Sahra Aydemir
Abri os olhos e me vi em um quarto de hospital. "Meu cabelo." Murmurei, me examinando imediatamente. Apenas as bainhas das minhas calças estavam enlameadas — meu cabelo e roupas estavam limpos. Meu tornozelo esquerdo estava enfaixado e o tecido das minhas calças cortado para acomodar o envoltório. Quando me sentei na cama, a porta se abriu e dois soldados entraram, ambos com quase dois metros de altura.
"Ah, a cabeleireira fugitiva acordou." Disse o soldado na frente, sua voz profunda e autoritária.
Ele tinha cabelos curtos e um rosto bem barbeado, com olhos castanhos severos e uma estrutura imponente e bem construída. Seu físico enorme era impossível de ignorar.
"Quem, eu? Uma fugitiva? Não, eu não sou uma fugitiva!" Protestei.
O homem grande continuou, sua voz inabalável. "Sahra Aydemir, 24 anos, cabeleireira. Você é de Afyon e estava prestes a entrar em um campo minado como civil enquanto fazíamos um levantamento de terras na fronteira provincial de Kars. Você não é um oficial, não foi nomeado. Qual é a conexão entre Afyon e aqui?" Seus olhos se estreitaram. "Seja grata por não ter sido uma operação. Foi apenas um simples levantamento de terras. Estou perguntando de novo, qual é a conexão entre Afyon e aqui?"
"Coincidência." Consegui gemer.
Ele não demonstrou misericórdia. "Você é uma espiã?"
"Quem, eu? Ah, claro que não. Ser uma espiã é a última coisa que eu faria nesta vida. Gosto muito de viver, muito obrigada. Não suporto tortura nem nada — eu contaria tudo em um segundo." O soldado atrás dele riu, mas um olhar penetrante de seu superior o fez ficar em posição de sentido, em silêncio mais uma vez.
"Qual é o seu problema, então? Por que você veio de Afyon?" A voz do comandante ficou mais dura. "Você não tem um único registro criminal. Você nem tem uma multa de trânsito. Você parece bem inocente, mas tem uma explicação lógica para o porquê de ter vindo para o Extremo Oriente da Turquia?"
"Eu não tenho um carro."
"Que carro?"
"Eu não tenho uma multa de trânsito porque não tenho um carro." Expliquei, e mais uma vez, o soldado atrás dele não conseguiu conter uma risada. Outro olhar severo o silenciou imediatamente.
A mandíbula do comandante se apertou. "Escute, creme de Afyon, este é seu primeiro e último aviso. Não deixe que eu te veja novamente nesta província ou dentro das fronteiras deste país. Não há segundas chances. Não deixe que eu a encontre perto de mim. Você não escapará da próxima vez."
Olhando além dele para o soldado atrás, perguntei de repente. "Pelo o que Kars é famosa?"
"Queijo." O soldado respondeu automaticamente.
"Silêncio!" O comandante gritou, fazendo o soldado gaguejar nas palavras.
"Sinto muito, comandante. Quando a pergunta foi direcionada a mim, pensei que fosse de conhecimento geral."
"Não se preocupe, meu leão. Eu vou lidar com isso para todos vocês. Seu conhecimento geral vai disparar quando eu terminar com você."
Eu queria me dirigir ao comandante com qualquer coisa pela qual Kars era famoso, assim como ele me chamou de "creme Afyon", mas seria preciso mais coragem do que eu possuía para chamar essa montanha de homem de "queijo Kars".
Finalmente, não consegui mais me conter. "Por que você está gritando tanto? Você já atirou no meu calcanhar, mesmo eu sendo inocente. Em vez de vir se desculpar, você está gritando e falando besteira." Nossos olhos se encontraram novamente, mas suas próximas palavras foram direcionadas ao seu subordinado.
"Pride!"
"Sim, senhor!"
"Coloque-a na cela por não obedecer ao aviso de parada e insultar um soldado turco. Deixe-a voltar a si."
Meus olhos se arregalaram em descrença. "O quê?!"
"Mas senhor—" Pride começou, apenas para ser silenciado pela mão levantada do comandante.
O comandante fixou Pride com um olhar inflexível. "Se ela não passar a noite na cela, você vai se arrepender durante o treinamento, meu garoto." Então ele deu um passo para mais perto de mim, sua presença avassaladora. "Se você tiver algum senso, não cruzará meu caminho novamente, creme Afyon." Com isso, ele saiu da sala.
Eu olhei para Pride, que parecia muito mais acessível do que seu superior. "Eu vou para a cadeia?"
Ele riu, seu comportamento suavizando. "Não, Srta. Sahra, não é tão sério assim. Você estará livre pela manhã. Mas você tem que entender — você correu direto para uma área perigosa durante um levantamento topográfico e então esperou um pedido de desculpas..." Ele balançou a cabeça. "Você pode ter exagerado um pouco."
Eu tinha que admitir que ele estava certo, mas como eu poderia saber que havia um levantamento topográfico lá? Eu nem sabia onde era esse lugar. Kars certamente não tinha me dado as boas-vindas mais calorosas. Eu deveria ter ido para Antalya.
Quando a enfermeira me liberou para sair, levantei-me cautelosamente e olhei para Pride. "Você vai me algemar também?"
Ele riu. "Não, nada disso. Mas se você não consegue andar, eu posso ajudar a te apoiar."
"Não, eu consigo andar — ou melhor, pular junto. Você praticamente me caçou como uma perdiz." Lancei a ele um olhar de reprovação. "Você tem o hábito de atirar em civis?"
A risada de Pride foi genuína dessa vez. "O capitão atirou para te parar, não para te matar. Você estava correndo em direção a um campo minado. Sim, havia uma cerca de arame farpado, mas você parecia pronta para pular também. Além disso..." Sua voz baixou. "Havia um grupo de contrabandistas de armas naquela área."
Nós seguimos pelo corredor, eu mancando ao lado dele. "Contrabandistas de armas?"
"Sim, eles estavam planejando cruzar a fronteira e vender armas para terroristas. Nós íamos detê-los. Nós os notamos por acaso durante o levantamento topográfico, mas..."
"Mas eu vim junto." Terminei para ele.
"Exatamente. Se você tivesse chegado meia hora depois, nós os estaríamos caçando como perdizes em vez de você."
"Sinto muito por isso. Não foi intencional." Mordi meu lábio. "Eles conseguiram vender as armas?"
"Não, em todo o caos, eles fugiram sem encontrar seus contatos." Ele me lançou um olhar significativo. "Mas você não sabe de nada disso, ok? Só estou lhe contando porque está claro que você estava apenas assustada e confusa."
"Oh, meu primeiro segredo de estado. Que sensação adorável." Brinquei, arrancando outra risada dele. Pelo menos esse soldado sabia sorrir, diferente de seu superior que gritava perpetuamente.
Chegamos ao prédio do Comando da Gendarmaria do Distrito de Sarıkamış em um veículo militar. Fiel à palavra do comandante, eles me colocaram em uma cela de detenção. Quando perguntei as horas, era meia-noite. Agora eram 3h30. Sentei-me no banco da cela, encostando minha cabeça na parede para esperar a manhã passar.
Um médico militar veio em um momento para verificar meu tornozelo e perguntar sobre os níveis de dor. "Meu comandante me pediu para verificar." Ele explicou. Presumi que Pride o havia enviado — ou talvez fosse o próprio comandante. Eu m*l entendia essas patentes militares. Comandante, capitão — provavelmente já tinha ouvido esses termos três vezes na minha vida.
Outro soldado trouxe chá, e perguntei esperançoso: "Você pode me deixar ir agora?"
"Você estará livre às 8h." Ele respondeu com naturalidade. "Além disso, se você não tem para onde ir a essa hora, você está no lugar mais seguro e quente possível. Tente relaxar." Com isso, ele foi embora.
Ele tinha razão. Eu não conseguia exatamente encontrar um hotel ou albergue a essa hora. Este era provavelmente o lugar mais seguro por enquanto. Tomei um gole do chá e me enrolei no banco, puxando meu capuz sobre minha cabeça. Sem mais nada para fazer, adormeci.
O som da porta se abrindo me acordou na manhã seguinte. Era o Pride, e quando nossos olhos se encontraram, consegui dar um sorriso sonolento.
"Bom dia. Estou livre para ir, certo?"
"Sim, você está indo. Parabéns." Seus olhos brilharam de diversão. "Espero que você não acabe aqui de novo."
"Ele está aqui?" Perguntei, tentando soar casual.
"Quem?"
"A pessoa que primeiro atirou no meu calcanhar e depois me deteve."
"Comandante Ortaç?"
"Não sei o nome dele, só o cara que gritou comigo ontem."
"Ah, Capitão Sênior Ortaç Suskun, o orgulho das Forças Armadas Turcas, também conhecido como Soldado Silencioso." Os lábios de Pride se contraíram. "Ele raramente fala, se é que fala. Ontem com você, ele bateu um recorde. Ele saiu cedo esta manhã."
"Provavelmente para evitar me encontrar de novo." Eu disse rindo. Peguei minha mochila e então notei minhas malas. "Oh, minha bagagem!"
"Quando você desmaiou ontem, nós as trouxemos para verificar se havia evidências — caso você fosse culpada de alguma coisa." Pride explicou.
"Eu nem sei o que tem nelas ainda. Minha tia as empacotou." Eu hesitei. "Apareceu alguma coisa... Interessante?"
"O comandante as verificou pessoalmente. Se houvesse algo suspeito, você não estaria saindo agora."
Eu me encolhi interiormente, me perguntando se minha tia havia embalado o que eu suspeitava. Que mortificante ficar envergonhada na frente daquele gorila rabugento.
"Pride — quero dizer, comandante..."
"Só Pride está bom. Não precisa de formalidade."
"Obrigada. Existe um albergue ou hotel limpo e confiável onde eu possa ficar?"
"Claro. Me deixe escrever um endereço para você." Ele pegou um bloco de notas. "Eu te daria uma carona se não estivesse ocupado com o trabalho."
"Não, não, tudo bem. Acho que prefiro evitar qualquer pessoa uniformizada por um tempo." Eu disse com uma risadinha. Ele entrou na conversa e me entregou o papel com o endereço. Depois de chamar um táxi para mim, ele me acompanhou até o portão principal da estação.
No albergue que Pride recomendou, paguei por uma semana de estadia e me acomodei em um quarto decente e limpo. Serviria por enquanto. Peguei meu telefone e liguei para minha tia, certificando-me de esconder meu número. Ela atendeu no terceiro toque.
"Alô?"
Disfarçando minha voz, eu disse: "Alô, estou ligando da empresa de pesquisa. É um bom horário?"
Era nosso código especial.
"Sahra, querida, estou sozinha. Eles foram até a estação perguntando sobre você. Você está no hospital ou fugiu com alguém? Aquele canalha está investigando."
"Então ele veio."
"Sim, por volta do meio-dia. Onde você está, querida?"
"Kars Sarıkamış."
"Nossa, quando eu disse fugir, não quis dizer tão longe! Você poderia muito bem ter ido para a lua."
"Oh, tia, eu apenas decidi por impulso. Não foi planejado. O que você
O que você fez? O tio estava bravo?"
"Não, querida. Nós tomamos algumas bebidas e desmaiamos. Quando eu disse que não conseguia lembrar de nada, ele ficou quieto, pois também não conseguia lembrar."
"Você não está sendo um pouco casual demais sobre isso?"
"Aquele louco do Ismail está agindo de forma estranha. Se não fosse pelo seu tio, ele nem teria pensado em perguntar sobre você ou se importaria que você fugiu. Acho que ele está com algum tipo de problema. Na estação, ele disse ao pai: 'Eu não vou entrar — pergunte você.'"
"Eu quase queria que eles não tivessem perguntado nada. Agora eles podem descobrir que estou aqui porque..." Eu respirei fundo. "Fique calma, tia, mas passei a noite passada no hospital e depois na estação."
"Hospital? Sahra, você está bem? O que aconteceu?"
"Só um pequeno acidente. Não se preocupe, estou perfeitamente bem."
"Seu tio tem um amigo na estação. Não é um relatório oficial de pessoa desaparecida — ele está apenas pescando informações sobre quaisquer incidentes da noite passada. Apenas em Afyon, não em todo o país."
"Bom saber. Escute, tia, eu me acomodei em um albergue. Preciso tomar banho e me limpar. Conversaremos novamente em breve."
Depois de trocar bênçãos de proteção, desligamos. Coloquei as malas na cama e abri as duas. Alguém as havia revistado — estavam uma bagunça. Como eu temia, minha tia havia embalado todas as minhas roupas íntimas, coloridas e variadas. Eu tinha uma peculiaridade: minhas roupas íntimas tinham que combinar com minhas roupas externas e, com calças, eu sempre usava uma tanga. Aquele capitão severo tinha visto todas elas?
"Ele poderia pelo menos ter pegado meu depoimento antes de vasculhar minhas coisas." Murmurei, tirando roupas limpas. Minha mão agarrou uma pequena bolsa e dentro dela encontrei materiais de curativo e fita à prova d'água. Minha tia não teria embalado isso. O comandante as havia deixado? Se sim, então deve ter sido o gorila m*l-humorado, não Pride, que enviou o médico para verificar meu ferimento. Talvez ele não tenha sido tão severo quanto parecia.
Depois de aplicar a fita à prova d'água sobre meus pontos, tomei banho. A bala só tinha me arranhado — o capitão tinha como objetivo parar, não machucar. Cinco pontos deixariam uma cicatriz, mas pelo menos era só um arranhão.
Vesti as roupas mais quentes que pude encontrar. Novembro em Kars era muito frio, o vento cortante e cortante. Eu, que achava Afyon fria, não tinha ideia de como me adaptaria ao inverno de Kars.
Enquanto secava e alisava cuidadosamente meu cabelo — outra obsessão minha — lembrei-me da mulher que visitou minha tia depois que meus pais morreram. "Ela se parece com a mãe", ela disse. "O rosto de Meltem era lindo assim, sua pele radiante." Essas palavras ficaram comigo e, como minha pele lembrava a da minha mãe, cuidei meticulosamente dela.
Minha mãe, meu pai e meu irmãozinho Kaya — perdi todos eles em uma noite. Acordei na UTI, mas Kaya não sobreviveu. Antes que eu pudesse processar qualquer coisa, me vi no cemitério, diante de três túmulos em uma fileira. "Eles estão aqui agora", minha tia disse. Eles estavam lá, e nós estávamos aqui — só nós duas sobrando.
Minha tia nunca mais saiu do meu lado depois disso. Embora meu tio tenha sugerido que eu ajudasse com as tarefas domésticas, ela nunca me fez fazer nada. Ainda assim, temendo que ele pudesse me mandar embora, eu sempre fazia as tarefas antes que me pedissem.
Então veio o assédio de Ismail quando fiquei mais velha. Ele me encurralava sozinha, tocando meu corpo em desenvolvimento, dizendo coisas vis. À noite, ele entrava furtivamente no meu quarto, se enrolava em mim, me acariciava em todos os lugares enquanto sussurrava ameaças sobre me fazer sua. Ele me forçou a tocá-lo, ameaçando me mandar para um orfanato se eu recusasse. Ele disse que ninguém acreditaria em mim se eu contasse.
Mas quando suas exigências ficaram mais nojentas, eu não aguentei mais e contei para minha tia. Graças a Deus, ela acreditou em mim. Ela nunca mais nos deixou sozinhos depois disso, até mesmo conseguindo dormir ao meu lado à noite sem que meu tio soubesse. Ela disse que mesmo que meu tio acreditasse em mim, ele ficaria do lado do filho. Juntas, minha tia e eu lidamos com Ismail do nosso jeito.
Depois do ensino médio, comecei a trabalhar em período integral no salão de Derya, onde eu passava minhas férias de verão. Minha tia falou separadamente com meu tio e Ismail, providenciando para que Ismail fosse enviado para a América por meio de uma construtora. Ele era um técnico em eletricidade e, embora eles geralmente enviassem trabalhadores para países europeus, minha tia de alguma forma os convenceu a mandá-lo para o outro lado do oceano.
Minha tia, minha única família verdadeira, sempre me protegeu.
Meu estômago roncando interrompeu essas memórias. Depois de enfaixar meu tornozelo, aventurei-me para fora. O ar frio clareou minha cabeça. Pedi instruções para um lugar de café da manhã, comi até me fartar e então comecei a procurar trabalho. Primeiro, precisei de uma farmácia para mais curativos, depois comprei um telefone novo — um modelo melhor que o antigo. Esse seria meu único luxo, pois economias não duram para sempre. Eu estava guardando dinheiro há anos para abrir meu salão, com a ajuda da minha tia.
Saindo da loja de telefones, notei uma placa de "Procura-se ajuda" em um pequeno restaurante local do outro lado da rua. Se Ismail me procurasse em Kars, ele verificaria os salões de beleza primeiro.
Talvez era hora de mudar de carreira — de cabeleireira para garçonete. Isto é, se eu conseguisse o emprego.