Capítulo 2

1736 Palavras
Descobrir que eu e Charlie ainda tínhamos tanto em comum foi, ao mesmo tempo, surpreendente e confortável. Não era apenas a memória de uma infância compartilhada, mas algo mais profundo, como se certas afinidades tivessem resistido ao tempo e às distâncias. Sentadas no chão da sala, cercadas por caixas ainda fechadas e embalagens de comida improvisada, fomos costurando uma nova versão da nossa amizade. Charlie era obcecada por pipoca. Não qualquer pipoca, mas aquela exageradamente amanteigada, que deixava os dedos oleosos e o ar do apartamento impregnado de cheiro. Eu também gostava, embora sempre reclamasse da bagunça. Ela ria de mim por isso. Gostávamos de filmes antigos, especialmente os que passavam tarde da noite, com trilhas sonoras melancólicas e personagens que pareciam carregar o peso do mundo nos ombros. Filmes que não precisavam de finais felizes para fazer sentido. Johnny Depp surgia naturalmente na conversa, quase como um código secreto entre nós. Adam Levine aparecia logo depois, acompanhado de comentários irônicos e suspiros exagerados. Stephen King e Edgar Allan Poe ocupavam um espaço especial, talvez porque ambos escrevessem sobre medos que nunca sabíamos nomear direito. Charlie falava com paixão sobre Ed Sheeran, citando letras inteiras de cor, enquanto eu defendia Bruno Mars com a mesma intensidade. No fim, concordávamos plenamente sobre Justin Timberlake, como se aquilo fosse um ponto de equilíbrio inevitável. As horas passaram sem que percebêssemos. O chão da sala foi se enchendo de copos vazios, embalagens de pipoca e almofadas espalhadas. A cidade do lado de fora permanecia acordada, barulhenta, pulsante. Dentro do apartamento, o tempo parecia obedecer a outro ritmo, mais lento, mais gentil. Em algum momento, a conversa escorregou para a infância. Lembrei pouco da família de Charlie, mas o pai sempre foi uma presença constante nas lembranças. Protetor, atento, às vezes até demais. A mãe era uma ausência antiga, quase abstrata, uma figura que existia mais em fotos do que em histórias. — Meu pai sempre foi muito jovem pra mim — Charlie comentou, jogando uma pipoca para o alto e errando a tentativa de pegá-la com a boca. — Às vezes acho que ele cresceu junto comigo. — Jovem e bonito — completou, rindo. — Queria me parecer mais com ele, mas sou a cópia exata da minha mãe. Fiquei em silêncio por alguns segundos antes de falar da minha própria família. Não era um assunto confortável, mas também não parecia errado dividi-lo ali. — Meus pais se separaram quando eu nasci — disse, encarando o teto. — Nunca cheguei a conhecê-lo de verdade. Só tenho algumas fotos antigas. Charlie se virou para mim, interessada. — Ele ajudou vocês? — Financeiramente, sim. Ele pagou minha educação. É ele quem está bancando a faculdade. Ela arqueou as sobrancelhas, surpresa. — Pensei que você fosse bolsista. — Nem todo mundo que parece simples é pobre — respondi, rindo, enquanto ela jogava uma pipoca em mim. Falamos então das cidades por onde passei, das mudanças constantes, das escolas que nunca chegavam a ser minhas. Charlie ouviu com atenção, fazendo perguntas pontuais, sem interromper. — Deve ter sido difícil — comentou depois de um tempo. — Nunca imaginei que fosse assim. Dei de ombros. — A gente se acostuma. Ou aprende a não se apegar. Ela ficou pensativa, como se estivesse organizando aquilo dentro de si. — Sempre achei estranho tantas mudanças — disse. — Parece que sua mãe não pensava muito no impacto disso pra você. Senti o desconforto crescer. Não porque ela estivesse errada, mas porque estava perto demais da verdade. — E você? — perguntei, mudando de assunto. — Sempre quis ficar em Nova York? — Nem sempre — respondeu. — Prefiro lugares mais tranquilos, mas meu pai acredita que oportunidades só existem aqui. O celular dela tocou, interrompendo a conversa. Charlie atendeu e se afastou um pouco. Quando voltou, trazia um sorriso travesso no rosto. — Meu pai quer que você jante conosco amanhã à noite. — Eu? — perguntei, surpresa. — Não sei se é uma boa ideia. — Ele vai adorar você — insistiu. — E fica realmente chateado quando alguém recusa. Acabei aceitando, mais para evitar constrangimentos do que por convicção. O relógio marcava quase duas da manhã quando finalmente decidimos dormir. O cansaço chegou de repente, pesado, inevitável. Acordei antes mesmo do despertador tocar. O hábito venceu o sono. Vesti-me para correr e encontrei Charlie já na cozinha, duas vitaminas sobre o balcão. — Coincidência? — perguntei. — Ou afinidade — respondeu, entregando um copo. Saímos juntas. O campus ainda estava silencioso, com poucos estudantes circulando. A cidade começava a despertar aos poucos, com ônibus passando ao longe e o som distante de sirenes. Charlie corria com facilidade. Eu acompanhei no início, mas o ar pesado e o ritmo acelerado me venceram. — Tudo bem? — ela perguntou quando diminuí. — Só preciso de um minuto. Ela respeitou. Caminhamos de volta conversando sobre aulas, professores e expectativas. As aulas passaram lentamente. A professora anunciou um trabalho em dupla. Charlie e eu trocamos um olhar cúmplice. — Jantar na minha casa e trabalho depois — ela propôs. Concordei. À tarde, caminhamos pela cidade. As vitrines chamavam atenção. Um vestido azul-marinho me fez parar. — Você vai comprar isso — Charlie decretou. O preço era alto, mas a sensação de pertencimento falou mais alto. Ela escolheu outro vestido. Rimos. Pela primeira vez em muito tempo, senti que fazia parte de alguma coisa. Enquanto me arrumava à noite, observei meu reflexo com mais atenção do que de costume. Nunca fui a garota mais popular. Sempre fui a que se encaixava, mas nunca a que se destacava. Mas naquela noite, com Nova York do lado de fora e uma nova história começando, algo parecia diferente. A bolsa já estava pronta. O vestido pendia da porta do armário. Do outro lado do quarto, Charlie ainda falava ao telefone, animada. Respirei fundo. Ainda não era o jantar. Mas tudo já tinha começado antes dele. *** O carro para suavemente em frente a um prédio de pedra clara na Upper East Side, desses que parecem existir desde sempre e que, mesmo assim, nunca envelhecem de verdade. Olho pela janela e tenho certeza de que estou no lugar errado. Não porque o endereço esteja incorreto, mas porque tudo ali parece caro demais para mim. Caro demais para minhas inseguranças, para meu vestido comprado em promoção parcelada, para meu coração acelerado. O edifício é imponente, com colunas discretas, janelas altas e uma marquise elegante que protege a entrada. Um porteiro de uniforme impecável se aproxima antes mesmo que eu consiga decidir se devo sair do carro ou fingir que ainda não cheguei. Ele abre a porta com um gesto ensaiado, educado, como se fizesse aquilo desde antes de eu nascer. — Boa noite, senhorita. — Boa noite — respondo, tentando parecer alguém que costuma dizer boa noite para porteiros de prédios luxuosos, o que definitivamente não é o meu caso. Desço do carro com cuidado, torcendo para que o salto não resolva me humilhar logo ali na calçada. O piso é liso demais, perfeito demais, e por um segundo imagino minha manchete nos jornais: Estudante tropeça e morre de vergonha na porta de prédio milionário. Felizmente, nada acontece. O porteiro pega minha bolsa como se fosse uma maleta de diamantes e abre a porta principal. O hall de entrada é silencioso, amplo e cheira a alguma coisa entre flores caras e dinheiro antigo. Há um lustre enorme pendurado no teto alto, refletindo a luz em paredes de mármore polido. Me sinto pequena. Não fisicamente, mas como se tivesse entrado num lugar onde não pertenço, como uma figurante que invadiu o cenário errado. Dou dois passos e paro, sem saber exatamente para onde ir. O porteiro me observa com educação excessiva, claramente esperando que eu diga algo. Abro a boca e fecho de novo. — Eu… — começo. — Vim visitar a família Collins. Ele não parece surpreso. O que, por algum motivo, me deixa ainda mais nervosa. — Claro, senhorita. Décimo segundo andar. Assinto rápido demais, como se soubesse exatamente o que isso significa. Ele aperta um botão discreto e o elevador se abre em silêncio absoluto. Entro e, pela primeira vez desde que cheguei, fico sozinha. O elevador é todo espelhado. Todos os lados. Inclusive o teto. É impossível não se encarar. Ajusto o vestido, o cabelo, o colar. Pisco algumas vezes. Respiro fundo. — Você consegue — murmuro para meu reflexo. — É só um jantar. Pessoas comem em jantares. Você sabe comer. Em geral. A porta se fecha e o elevador começa a subir. Cada andar parece um lembrete do quão alto estou indo, em todos os sentidos possíveis. No sexto andar, meu estômago dá um leve nó. No nono, começo a suar. No décimo primeiro, tenho certeza de que deveria ter recusado o convite e inventado alguma doença exótica. Quando o elevador para no décimo segundo andar, quase me surpreendo por ainda estar ali dentro. A porta se abre para um corredor largo, silencioso, com um carpete claro que parece caro demais para ser pisado por sapatos comuns. Dou um passo hesitante para fora. Antes que eu consiga dar o segundo, escuto uma voz animada. — AMY! Charlie surge do nada, vestida elegantemente, como se tivesse saído direto de uma revista de moda. Ela corre até mim e me abraça com força, ignorando completamente o ambiente sofisticado ao redor. — Você veio! — diz, sorrindo. — Vim — respondo, aliviada por ver um rosto conhecido. — Quase fugi três vezes no caminho. — Normal. Todo mundo tem vontade de fugir na primeira vez que vem aqui — ela ri. — Meu pai chama isso de “charme intimidador”. Olho ao redor. — Intimidador é pouco — murmuro. — Tenho medo até de respirar errado. — Relaxa — ela segura meu braço e me puxa em direção ao apartamento. — Só não fala palavrão no primeiro minuto e tenta não derrubar nada caro. — Isso reduz minhas opções pela metade. Ela gargalha. Paro em frente à porta enorme do apartamento e sinto meu coração acelerar de novo. Charlie aperta o botão da campainha e me olha com um sorriso malicioso. — Pronta? — Não — respondo imediatamente. — Mas vamos fingir que sim. A porta começa a se abrir. E, por algum motivo inexplicável, tenho a estranha sensação de que, depois daquele momento, nada vai continuar exatamente como antes.
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