• Sol de Maria •
Após tantos anos com a mesma rotina, eu já me levantava sem reclamar, antes mesmo do meu pequeno relógio de pulso apitar, às seis horas.
Parei na cama, encarando o teto por algum tempo, como faço em todas as manhãs e suspirei. Meu tempo aqui está acabando e parte de mim estava aliviada por isso. A Amizade não é um lugar r**m para viver, quando você se identifica com seus ideais. Se perdoar, perdoar o próximo, amar. Não é pra mim. Não mais. Quase todo mês acabo parando na sala de Johanna Reyes, nossa líder, e passo horas sob o efeito do soro da Amizade, que me deixa embasbacada e alegre demais.
Me levantei sentindo o sono se afastar e caminhei pelo pequeno quarto, abrindo as cortinas e olhando lá para fora. A pouca luz do amanhecer começava a iluminar as plantações e os outros casebres. Como odeio disputar banheiro, trato logo de me dirigir ao banheiro com minha muda de roupas. O esquema do banheiro é rápido. Cinco minutos de água fria e o chuveiro se fecha no automático.
Visto um longo vestido vermelho, uma blusa quadriculada laranja e um lenço laranja na cabeça. Calço as alpargatas e arrumo minha cama, logo saindo do casebre.
No refeitório, vó Amelia — que, na verdade, não era minha avó — estava servindo o café. Ao me servir uma fatia de bolo de milho, ela sorri.
— Vá com alegria, minha linda.
Acabo sorrindo para ela e me sentando sozinha até o final da refeição.
Fui até as macieiras colher maçãs para a torta do almoço. Eu fazia isso quase todos os dias, seja com maçãs, laranjas, tomates, batatas ou qualqueroutra coisa que deva ser colhida. Gosto de fazer isso no meu silêncio cotidiano.
Após a morte inexplicável de meu pai, eu só falava o necessário. Meus amigos são as crianças que ajudo a tomar conta antes do almoço. Gosto disso. Elas não me olham esquisito, assim como alguns poucos da minha idade.
— Ah, aí está você!
Me virei, ainda pendurada no galho da macieira, olhando Johanna se aproximar sorrindo.
— Eu estava te procurando.
— Bom, já achou.
Ela sorriu e pegou o cesto de maçãs enquanto eu descia da árvore grande.
— Gostaria de conversar com você. Não conversamos muito sobre seu teste de aptidão.
Uh, verdade! Meu teste foi ontem e ainda não pude absorver todas aa informações. Diferente de todos, eu acho, tenho mais de um resultado. Três estilos completamente diferentes e, segundo a moça do teste, não posso contar isso à ninguém. As pessoas temem essa divergência.
— Não é preciso muito para saber que não ficará conosco. Já faz um tempo que não demonstra a mesma aptidão de antes para nossa facção. — ela diz e eu pego o cesto da mão dela, começando a andar para a cúpula — Qual foi o resultado?
— Sabe que não posso falar disso. — agi um pouco na defensiva
— Sou sua amiga, Sol. Me preocupo com você e com o fato de não ter com quem compartilhar suas experiências.
Ela parou me olhando e eu parei um pouco mais à frente, suspirando e me virando para encará-la. Johanna é uma boa mulher e a cicatriz em seu rosto me faz pensar em qual era sua facção anterior.
— Fica tranquila. A partir de amanhã, não estarei mais sob sua guarda e você poderá se despreocupar. — me virei e segui meu caminho
***
— Você está bem? — Lana pergunta dobrando um lençol marrom
— Por que não estaria? — pergunto segurando o cesto de roupas limpas e ela joga o lençol no mesmo
— Você parece com seu pai, às vezes. — ela ri fraco e puxa outra peça de roupa estendida no varal
— Isso é bom, não é? — franzo o cenho
— É. — ela sorri — Por que tenho a sensação de que essa será nossa última conversa, Sol?
— Você é sensitiva? — brinco
— Olha, Sol de Maria, você sabe que, independente de qualquer coisa, eu tenho muito carinho por você, não é? — ela para de recolher a roupa e me olha
Lana havia se casado com meu pai quando eu tinha onze anos. Ela era alguns poucos anos mais nova que ele e a gente sempre se deu muito bem, mesmo considerando minhas oscilações de humor. Lana era uma boa pessoa e eu sabia que, assim como eu, também sentia muita falta dele.
— Eu sei. — sorrio — Você é minha família.
— E você é a minha. — ela sorri pra mim
***
As pessoas se acomodavam nos respectivos lugares destinados à suas facções. Eu assistia tudo do meu lugar, na sétima fileira de baixo para cima. De lá, também pude ver a mulher do meu teste sentada ao lado dos membros da Abnegação, na primeira fileira de cadeiras.
Jeanine Matthews, após todos se silenciarem, se colocou em seu lugar e começou o discurso de a******a.
A Cerimônia de Escolha é o dia em que a pessoa escolhe se quer trocar de facção ou não. Caso deixe sua facção de origem, nunca mais poderá voltar para casa. Só verá seus parentes no dia de visita, uma vez a cada ano.
Há dois dias, eu achava que os boatos sobre os divergentes fossem apenas lendas, mas agora eu sei que sou uma.
— Jessica Ryan!
Jeanine chama e eu vejo uma menina loira se levantar. Ela dá passos hesitantes até o palco e noto seu olhar baixo. Ela é da Abnegação, mas derrama seu sangue no recipiente com o símbolo e as brasas da Audácia.
— Audácia! — Jeanine diz e os gritos da facção preenchem o local
Fecho meus olhos e lembro-me da última vez em que falei com meu pai. Ele parecia nervoso e dizia constantemente que estava preocupado com a minha escolha, graças ao meu gosto por leitura. Ele disse que ninguém poderia saber do seu pedido, mas ainda assim pediu para que eu não escolhesse a Erudição nunca. Eu prometi e pretendo manter minha promessa.
— Sol de Maria Prince.
Tremo ao ouvir meu nome ser enunciado e ouço algumas risadas vindo da ala onde a Audácia está concentrada. Alguns da Franqueza também parecem rir baixinho, talvez achem meu nome esquisito.
Caminho até o centro, onde os recipientes estão. Eu havia me preparado para aquele momento. Sobre a grande mesa estava a faca prateada de lâmina afiada. Eu cortei a palma da mão e caminhei até os recipientes gigantes, derramando meu sangue em um deles, ouvindo as brasas queimarem. Fechei meus olhos.
— Audácia!
Jeanine diz e ouço mais gritos e palmas. Eu não sei o que me espera na Audácia, mas de uma coisa eu sei: eu tenho fogo em minhas veias! Eu vou descobrir o que aconteceu com meu pai. Eu escolhi a Audácia, eu sou da Audácia.
Ao fim da Cerimônia, me levantei pronta para seguir meu novo grupo. Quando chegamos lá fora, os membros da Audácia começaram a correr, sendo seguidos por nós — iniciandos. Eles corriam livres e loucos, gritando e gargalhando. Deixei-me contagiar e corri sorrindo, mesmo odiando correr. Escalei os ferros da estação e me coloquei ao lado dos trilhos, com os outros. Assim que o trem passou, voltamos a correr paralelo à ele e os membros da minha nova facção entraram no trem em movimento.
Vinte minutos na Audácia e já encontro uma dificuldade.
— Vem!
A menina de cabelos castanhos que vi antes na Cerimônia estava inclinada na porta do trem e me estendendo a mão. Tive a sensação de que não aguentaria me puxar sozinha, então agarrei a barra lateral do trem e me joguei pra dentro, sentindo-a me puxar pelo casaco.
— Isso! Senta aqui.
Ela diz me ajudando a sentar no chão e se senta ao meu lado, igualmente cansada e ofegante.
— Obrigada. — agradeço
— Não há de quê. — ela sorriu tímida
— Foi por pouco.
Um cara grande, alto e com as costas largas disse com as mãos nos joelhos tentando recuperar o fôlego. Seus cabelos eram de um louro médio e seus olhos eram claros. Seu sorriso era lindo e ele usava trajes da Erudição.
— Verdade. — digo baixo e acabo rindo também
— Sou o Andrew e vocês?
— Sol. — murmuro
— Jessica. — a garota com trajes da Franqueza diz mais alto e eu me levanto, indo até a porta do vagão
— Acho que estão tentando nos matar. — Andrew diz
— E acho que vão conseguir. — digo olhando pela porta
Em alta velocidade, o trem se aproxima de um prédio da altura da estação e eu arregalo os olhos ao ver as pessoas de preto pulando do trem para o terraço desse prédio.
— Como assim? — Jessica arregalou os olhos e se levantou
— Estão pulando. — falei vendo todos no vagão se apavorarem e se amontoarem na porta
— O que? — Andrew se endireitou e olhou pela porta
— Ai. Meu. Deus! — Jessica disse pausadamente — Eles são loucos. A gente vai morrer!
— Calma. — a olhei também tentando me manter calma
— Sempre foram loucos. — Andrew diz — Juntos, ok?
Nós confirmamos e vemos que somos os primeiros do vagão a se prontificar para pular. É loucura, eu sei.
Andrew se colocou entre nós e contou de 1 à 3 devagar. Corremos e saltamos. Saltamos alto. Era burrice. Era muita burrice. Eu estava caindo mais atrás que eles, quando vi Jessica cair e rolar pelo terraço. Ainda no ar, Andrew me puxou pela mão e então nós caímos e rolamos feito dois sacos de batata. Quase bato a cabeça no chão, mas Andrew tem um bom reflexo e estica seu braço. Ficamos os dois parados e ofegantes, um olhando para o outro. Sem dúvidas, o braço dele era melhor que o chão.
— E aí, morreu? — ele sorriu para mim
— Quase. — minha voz saiu como num sussurro — Obrigada.
— Parece que fui atropelada por aquele trem. — ouço a voz de Jessica
Me levanto com a ajuda de Andrew e batemos a terra de nossas roupas.
— Atenção!
Ouvi uma voz grave e senti todo o meu corpo se arrepiar. Meus ombros imediatamente se encolheram e eu me virei em câmera lenta na direção da voz. No parapeito do terraço, um loiro carrancudo espera que todos se juntem à sua frente para ouvi-lo. Me aproximo do amontoado de pessoas e fico encarando o loiro. Ele tem dois piercings acima da sobrancelha direita, tatuagens no pescoço e nos braços. Está vestido de preto e tem pose de mau. Muito mau. Aparenta ter uns 23 anos, no máximo.
— Meu nome é Eric e eu sou um dos líderes daqui.
Não me espantei por ser líder tão novo. Ouvi dizer que isso não importa para a Audácia.
— A Audácia não é brincadeira. Vocês nos escolheram e agora terão dez semanas para nós escolhermos vocês. Nós só ficaremos com os melhores.
— E o que acontece com quem não conseguir? — um baixinho da Franqueza pergunta
— Aí vocês estão fora. — disse natural
— O que faremos? — um outro se apavorou
— Não é da minha conta. — ele deu de ombros
— Deviam ter nos avisado. — uma garota diz
— Por que? Está com medo? — ele sorri diabólico — Então é melhor não pular.
— Vamos pular de novo? — Andrew sussurrou baixinho, mas parece que o líder projeto de demônio tem bons ouvidos
— Como pretendem chegar lá embaixo? — ele faz um gesto indicando o vazio atrás dele
— Sabe se tem água lá? — uma menina pergunta
— Só vai saber quando chegar. — seus olhos brilharam de forma c***l — Quem vai primeiro?
Um silêncio pairou e Jessica apertou minha mão. Eu parecia embasbacada, encarando o monstro c***l todo pomposo que nos olhava com cara de tédio. Vi Andrew caminhar até ele e subir no parapeito, ao seu lado. Eles se encararam e Eric desceu, ficando com pose de sentinela. Meu coração se apertou e Andrew pulou sem emitir um único som. Respirei fundo e, sem se virar para nós, Eric ordenou que o próximo pulasse. Ele parecia anotar algo num tablet de última geração.
Sem pensar, caminhei soltando a mão de Jessica e indo em direção ao parapeito. Retirei a blusa quadriculada e subi na beirada do prédio. Joguei a blusa e vi o vento a levar para longe. Olhei para baixo e vi um buraco. O buraco onde eu iria cair, provavelmente. Respirei fundo.
— É pra hoje, hippie.
A voz de Eric gelou minha espinha e eu fechei os olhos sentindo raiva por esse apelido. Era como eles chamavam os membros da Amizade e eu sou a única deles aqui. Prendo o ar nos pulmões e me jogo do prédio, sentindo o vento em meu corpo.
Soltei um grito ao sentir o impacto do meu corpo com algo elástico, fazendo-me quicar umas cinco vezes antes de parar por completo. Dei outro grito ao sentir meu corpo rolar para o lado e mãos fortes se colocarem em minha cintura.
— Empurraram você?
O homem que me segurava parecia ter a mesma idade que o Eric. Ele tinha sobrancelhas grossas, os olhos da cor dos meus e do mesmo formato. Seu maxilar era bem desenhado, assim como o meu. Ele tinha o cenho franzido e parecia esperar por uma resposta. Seus olhos demonstravam surpresa por ver um m****o da Amizade aqui.
— Não. — digo descendo da rede
— Qual o seu nome?
Sol de Maria não parece muito imponente. Não parece audacioso. Respirei fundo soltando o ar dos pulmões.
— É muito difícil? — ele pergunta — Se quiser escolher um novo, pode escolher. Mas pense bem, pois não poderá trocar.
— Meu nome é... Maria. — digo firme
— Segunda a pular: Maria. — ele diz alto e a menina loira de cabelos curtos parece anotar — Bem-vinda à Audácia.