis chamá-la de babá diante de olhares curiosos, não quis reduzi-la. Mas ouvir um elogio daqueles me incendiou por dentro.
— Ela não é minha amiga — retruquei, seco. — É a babá da Julie. Apenas isso.
— Oh, não foi isso que disse ao acionistas. Mas, passar bem, Liam.
O riso debochado dele ainda ecoava quando se afastou. Vi os ombros de Kyra se encolherem, os olhos abaixarem. Ela engoliu o silêncio como quem engole veneno. Eu deveria ter ficado satisfeito. Mas o incômodo de ver outro homem sequer considerá-la era insuportável.
A noite terminou com Julie dormindo no carro, o rosto colado ao vidro. Kyra permaneceu quieta.
— Boa noite, senhor Blackthorne. — Ela apenas subiu para deu quarto, e eu não respondi.
Quietude que me perseguiria até a madrugada.
Quando a casa mergulhou no silêncio, eu desci.
O porão me recebeu com cheiro metálico e couro impregnado. Acendi as luzes baixas em tons vermelhos, revelando correntes penduradas, algemas de aço polido, chicotes alinhados como instrumentos de uma orquestra obscura — onde eu era o maestro. A cadeira no centro, revestida de couro n***o, esperava a isca. Cada peça ali carregava lembranças de corpos submissos, de vozes suplicando, de gemidos entre dor e prazer.
Mas, ao caminhar pelo espaço, não eram lembranças que surgiam. Era Kyra. Sua boca comprimida quando me pede desculpas. Seus olhos sempre fugindo dos meus. Sua voz suave, tão fácil de ser dobrada. Era ela que eu via amarrada nas correntes. Era a voz dela que eu imaginava dizendo sim, senhor. Assim como quando ela me chama de Blackthorne.
Eu precisava acabar com aquilo. Não podia permitir que uma babá me consumisse. Escolhi, então, uma mulher do clube. Morena, olhos claros, semelhante a ela de forma quase doentia — ou doentia mesmo.
Coloquei-a no centro do quarto, o corpo à disposição. O couro rangeu quando prendi os pulsos dela. Ela gemeu, ansiosa, pronta para obedecer. Minha mão pairou sobre a pele dela. Mas o toque não veio. Meu corpo não respondeu. A imagem que me assolava era a de Kyra — e não daquela estranha. Mesmo que semelhantes, não eram iguais. Ela jamais seria a Kyra.
Afastei-me como se tivesse sido queimado.
— Vá embora. — A ordem saiu seca, sem espaço para réplica.
Ela me olhou confusa, mas obedeceu. Quando a porta se fechou, o silêncio me esmagou. Eu estava sozinho entre correntes, aço e couro. E mesmo cercado de tudo que me definia, eu não tinha nada além do vazio que gritava dentro de mim.
Porque o que eu queria não estava ali. Estava dois andares acima, dormindo em um quarto que nunca deveria ser dela. Apesar de ter um desses quartos ao lado do dela, não tem jamais minha essência lá dentro.
Kyra
O aniversário de Julie estava a três dias de distância, e a casa parecia um campo de guerra. Floristas entrando e saindo, caixas empilhadas, funcionários carregando decorações. Eu tentava organizar cada detalhe, como forma de agradar a garota, mas havia algo pior do que o cansaço físico: a presença constante de Liam me observando.
Ele me observava. Sempre. Como se medisse cada movimento, como se buscasse um erro para me esmagar com palavras afiadas. Para me ensinar a forma correta, sem erros.
No jantar, me surpreendi quando ele me apresentou como “amiga". Por um instante, quase acreditei. Mas bastou o irmão dele aparecer para destruir a ilusão. O elogio aos meus cabelos fez meu rosto arder, e antes que eu pudesse reagir, Liam cortou a cena como uma lâmina. Impedindo que eu pudesse falar por mim mesma.
“É apenas a babá da Julie. Apenas isso.”
As palavras pesaram mais do que deveriam. Eu sabia meu lugar. Sabia o que era. Mas ainda assim doeu ser reduzida à função diante de estranhos, como se eu fosse invisível. Até porque se fosse para estar ali como babá, jamais teria saído do quarto.
A volta para casa foi silenciosa. Julie dormia tranquila com o rosto emcostado na janela, mas eu estava acordada por dentro, cada nervo latejando. Com vozes fritabdo em minha mente, sem fazer sequer um segundo de silêncio.
Tentei ler, mas o silêncio da mansão não era um silêncio comum. Era pesado. Como se Liam respirasse nos corredores mesmo sem estar ali. Ouvi uma porta bater em algum ponto do andar de baixo e estremeci. Ele estava acordado.
E a sensação que me dominava era a de que havia algo nele que eu não conhecia. Algo escondido em algum canto da casa. Um lugar onde sua escuridão não era apenas uma sombra, mas a essência. O quarto de submissão era ao lado do que eu estava, então o que ela fazia lá embaixo?
Deitei, mas não consegui dormir. O coração acelerava, e não era só medo. Era algo que me confundia, que me fazia querer fugir e, ao mesmo tempo, permanecer. Porque, no fundo, eu sabia: Liam não era apenas meu patrão. Ele era uma prisão que começava a me atrair. E eu temia que, quando percebesse, já seria tarde demais para escapar.