Pré-visualização gratuita Capítulo 1
Se alguém tivesse me dito que eu passaria por toda essa merda, eu jamais teria acreditado. Eu provavelmente riria na cara da pessoa, chamaria de maluca e diria algo como: “Você é um grande otário.” Depois viraria as costas e iria embora sem pensar duas vezes.
Mas ninguém me contou.
Na verdade, ninguém sequer imaginou que as coisas aconteceriam assim. Nem eu.
Eu entrei aqui como qualquer outra caloura: recém-saída do ensino médio, cheia de sonhos grandes demais para alguém da minha idade. Eu tinha um objetivo muito claro: me tornar advogada. Era o meu plano, o meu caminho, a coisa que eu acreditava que definiria toda a minha vida.
E, no final das contas… eu consegui.
Eu me tornei advogada. Mas a pergunta que realmente importa é: a que custo, senhoras e senhores?
Porque algumas conquistas deixam marcas. Algumas vitórias cobram um preço que você só percebe quando já é tarde demais para voltar atrás.
Essa história é, principalmente, sobre amor.
Sobre como amar alguém pode mudar tudo dentro de você.
Mas também é sobre outra coisa:!É sobre como eu fui completamente quebrada.
Despedaçada.
Arrebatada de um jeito que eu nunca imaginei ser possível, e não sei ainda definir se isso foi bom. E olha que não, eu não estou falando de forma metafórica.
Se você continuar lendo… vai entender exatamente o que quero dizer.
Então considere isso um aviso.
Eu precisava te contar isso antes que você se iluda.
mesmo assim você vai continuar?
bem, eu avisei.
Observo Nova York através do vidro do táxi amarelo, parado (como quase sempre) no trânsito congestionado de Midtown. Buzinas se misturam a sirenes distantes, pessoas atravessam fora da faixa e as luzes dos telões da Times Square piscam mesmo em pleno dia. A cidade não pede licença. Ela ocupa tudo.
Passamos pela Times Square, e eu suspiro, puxada para lembranças antigas. Minha mãe me levando ao Central Park aos sábados, dividindo um pretzel quente enquanto observávamos artistas de rua. As tardes em que assistíamos a musicais na Broadway, quando eu acreditava que o mundo inteiro cabia em um palco iluminado. Uma vez, ficamos hospedadas por apenas um dia no Palace Hotel. Eu era criança, mas ainda lembro da sensação de acordar ali — como se estivesse dentro de um filme. Foi, sem dúvida, um dos melhores dias da minha vida.
Agora, estou aqui sozinha. Não como turista. Como alguém que veio ficar.
Mal posso esperar para chegar à universidade e sentir, finalmente, a liberdade que esperei durante quase toda a adolescência. Estar aqui não é um golpe de sorte — é resultado de esforço. Quando recebi a carta de aprovação da Tribeca University of New York (TUNY), fiquei em choque. Releio aquela mensagem até hoje. Trabalhei demais para chegar até aqui e não vou deixar nada me atrapalhar.
O táxi deixa o fluxo pesado da região turística e segue em direção ao Lower Manhattan. Prédios residenciais substituem os telões, o barulho muda de tom. Chegamos ao campus residencial da universidade, integrado à cidade como quase tudo em Nova York.
O campus não é isolado como nos filmes. Ele se mistura ao bairro, ocupa alguns quarteirões, com prédios acadêmicos, residências estudantis e áreas comuns. Ainda assim, tudo é bem organizado, moderno e funcional. Professores renomados, bibliotecas abertas até tarde, residências com segurança vinte e quatro horas.
Carrego apenas uma mala que é grande demais para alguém que diz estar começando uma nova fase com desapego, mas ainda assim só uma. O restante chegará depois.
O táxi para em frente a um dos prédios residenciais. Uma placa discreta, em tons de malva e branco, indica:
TUNY – Student Housing.
Pago o motorista e desço, arrastando a mala pelo concreto da calçada. Há estudantes sentados nos degraus, outros entrando e saindo com caixas, alguns claramente perdidos. Um segurança confere meu nome na lista antes de liberar minha entrada.
O saguão é amplo, movimentado, cheio de vozes e sotaques diferentes. No centro, uma escultura moderna ocupa o espaço, nada de estátuas clássicas. Um painel eletrônico exibe avisos para calouros, horários de orientação e mapas do prédio.
Olho para as escadas e depois para minha mala, sentindo um leve arrependimento.
— Quer ajuda?
Um garoto ruivo, cheio de sardas e com um sorriso gentil, aponta para a mala.
Assinto, agradecida. Ele a segura com esforço.
— Os elevadores estão lotados hoje — comenta. — Semana de mudança é sempre assim.
— Imagino — respondo, subindo ao lado dele. — De onde você é?
— Brooklyn. E você?
— Iowa. Mas nasci aqui, em Manhattan.
— Sério? — os olhos dele brilham. — Sempre quis visitar Iowa.
— Não está perdendo muita coisa — brinco. — Milho, vento e silêncio.
Ele ri, aliviado.
— Sou o Thomas.
— Amy.
Chegamos ao andar, e ele confere o celular.
— Droga, estou atrasado pra orientação dos monitores. Mas acho que seu corredor é aquele ali.
— Já ajudou bastante. Obrigada, Thomas.
— Bem-vinda à TUNY — diz antes de sair apressado.
Sigo pelo corredor até encontrar o Apartamento 285. Fica no fim, longe do barulho do elevador — um detalhe que já me agrada. Destranco a porta e entro.
O apartamento é exatamente como no site: dois quartos iguais, sala integrada com cozinha americana e um banheiro compartilhado. Funcional, limpo, impessoal o suficiente para se tornar nosso.
Escolho o quarto da esquerda e deixo a mala no chão. A cama e alguns móveis chegarão mais tarde. Sento no piso frio e ligo para minha mãe.
— Amy! Já chegou?
— Cheguei sim. É tudo lindo, mãe.
— E o dormitório?
— Pequeno, mas perfeito.
— Aproveita, meu amor. A universidade é pra viver também.
— Eu sei.
Depois da ligação, organizo o que posso, tomo um banho rápido e tento parecer menos exausta do que estou.
Mais tarde, sento no tapete da sala com o notebook no colo e abro o portal da universidade. Minhas informações estão ali, junto às da minha colega de quarto.
Charlotte Collins. 19 anos. Natural de Nova York.
Curso: Direito (Pre-Law Track).
Filha de uma família tradicional da cidade. O pai dirige uma firma de advocacia respeitada. Charlotte sempre soube onde pisaria. Diferente de mim.
Escuto a porta se abrir e me levanto.
Charlotte entra acompanhada dos funcionários da mudança. Está diferente. Mais adulta. Mais segura. Cabelos ruivos impecáveis, roupas caras, postura confiante.
— Amy! — ela sorri e me abraça.
— Charlie.
— Já escolheu quarto?
— Os dois são iguais.
— Ótimo — ela sorri. — Isso facilita.
Enquanto os funcionários entram com as caixas, ela fala sem parar sobre o curso, os planos, o futuro. Há algo familiar ali, e algo completamente novo.
— Espero que a gente consiga voltar a ser como antes — ela diz por fim.
— Também espero.
Ela entra no quarto para ligar para o pai, e eu ajudo os funcionários a terminar a mudança, sentindo que aquele lugar, pouco a pouco, começa a se tornar real.
Nova York não me espera.
Ela me engole.
E, pela primeira vez, eu deixo.