• M A R I A •
Ao final de todas as apresentações, nos reunimos em um amontoado para ouvir o que o rapaz que nos recebeu tem a dizer. Fico feliz que Eric tenha ficado naquele terraço, bem longe da gente.
— Meu nome é Quatro. — o rapaz se apresenta — Eu, geralmente, fico na Sala de Controle, mas durante seu treinamento serei seu instrutor.
— Quatro? Como o número? — olhei para Jessica, que agora era apenas Jessie, e notei que tinha confusão no olhar
— Exatamente como o número. — ele acenou confirmando
— Ok. — ela murmurou pensativa
— Essa é minha ajudante, Tris. — ele apresenta a mulher ao seu lado, que aparenta ter uns dezoito anos, no máximo
Droga, eu a conheço!
Tris é a mulher do meu teste. Ela manipulou tudo para que eu não parecesse Divergente.
— Eu serei responsável por supervisionar o treino de vocês e pontuá-los de acordo com seu desempenho. — ela diz — Na maioria das vezes, estarei acompanhada de Christina, mas ela está nos esperando no dormitório. Em breve vocês a conhecerão.
— Nascidos na Audácia vão com a Tris, transferidos comigo. Creio que nem todos precisem de um tour no local.
O grupo de nascidos aqui seguiu Tris por um corredor e nós seguimos Quatro pelo outro. A maioria dos transferidos eram da Erudição e Franqueza. Apenas um rapaz e uma garota usavam o cinza da Abnegação. Eu era a única hippie no meio deles. Andrew — que agora era só Drew — estava ao meu lado feito um guarda-costas para Jessie e eu.
Fizemos um tour por todo o lugar cavernoso conhecido com Complexo da Audácia. O chão era de cimento batido, as paredes desalinhadas e rochosas e havia um abismo bem fundo, onde ouvíamos o barulho forte da água lá de baixo. O Fosso era o centro da vida na Audácia. Muitos passavam horas ali conversando, rindo, lendo, ouvindo música, namorando. A Audácia é exatamente do jeito que eu imaginava, sem tirar e nem pôr.
Quatro nos leva até o refeitório e diz que podemos comer o que quisermos. Que depois irá nos levar para o dormitório para que possamos nos livrar das nossas vestes e nos vestir de forma adequada à Audácia.
Me sirvo de arroz, frango grelhado e milho. Pego uma latinha de suco industrial e me sento numa mesa com Jessie e um grupo de transferidos.
— Então, agora você é Maria. — Andrew diz se sentando ao meu lado
— E você é o Drew. — comento comendo — E ela é a Jessie.
— Nós escolhemos apelidos, você mudou completamente. — Jessie diz enquanto enche seu hambúrguer de ketchup
— Maria é o meu nome do meio. — digo dando de ombros
— Qual o problema com sua carne? — Drew olha para uma garota sentada conosco que usa trajes da Abnegação — Você tá encarando como se o boi tivesse vivo.
— Abnegação tem uma dieta vegetariana. — ela explica
— Prova com isso aqui, então. — Jessie passa o ketchup pra ela — Vai amar.
— Ok. — a garota dá de ombros e põe molho na carne, logo levando um pedaço à boca — É gostoso.
— Eu disse. — Jessie ri
— Eu sou a Ali. — a abnegada se apresenta
— Eu sou a Sam. — uma morena com trajes azuis da Erudição se apresenta
— Edward, mas pode chamar de Ed. — o ex-abnegado diz
— Drew, Jessie e Ali. — Drew nos apresenta
— Na Amizade não comem carne? — Ed pergunta observando meu prato
— Normalmente a carne vem pra cidade, mas nós comemos em ocasiões especiais. — explico terminando de comer — Eu prefiro frango.
Engatamos numa conversa animada, mas eu me calo quando vejo Eric sentado na mesa longe da gente. Ele está sentado junto com um homem n***o e uma mulher n***a de cabelos curtos e negros. Ele não tem mais a feição carrancuda de antes, mas também não está relaxado. Fico observando o mesmo comendo e termino de comer.
— Aquele ao lado do Eric é o Max. Ele também é líder. — Sam diz — E a mulher sentada com eles é Joanne, melhor amiga do Eric.
— Como sabe de tudo isso? — a olho
— Erudição, né? — Drew comenta
— Parece que vocês engoliram uma enciclopédia. — Jessie murmura
— Ah, o doce tratamento da Franqueza. — Drew ironiza
— Todos os iniciandos, favor nos seguirem. — Quatro diz alto já se mandando pra fora dali
— Agora trocamos de roupas. — Sam diz
***
Eu acordei com um barulho extremamente alto e agoniante. Abri os olhos e vi Drew sentado na cama ao lado, sem camisa e olhando para a escada. Nosso dormitório era unido, assim como o banheiro com privadas e chuveiros sem divisória. Ao lado esquerdo da minha cama fica uma pilastra larga e, ao outro lado, a cama de Drew.
Viro o pescoço e vejo Quatro batendo uma caneca metálica no corrimão de ferro da escada.
— Me encontrem no fosso. Vocês têm dez minutos.
Ele diz e sai, largando nossa turma de iniciandos completamente sonolenta. Me levantei e olhei o relógio em meu pulso, vendo que eram sete da manhã. Eu estava tão cansada que nem mesmo ouvi meu relógio despertar. Ignorando os olhares em meu corpo, vesti uma calça preta de cintura alta, uma regata preta e vesti a jaqueta vermelha que eu havia amado. Deixei meus cabelos soltos como estavam mesmo e arrumei minha cama, vendo Ali ajudar Sam a se ajeitar sem que ninguém veja muita coisa. Vi Drew vestir a blusa e calçar os tênis.
— Bom dia, flor do dia. — ele diz me abraçando e beijando minha testa
— Bom dia. — sorrio para ele
— Todos prontos? — Ed pergunta
— Prontas. — Ali diz terminando de amarrar o tênis
— Pronta. — digo calçando meus tênis
— Vamos. — Drew diz
Assim que chegamos no fosso, ficamos em silêncio esperando o resto da turma chegar. Quatro estava conversando algo com Christina, a mulher de cabelos curtos, e Tris olhava para o meu grupo de amigos. Olhei para ela e ela me olhou de volta, dirigindo-me um sorriso contido e educado. Retribuo e sinto um arrepio tomar meu corpo. Sinto um cheiro de menta e cigarro e fico estatelada no lugar, encarando o chão.
— Não conseguiu acordar todos, Quatro?
Aquela voz fez minhas pernas virarem gelatina. Eric se aproximou de Quatro e Christina, puxando a prancheta da mão dela. Ela revirou os olhos e se afastou, deixando claro que não ia com a cara dele. Eu fiquei observando Eric mascar seu chiclete enquanto olhava pra prancheta e Quatro lhe explicava algo. Tava na cara que Eric era cruél. Eu já havia o visto de longe umas duas vezes, quando ele foi até a Fazenda falar com Johanna. Johanna sempre deixou bem claro que ele era um cara difícil de se lidar.
Quando todos estávamos reunidos, Tris avisou ao Eric que não faltava mais ninguém e ele se posicionou em nossa frente, como se estivesse em um palco. Ele gostava de ser o centro das atenções e de ter o controle de tudo.
— Nascidos e transferidos treinarão separados, mas serão avaliados juntos. Então dêem o melhor de si. — ele diz — Quatro levará vocês para treinar tiro e, mais tarde, lutaremos.
— Luta corpo à corpo só está prevista para a próxima semana, Eric. — Tris diz e ele lhe lança um olhar frio
— Se eu disse que depois eles irão lutar, é porque eles irão lutar. — ele diz sério e volta a olhar para a gente — Quatro, sobe com eles.
***
Eu não era m*l em atirar. Acertei a grande maioria dos tiros no alvo e Quatro me ensinou algumas boas técnicas que poderão ser usadas para as próximas vezes. Depois do almoço, eu aproveitei que não tinha ninguém no dormitório e tomei um banho. Vesti uma calça de malha preta, um top preto e uma blusa da mesma cor. Prendi o cabelo e calcei as alpargatas pretas, logo subindo para a sala de treinamento.
Quatro nos formou em duplas e a minha dupla foi Sam. Aprendemos a técnica e logo Eric apareceu na sala, pra ficar nos supervisionando.
— Que tédio. — ele murmurou ao passar por mim, que segurava o saco de pancadas para Sam socar — Parem todos. — ouvi seu comando alto
Eu sabia que ele estava atrás de mim, mas não me atrevi a virar para encará-lo. Permaneci segurando o saco de areia.
— Última a pular, pro ringue. — ele disse e ouvi seus passos se aproximarem de mim — Hippie, pro ringue.
Sua voz saiu bem perto de mim e eu me virei, vendo-o à uma curta distância de mim. Olhei para ele e senti minha alma gelar assim que meus olhos entraram em contato com os olhos azuis acinzentados dele. Respirei fundo e caminhei para perto do ringue, tirando os tênis e subindo no mesmo.
— Acha mesmo que elas estão prontas? — ouvi Quatro murmurar
— Vamos ver do que elas são capazes.