Liam
A reunião parecia interminável. Tudo ali era artificial e chato. Jovin falava sobre números. Gráficos. Estratégias. O mesmo de sempre. Os outros só balançavam a cabeça como se estivessem ali para me agradar, não para fazer algo útil. Como se fosse possível algum deles acertar alguma coisa uma vez na vida. E ainda assim… tudo o que eu conseguia pensar era nela, em Kyra. Na forma como ela apareceu com as chaves na mão, como se o caos fosse algo que ela pudesse resolver com um estalar de dedos.
A forma como ela não me olhou nos olhos… como se soubesse exatamente o que estava fazendo comigo. Aquela mulher está me enlouquecendo mesmo sem saber, e eu ja nao estou mais sabendo lidar com isso.
Não é só o jeito como ela cuida de Julie. É como ela age… Como se não me temesse. Como se não me quisesse, tanto quanto eu quero era.
E talvez esse seja o maior atrativo. A maioria se curva diante mim. Enquanto ela me enfrenta.
Quase joguei o celular contra a parede quando vi a hora: 23h16. E ainda estávamos debatendo sobre a a******a da nova sede. Mas a verdade, era que ninguém estava indo realmente ao que interessava. Idiotas engravatados.
Levantei abruptamente. Sem pensar antes de agir.
— A reunião termina aqui. Amanhã, às 9h, quero um novo plano de ação com soluções reais. E dessa vez, me surpreendam. Se vierem com algo i****a como os assuntos debatidos hoje, todos vocês podem se considerar demitidos. Estou cansado de idiotas fazendo graça.
Ninguém protestou. Não ousariam.
Peguei o carro e fui direto pra casa.
O portão já estava trancado. A mansão silenciosa. Luzes apagadas, como se agora eu pudesse ver o quão sombra era minha casa. O quão distante da cidade eu estava.
“Ela já foi?”, pensei, decepcionado, mesmo sem razão pra isso. Após abrir a porta e não vê-la nos corredores ou em seu quarto. Subi até o quarto de Julie. Ela dormia tranquila, abraçada ao urso preferido, um colehinho de pelúcia. A janela entreaberta deixava entrar um vento leve. E então, eu vi a pequena luz lá fora... na casa da árvore. Desci sem pensar, como um adolescente indo ao encontro da sua namorada, em plena puberdade.
A madeira rangeu sob meus passos. A escada de corda ainda balançava. E lá dentro, sob um cobertor leve, estava ela, dormindo, como se o mundo fosse seguro demais. Os cabelos presos num coque bagunçado. Um livro aberto em seu colo. Uma xícara de chá — ainda morna — repousava sobre uma mesinha improvisada.
E ali, na margem da página… anotações feitas à caneta.
Me abaixei para ler, mesmo sem permissão. Apenas curiosidade mesmo.
"Ele nunca disse que a amava. Mas a forma como a observava… como tocava sua dor com os olhos, era mais devastadora do que qualquer palavra. Seria alguma ilusão psicodélica, ou seria real?"
Havia bastante anotações nas páginas em branco. Era algo pessoal demais para que eu me metesse. Tirei a xícara de perto dela, para que nao caísse por cima dela ao despertar. Ao seu lado havia um edredom, e ela era esperta, pois a noite estava fria.
Olhei ao redor e percebi que havia algumas caixas com papéis de paredes, luminárias para as paredes e várias outras coisas que eu jamais pensaria em comprar. Me virei rápido e quase me assustei ao vê-la acordada.
— O que está fazendo aqui? — murmurou, com a voz rouca de sono, puxando o coberta contra o corpo, como se estivesse se escondendo de mim.
— Eu ia te perguntar a mesma coisa. — Respondi brevemente, como se aquilo fosse coincidência.
— Julie quis dormir na casa da árvore outro dia. Achei que ela pudesse gostar se eu a deixasse decorada. Com coisas de meninas, ela vai... — Ela hesitou, mas como se estivesse lembrado de algo, me olhou com pudor. — Desculpe por quebrar mais uma regra, não acontecerá novamente.
— Você sempre fica onde não deve. Poderia pegar um esfriado aqui fora. Está frio, por que não entra?
Ela não respondeu de imediato, nem me olhou nos olhos e muito menos, puxou a coberta na altura dos s***s e respirou fundo.
— Li suas anotações — confessei.
— E deve ter visto que não ha nada de interessante.
— Mas você escreve sobre mim, não é?
Ela desviou o olhar.
— Não. Escrevo que penso e sinto no momento. Geralmente quando estou gritando em silêncio.
— E você está gritando agora?
Ela me encarou, cansada. Ferida.
— Sempre estou.
— Me perdoa por aquele dia — falei, surpreendendo até a mim mesmo.
— Eu já disse que está tudo bem. E por favor, não volte mais a este assunto.
Me sentei ao lado dela, sem tocar. O espaço entre nós era pequeno, mas carregado demais.
— Então por que ainda está aqui, Kyra? O que realmente a trouxe a esta cidade? O que a trouxe para este lugar?
Ela sorriu de canto, melancólica. Como se estivesse sentindo demais, diversas sensações ao mesmo tempo.
— Porque sua filha me olha como se eu fosse o lar que ela perdeu. E talvez… eu esteja tentando me convencer de que ainda posso ser isso pra alguém. — Ela passou e me olhou por cima, como se houvesse dito algo errado — não foi o que eu quis dizer... não quero tomar o lugar de sua... da mãe de Julie. Eu só espero ser uma boa babá para sua filha.
Quis tocá-la. Dizer algo. Mas ela pegou o livro das minhas mãos e se deitou novamente, virando o rosto.
— Boa noite, senhor Blackthorne.
Entendi o recado. Desci a escada em silêncio, mas antes de ir… olhei para trás e percebi que ela estava mais perdida que nunca. Agradeci em silêncio por ela não ter ido embora, mesmo depois da minha reação inusitada e sem pensar naquela noite.
Ana foi o meu grande amor. A mulher que me fez sentir amor e se sentir amado na mesma proporção. Mas, estávamos tendo crises no casamento meses antes dela partir. E embora Kyra seja muuto diferente dela, em certos momentos parece que há semelhanças demais entre às duas. Seria coincidência ou coisa da minha cabeça?