Capítulo 8- Apenas Uma Taça

1072 Palavras
Kyra Percebi quando ele se afastou e aproveitei para levantar, saindo dali o quanto antes. Ao fechar a porta atrás de mim, senti o peso daquela presença. Mesmo sem vê-lo, eu conseguia senti-lo — como se o ar ficasse mais denso. Virei-me tentando fingir que estava tudo bem… mas não estava. — Eu sabia que voltaria — ele disse, como se pudesse ouvir meus pensamentos. — Eu pensei que, já que o senhor chegou, eu poderia ir para casa — fui direta, mesmo sabendo que não era o que ele queria ouvir. A resposta veio rápida e seca: — Não. Se for preciso eu sair para que continue aqui, então, eu sairei. Ele era insuportável. Mas, ao mesmo tempo, havia algo nele… algo que me fazia sentir segura dentro dessas paredes. Olhei o relógio: quase duas da manhã. Ir a pé até meu apartamento era perigoso. Depois de hoje, eu não poderia testar a sorte. — Deixe o orgulho de lado. Aqui, tratamos apenas de trabalho. Entendido, Srta. Lysten? — Entendido, senhor Blackthorne. — Ele permaneceu inerte, bloqueando minha passagem com aquele corpo rígido. O cheiro de uísque impregnava nele, um lembrete c***l do que me disse dias atrás. — Com licença, senhor Blackthorne. Vou para o meu… para o quarto. Meu peito subia e descia, acompanhando o ritmo descompassado do meu coração. Enquanto subia as escadas, senti seu olhar frio me acompanhar — e, sem querer, as memórias do meu passado c***l vieram à tona. "Você não vai a lugar nenhum, Isabelle. E mesmo que consiga fugir de mim, sabe que eu irei encontrá-la. Nem que seja no inferno." As palavras de Marcos ainda assombravam minha mente como se tudo tivesse acontecido ontem, mesmo já tendo se passado um ano desde que consegui fugir daquele inferno. Antes de me deitar, fui até o quarto de Julie. Pela primeira vez, senti o peso esmagador da solidão… do vazio. Eu não tenho ninguém. Minha mãe escolheu ficar ao lado de Marcos. Segundo ela: "As pessoas podem mudar, basta conceder o perdão." Mas eu quero que tenham exatamente o que merecem. Estava indo para meu quarto quando ouvi a voz rouca de Liam chamando meu nome no alto da escada, quase num sussurro. — Kyra… tem um minuto livre? Assenti, mesmo querendo dizer: "Vai se f***r, Liam. Me deixa em paz." Segui-o até a sala de jogos, onde ele se serviu de vodca e fez o mesmo para mim. — Não quero formalidades, Kyra. Quero a verdade. O que a trouxe até aqui? Como e por quê? — O senhor já me fez essa mesma pergunta, e eu já respondi. Vim em busca de melhorias para mim. E acho que estou no caminho certo… até que o senhor queira me substituir. Ele estava curioso demais. Perguntava como se quisesse ser amigável. Mas "amigável" é perigoso, dependendo da segunda intenção. E todo mundo tem uma. Liam Ela era breve, mas fugia com habilidade dos assuntos que me interessavam. Queria me desculpar por ter falado com ela daquela forma… tive um dia exaustivo e, ao lembrar do passado, acabei explodindo. Mas não era só isso. Kyra Lysten não deixava rastros. Nenhuma rede social, nenhuma fotografia recente, nada. Pesquisei fundo e encontrei apenas documentos e registros anteriores. O mínimo para provar que era quem dizia ser. Se está escondendo algo, não vai demorar para que eu descubra. — Ótimo! — Ela me olhou como se esperasse que eu a dispensasse. Mas fiz o oposto. — Quer beber comigo? Você parece ter perdido o sono. Eu também. Ela riu, mas sem graça. Confesso que nem eu me reconheço perto dela. É como se estivesse sendo hipnotizado por alguém que quero desprezar… e ao mesmo tempo, possuir. — Por que eu faria isso? Não somos amigos, senhor Blackthorne. Sou apenas a babá da sua filha. Nada mais. Ela falou baixo, mas em um tom que só eu pude ouvir. E, p***a… todas as vezes que ela me chama de Blackthorne, sinto um desejo incontrolável. — Porque estou pedindo gentilmente. E pedindo também que considere minhas desculpas… e volte a dormir aqui. — Liam… — ela levantou o rosto e me olhou, cansada de lidar com gente como eu. — Estou bem como estou. Estarei aqui para cobrir as noites em que você precisar. Mas não confunda as coisas. Estou seguindo todas as regras que você impôs. — Tudo bem… mas aceita beber um vinho comigo e depois eu a levo para o seu apartamento? Ela me olhou surpresa, talvez se perguntando como eu sabia onde ela morava. — Só uma taça. Ela foi para o jardim enquanto eu descia até a adega. Escolhi um vinho da melhor safra, preparei duas taças, uma tábua de frios e uma manta. Quando voltei, fiquei observando de longe. Ela estava perdida nos próprios pensamentos, ausente, mesmo tão presente. — Você já pensou em ter filhos? — perguntei, sentando-me ao seu lado. Estendi a manta. Ela hesitou, mas aceitou. Seus ombros estavam tensos, e os pelos dos braços arrepiados. Péssima em fingir que estava tudo bem. — Eu… nunca pensei nisso. Filho é responsabilidade. E merece, no mínimo, uma vida digna. — Mas não parece ser isso que preocupa você. — Liam… eu não quero criar um filho sozinha porque o pai me abandonou. Não aguento mais sobrecarga. Eu já estou sobrevivendo. Ela era sensata. Realista. Sensível. Tudo isso numa intensidade que me deixava sem palavras. — Além disso… eu não posso ter filhos. Se algum dia mudar de ideia, terei que encontrar outra forma. Adoção leva anos e eu não teria qualificações para isso. Então, por favor, não falemos mais sobre isso. — Quando a mãe de Julie partiu, eu me senti perdido… Achei que não conseguiria cuidar dela. E acredite, ainda não consigo. Não sei brincar, não sei como lidar com ela. Me sinto um fracassado. A Ana nunca foi apegada. Não queria ter um bebê — isso arruinaria a carreira dela. Quando Julie tinha um ano, ela saiu para se aventurar com o amante e… sofreram um acidente. — Eu sinto muito pelo que aconteceu com sua… — Eu também não sei fazer isso, Kyra. Mas nunca vi Julie tão apegada a alguém quanto a você. Ela não respondeu de imediato. Apenas respirou fundo e se virou para mim, a expressão indecifrável. Fria e vazia. Como se aquilo já nao fizesse mais parte do roteiro em que ela se permite estar.
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