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ENTRE VIELAS NO MORRO DA PENHA

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Sinopse

Maria Eduarda, 22 anos, filha de Dona Luzia, criada entre as vielas e as promessas quebradas da Penha, finalmente realizava seu sonho: o primeiro plantão como técnica de enfermagem. Mas, ao invés de celebração, o céu desabou. Helicópteros sobrevoando baixo, tiros cortando o ar e um caos de sangue e dor. Do outro lado do morro, Dragon vive a sua própria guerra. Acordado com o pressentimento de que algo r**m ia acontecer, ele sabe que na vida que escolheu só existem dois caminhos: a cadeia ou o caixão. E ele não se permite morrer, não agora, não hoje. Entre fuzis, estratégias e a certeza de que a qualquer momento pode ser o fim, ele só consegue pensar nela: na sua mulher, no seu amor. Em meio a sirenes, gritos e revolta, Madu descobre a dura realidade da profissão e do lugar onde vive. Enquanto tenta salvar vidas no hospital, seu coração aperta ao saber que o homem que ama está no meio do tiroteio. E quando a notícia de que ele pode estar morto chega aos seus ouvidos, ela sente o mundo parar. Na favela, o amor e a morte andam lado a lado. O silêncio é o preço cobrado por quem sobrevive. E eles vão ter que lutar com todas as forças para não se tornarem apenas mais uma estatística nessa guerra sem fim.

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Cap 01 Eu sentia
Maria Eduarda Abro meus olhos e já escuto o barulho de helicóptero. Procuro por meu celular querendo ver a hora e coço meus olhos por causa da claridade. Bom, na verdade ainda eram 5 horas da manhã e eu já sentia que o dia seria difícil por conta do barulho que havia me acordado. Madu: De novo essa porra... — murmuro já de mau humor, coisa que é difícil de acontecer, já que sou uma pessoa totalmente matinal. O que me irritava era saber que tinha helicópteros sobrevoando a favela. Era literalmente o meu dia, o dia pelo qual lutei tanto para conseguir. O mais importante da minha vida: o primeiro plantão no Hospital Estadual Getúlio Vargas. Bom, não foi minha primeira opção, mas foi onde tive a oportunidade do meu primeiro emprego. Jaleco novo que eu mesma comprei, crachá com meu nome... a vida estava sorrindo para mim de novo! Eu estava radiante, mesmo diante de tudo e da realidade difícil que vivemos. Meu dia! Era meu dia! Sinto o cheiro de café da manhã; minha mãe, Dona Luzia, já estava acordada pelo jeito e parecia mais ansiosa que eu. Literalmente 5 horas da manhã, inacreditável. Madu: Bom dia, mãe. — Dei um beijo estalado em sua bochecha após sentir o cheiro de café preto e olho para suas mãos, que estavam um pouco trêmulas. — Aconteceu alguma coisa? Luzia: Duda, vai hoje não, minha filha. Cê tá ouvindo esse barulho? Isso é coisa de operação grande. Há quanto tempo não tinha helicóptero rondando esse morro? Suas palavras pesaram forte em minha cabeça, mas infelizmente não poderia adiar. Essa era literalmente minha maior chance e meu primeiro emprego fazendo o que eu amo! Madu: Mãe, eu não posso faltar. É o meu primeiro dia! Se eu faltar, perco o plantão. Luzia: Plantão? Vai estourar uma guerra aqui, eu sinto, minha filha. Abaixo a cabeça enquanto como o pão que estava na mesa, junto com um pouco de requeijão. Eu literalmente já estava toda arrumada! Madu: Alguém precisa cuidar dos feridos, Dona Luzia, e esse alguém vai ser sua filha hoje. Fim de história, viu? Termino de tomar meu café e pego minha mochila, que estava arrumada há dois dias. A ansiedade estava me matando. Minha mãe beija minha testa e faz uma oração, como tem costume de fazer todos os dias — cristã e totalmente temente a Deus como só ela. Mesmo com o coração na boca, deixei minha mãe para trás. Parece que do lado de fora estava mais barulhento que tudo. A rua cheirava a medo e fumaça; o clima mudou totalmente. Desci o morro correndo, já nervosa. Assim que parei no ponto de ônibus, ouvi barulhos de tiros. Meu coração apertou na mesma hora. Abaixei-me e já vi viaturas, caveirão, dois helicópteros no céu, os traçantes... e meu ônibus chegando na hora. Motorista: ENTRA, MENINA! O ônibus estava quase vazio. As pessoas caladas, as vielas quase não se via ninguém, e as poucas que se viam corriam desesperadas. Quando cheguei no hospital, o caos já estava formado. Fui me apresentar, mas nem para isso tive tempo. Guardei minhas coisas correndo e coloquei meu jaleco. Enfermeiro: Maca! Traz maca, rápido! — Parecia que meu ouvido estava zumbindo, porque quando me dei conta, já estavam gritando bem na minha frente e eu estava paralisada, tentando entender o que estava acontecendo ao redor. Era como se o mundo tivesse parado. Assim que voltei para a realidade, corri com as mãos tremendo, tentando aplicar o que fui ensinada nas aulas. Percebi, então, que a prática é realmente muito diferente da teoria. Feridos chegando sem parar. Sangue. Gritos. Olhos vazios. Um rapaz com o braço estourado, uma senhora desmaiada, policial gemendo de dor, diversos carros de polícia do lado de fora. (...) Já se passavam das 23:00. Eu não aguentava mais ouvir os médicos dizendo: "Horário do óbito". Eu não aguentava mais fazer suturas, não aguentava mais ter que empilhar macas com corpos em frente ao IML. Não conseguia pegar no celular, não consegui contato com ninguém, porque eu simplesmente não parava. Minha perna doía, minhas mãos doíam e minha cabeça não parava um segundo. Eu estava colocando soro na senhora quando escuto uma voz conhecida no fim do corredor, gritando alto. Simone: CADE MEU FILHO? Eu quero ver meu filho, pelo amor de Deus! Cadê o Diogo? — Parece que acendeu um botão na minha cabeça, fiquei até tonta. Madu: Oi, Patrícia. Poderia só colocar para correr? Não precisa ser muito rápido. — Digo alarmada e, sem nem esperar a enfermeira responder, tiro a luva e jogo no lixo, saindo da sala de medicação. No final do corredor, era ela: a Simone, a mãe do Diogo. Eu reconheceria essa voz em qualquer lugar. E foi ali, naquele momento, que meu mundo parou. Eu parei. Na verdade, eu estacionei. Tentava andar, mas minhas pernas não obedeciam. Como assim Dragon? Madu: Oi, Dona Simone, o que aconteceu? — Se antes eu não conseguia andar, agora eu corri em sua direção. Meus olhos buscavam qualquer sinal de alerta em seu rosto e corpo. Simone: Disseram que ele levou tiro lá na mata, eu não sei... Ainda estão tirando corpos, as informações estão todas embaralhadas. Não consigo falar com ele desde as sete horas da manhã. Meu peito doeu como nunca antes. Lembrei que quando ele me mandou mensagem pela manhã, foi literalmente um: "Bom trabalho, te amo pra c*****o". Mandei mensagens depois, liguei, mas nada de retorno. Meus olhos já se encheram de lágrimas e minha boca ficou seca. Madu: Dona Simone... eu vou tentar ajudar... vou p-procurar, desculpa, e-eu só preciso de um tempo. — Parecia que o ar faltou e meu coração palpitava tão rápido que cheguei a colocar a mão sobre o peito. Ela agarrou meu braço com força, com os olhos cheios de lágrimas e uma fúria silenciosa que me fez sentir pequena. Simone: Por favor, me diz que ele está vivo... me diz que meu filho está vivo! O hospital era um caos atrás de nós. Sirenes, choros, gritaria, macas sendo arrastadas, médicos e enfermeiros correndo para todo lado. Eu tentei me concentrar no trabalho, mas a voz dela perfurava meu ouvido e a dor que eu sentia naquele momento não me deixava nem respirar. O que restava de mim queria correr para a mata, rodar o hospital inteiro, o IML... eu queria correr para ele, onde quer que estivesse! Eu só queria a verdade, mas minha mente gritava: Não é hora de perder o controle, tem gente morrendo aqui e você precisa salvar os que ainda podem ser salvos. Respirei fundo e guiei Dona Simone para uma sala improvisada que fizeram para os parentes das vítimas. Olhei em seus olhos e falei: Madu: Preciso que a senhora espere aqui. Sente-se e respira fundo, eu já volto. — Falei tentando acalmar meu coração junto com o dela. Ela sentou chorando, se derramando em desespero e sussurrando o nome do Diogo. E ali, no caos da Penha, rodeada por dor e desespero, senti o peso do amor que eu sentia por aquele homem, a responsabilidade da minha profissão e a realidade: o dia que eu tanto sonhei, que tanto esperei, se tornou a experiência mais aterrorizante da minha vida. E eu sei que ainda não tinha terminado, porque o pior estava por vir. Eu sentia!

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