Capítulo 15 - Jantar na Varanda

1287 Palavras
Liam O vento daquela noite não perdoava. Gélido, cortava a pele como pequenas lâminas invisíveis. A varanda estava perfeita — velas tremulando, as estrelas expostas como se estivessem aqui apenas para mim e para ela. Mas quando olhei para Kyra, percebi o erro: o pijama fino, quase transparente sob a luz amarelada, denunciava que ela tremia levemente, tentando disfarçar. Ela nunca pede nada. Nunca reclama. Prefere sofrer em silêncio, como se não tivesse o direito de existir de verdade. Isso me corrói mais do que eu gostaria de admitir. Porque no fundo, eu queria que ela fosse de pedra, não vidro. Levantei-me sem pensar muito, caminhei até a sala e trouxe uma manta de lã cinza. Coloquei-a sobre os ombros dela, sem pedir permissão. O gesto foi simples, mas íntimo. Mais íntimo do que eu deveria permitir. Mas confesso que gostei. — Não quero que congele enquanto conversamos. — Minhas mãos roçaram em seus braços ao ajeitar a manta. O arrepio que percorreu seu corpo não foi só pelo frio. Eu sei reconhecer quando toco em algo proibido. Kyra não me olhou. Mordeu o lábio inferior, talvez para não dizer o que realmente pensava — ou a atormentava. A cada dia percebo que ela esconde mais de si mesma do que revela. Sentei-me de novo, inclinei-me para frente e a encarei. Sem disfarçar que ela me despertavaos maiores dos interesses. — Você me disse que tudo em mim te atrai… mas insiste em se colocar atrás dessa muralha de proibições. — Abaixei a voz, grave e lenta. — O que te assusta tanto, Kyra? Sou eu? Ou o que você acha que eu sou? Ela respirou fundo, desviando o olhar para o vinho que repousava na taça. Suas mãos trêmulas revelavam a fragilidade que tentava encobrir. — Não é você que me assusta. — murmurou. — É o que pode acontecer se eu me permitir ir mais além. Entende? Fiquei em silêncio por alguns segundos, processando suas palavras. Eu conheço o medo dela, ainda que ela não confesse. O passado a persegue. E eu… eu não sou exatamente um refúgio seguro. Muito menos um homem que se importa. — Eu também tenho medo. — Admiti, com um sorriso torto, quase cínico. — Medo de me arrepender do que não faço. De olhar para você todo dia e me convencer de que não devo querer… quando, na verdade, tudo que eu quero está sentado à minha frente. Tem os olhos castanho e minha filha adora. Ela ergueu os olhos para mim. Não havia desafio, mas uma vulnerabilidade que me atingiu mais do que qualquer rejeição poderia. Aproximei a taça dos lábios, bebi um gole de vinho, e então me inclinei na direção dela. Não a toquei dessa vez. Apenas deixei o peso das minhas palavras pairar entre nós. — Eu não compro pessoas com flores, colares ou jantares improvisados. Mas você… — soltei um riso abafado — você me faz querer tentar, Kyra. Você embaralha meus pensamentos de uma forma que eu não poderia me deixar permitir. O silêncio se instalou de novo. A respiração dela era audível, como se o ar ao redor estivesse pesado demais. E estava. Se eu me inclinasse apenas alguns centímetros, poderia provar da boca que tanto me provoca. Mas segurei. Porque parte de mim quer que seja ela quem atravesse essa linha. — Fale, Kyra. — pedi, quase como uma ordem. — Eu já abri a porta. Agora é você quem decide se entra ou não. Eu quero você, não somente como babá, mas como alguém que eu possa ter confiança. Kyra O tecido quente sobre meus ombros me surpreendeu mais do que qualquer palavra dele. Não era apenas uma manta — era o gesto de alguém que observa, que se importa. E isso, vindo de Liam, é tão perigoso quanto um veneno doce. Eu não podia me iludir. Aquele homem não é meu. Nunca seria. Eu era apenas a babá da filha dele, alguém de passagem, destinada a desaparecer da vida dos dois no momento em que Julie estivesse melhor. Ainda assim… como resistir? O calor da manta se misturava ao calor que ele me provocava apenas com o olhar. Eu estava encurralada. Ele me falava de medo e desejo, e tudo dentro de mim gritava para fugir. Mas minhas pernas não obedeciam. — O que me assusta, Liam… é perder o pouco que ainda tenho de mim. — Minha voz saiu baixa, embargada. — Já perdi pessoas que amava. Já fui destruída por mãos que deveriam me proteger. Eu não posso me dar ao luxo de ser destruída outra vez. Não posso me destruir sempre que você me lembra que eu não sou a Ana. Acho melhor continuamos assim... eu sou a babá da sua filha, e a mulher que você decidiu dar uma oportunidade de emprego. Ele me ouviu em silêncio. Seus olhos não se desviaram um instante sequer. Aquela intensidade me queimava por dentro. — Você acha que eu vou te destruir? — ele perguntou, num tom tão firme que me arrancou o fôlego. — E me desculpa, pelas vezes que eu fui um i****a com você. Eu realmente não queria... você nunca vai ser igual a ela, porque ela era podre. — Eu acho que você pode sim, me destruir — confessei. — Quanto as suas desculpas, eu aceito. Mas não pensei que eu também não sou suja. A admissão saiu como uma lâmina, cortando o ar entre nós. Ele fechou os olhos por um segundo, respirou fundo, e quando abriu novamente, havia algo diferente ali. Não era apenas desejo. Era convicção. Era certeza. Ele queria e de que iria conseguir. — Então deixa eu te provar o contrário. — disse, a voz grave, arrastada, carregada de uma promessa que me apavorava mais do que qualquer ameaça poderia. — Fala alguma coisa... Fiquei imóvel. Parte de mim queria correr, me trancar no quarto e fingir que nada disso estava acontecendo. Mas a outra parte — aquela que ainda acreditava que poderia ser feliz — queria ficar. Bebi o vinho de um gole, tentando anestesiar a confusão dentro de mim. Ele riu baixo, como se tivesse entendido a fuga disfarçada no gesto. — Você se esconde até quando está diante de mim. — Ele se inclinou mais perto, o suficiente para que eu sentisse o calor de sua respiração. — Mas eu vou continuar tirando suas defesas, uma a uma. Até que entenda que não está sozinha. Meus olhos se fecharam por reflexo. E quando os abri, encontrei os dele fixos nos meus, famintos, perigosos. — Liam… — minha voz falhou, como um sussurro implorando para que ele me poupasse — ou que me devorasse. — O que foi? — ele pressionou, quase roçando seus lábios nos meus. — Está esperando que eu te beije? Ou está torcendo para que eu não faça? Meu corpo inteiro vibrou com aquela provocação. Eu sabia que deveria afastá-lo, que deveria lembrá-lo do que sou — apenas a babá, apenas alguém de passagem. Mas tudo que consegui fazer foi encará-lo, perdida, sem resposta. Ele não me beijou. Não ainda. Apenas afastou-se devagar, deixando uma ausência que me fez estremecer. — Pense nisso, Kyra. — murmurou. — Porque eu já pensei demais. Eu sei o que eu quero, espero que saiba também. Ficamos ali, em silêncio, com as estrelas como testemunhas. Eu, enrolada na manta que ele me deu, tentando não ceder ao desejo que crescia a cada segundo. Ele, me observando como quem já decidiu que não vai desistir. E, naquele momento, eu percebi: não importa o quanto eu lute contra, Liam Blackthorne já tinha começado a quebrar minhas barreiras. E essas barreiras são mais visíveis do que eu poderia imaginar. Droga!
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