• Maria •
Abro os olhos assim que ouço barulho de trancas se abrindo. Sem saber ao certo onde estou, me sento na cama onde fui colocada e observo o lugar. É uma sala pequena, quadrada, com uma janela de vidro bem no alto. Percebo que a luz do sol está entrando no cômodo, mas não sei dizer se é de manhã ou de tarde.
— Você dorme bem, hein?! — o jovem rapaz que me injetou algo antes diz entrando na minha cela com uma muda de roupas coloridas nas mãos
— Que horas são? — pergunto
— Hora do banho. — ele diz — Mas relaxa que eu só vou te levar até lá. Aliás, te chamo de Maria ou de Sol?
— Só a minha família me chama de Sol.
— Então será Solzinha. — se aproxima e pega em meu braço, me fazendo levantar
— Você é extremamente irritante.
— É, irritante é meu segundo nome. — ele vai me arrastando pra fora da cela — O primeiro é Peter e o último é Odiado. Peter Irritante Odiado.
Acabo rindo fraco enquanto ele me guia pelos corredores. Ali está ao lado de uma porta que tem uma placa escrito VESTIÁRIO FEMININO.
— A roupa tá aqui. — ele dá a muda de roupas para Ali — Nada de interagir com a cobaia, Alison. Vou ficar esperando vocês aqui.
Ali agarra em meu braço e me põe pra dentro do vestiário. É até engraçado ver alguém do tamanho dela encarregada de me vigiar. No vestiário, ela apóia a muda de roupas no balcão de mármore e puxa uma toalha do mesmo, me entregando.
— Eu fiz o possível pra te arrumar roupas do seu tamanho. — ela murmura
— Tudo bem, eu agradeço. — digo puxando minha blusa pra cima, tirando-a
Depois de dez semanas fazendo tudo na frente dela, eu até estou levando esse negócio de nudez de forma natural. Pelo canto do olho, consigo ver o coração que simboliza Copas no baralho. Uma tatuagem que complementa o símbolo de Espadas em meu braço. Sinto um aperto no peito, mas continuo tirando minha roupa em silêncio.
— Você tomou um tiro? — ela pergunta olhando para minha coxa
— Dois. — murmuro — Jeanine atirou em mim quando estávamos tentando parar a simulação. Eric salvou minha vida. Como está seu braço? — pergunto ao me lembrar do tiro de raspão que Quatro precisou dar nela e na Jessie
— Foi só um arranhão. — ela dá de ombros
— Que bom.
Entro no box do banheiro e ligo o chuveiro, sentindo a água morna cair sobre mim. Tento usar isso para me acalmar ao máximo.
Depois de um tempo, saio do box e pego a toalha, secando meu corpo inteiro. Ali está parada perto da porta olhando para a parede, para me dar privacidade. Enrolo a toalha no cabelo e visto as peças íntimas primeiro, deixando a calça preta e a blusa gigante cinza por último. Me olho no espelho e me sinto esquisita usando uma peça de roupa da Abnegação.
Tiro a toalha do cabelo, a entrego para Ali e passo os dedos entre os fios de cabelo, tentando arrumar a bagunça. Uso o mesmo elástico de antes para prender os cabelos no alto e respiro fundo.
— Não ficou tão r**m assim. — murmuro — Pareço alguém da Abnegação? — olho para Ali — Pelo menos, da cintura pra cima?
— Nem se usasse todo cinza do mundo. — ela diz e nós duas soltamos uma risada alta
Ali abre a porta do vestiário e Peter ainda está ali, parado feito um sentinela. Ele sorri e segura em meu braço, voltando a me guiar pelos corredores.
— Onde está Tris? — pergunto
— Sei lá. — ele responde distraído
— O que aconteceu na Audácia para que Tris viesse pra cá?
— Acho que tem alguma coisa a ver com simulações e pessoas se jogando no abismo. — dá de ombros — Não sei, não me importa.
Simulações? Pessoas se jogando do abismo?
Ai, meu Deus!
O que aconteceu na Audácia? Será que mataram o que sobrou da minha facção?
Meu irmão está bem?
Peter segue me arrastando pela Erudição de forma despreocupada, como se o que ele tivesse acabado de falar não tivesse peso nenhum.
Quando chegamos na porta que reconheço como sendo o laboratório da Jeanine, entramos ali e ele me joga lá dentro, saindo e mantendo a porta fechada.
A sala é espelhada e tudo o que consigo ver é o meu reflexo. Penso mais um pouco e chego a conclusão de que estou na mesma sala que a garota morta da Amizade estava antes. Ao olhar para o canto da sala, ainda consigo visualizar seu corpo morto no chão.
— Bem vinda ao primeiro teste, Sol de Maria. — ouço a voz de Jeanine — Eu gostaria que soubesse que seu pai trabalhou comigo por anos na criação desse aerossol. É verdade que, depois, eu tive que terminar tudo sozinha, mas tenho certeza absoluta que ele teria muito orgulho de mim por isso.
— Você é doente. — murmuro
— Sua cunhada adorou o resultado. — ela me ignora — Funcionou muito bem nela, mas considerando que ela teve aptidão para apenas três facções e você teve para quatro, suponho que você seja mais forte.
— O que é isso? — pergunto
— Vamos começar com os medos, querida. O resto, vemos depois.
Um gás começa a sair pelo alto das paredes e eu me encolho no canto da sala. Tampo o nariz com a manga da camisa, mas isso não resolve. Minha visão fica retorcida e eu solto um grito agoniado, do fundo da garganta.
O que está acontecendo comigo?
• Tris •
Eu deveria ter agido mais rápido. Quando saí correndo da Audácia para me entregar pra Erudição, estava tentando evitar que Maria fizesse o mesmo e evitar que mais amigos nossos morressem.
Ter que ver Peter de novo me causou náuseas, mas eu estava contando com o estilo de vida duvidoso dele para nos ajudar. Na nossa iniciação eu tive a oportunidade de jogar Peter do abismo, mas não fiz. O ajudei a sair da beira e, até hoje, desconfio que Quatro nem imagina que ele era um dos caras que me atacaram. Poupei sua vida também quando Quatro foi pra cima dele após uma desavença entre eles. Segundo o estilo porco dele, ele nos deve e eu espero que pague agora, porque seria bem conveniente pra mim.
Quatro deu a entender que tem um olheiro na Erudição, mas não me disse quem é. Eu espero realmente que ele não tenha sido t**o o suficiente pra confiar em Peter.
A porta da minha cela se abriu e então eu vi Ali entrando. Eu estava exausta após aquele soro do medo, mas não conseguia dormir. Alguma coisa dentro de mim tinha medo de fechar os olhos.
— Só fica calada e vem comigo. — ela diz me pegando pelo braço
— Eu estou exausta, Ali.
— Por favor, Tris.
Caminhando pelos corredores, eu fico repassando as vezes em que estive com Ali. Assim como eu, ela também veio da Abnegação e perdeu o pai e a irmã mais velha no ataque. Durante sua iniciação, ela teve bastante dificuldade, no início, mas Maria, Jessie e Drew foram essenciais para seu crescimento. No último estágio, ela foi muito bem, considerando seus medos.
Me pergunto porque Ali escolheu ficar com a Erudição, após o ataque. Poderia ter ficado com os que ficaram na Franqueza, mas optou por ficar aqui, achando que estaria segura.
— Pra onde estamos indo? — pergunto
Ela não me responde. Segue me guiando pelos corredores com pressa e, ao invés de descermos pelo elevador, descemos vários e vários lances pela escada de emergência. No fim dos lances de escada, há uma porta escrito TÉRREO e uma que diz SAÍDA DE EMERGÊNCIA. No chão, embolado, há um casaco grande e pesado da Abnegação. Ela o joga em meus ombros e manda que eu vista.
— Eu acho que já posso imaginar, mas não posso sair daqui sem a Maria. — digo vestindo o casaco e vendo-a tirar a jaqueta com a braçadeira azul dos Aliados e vestir um casaco igual ao meu
— Tris, eu não funciono muito bem na adrenalina, então vou ter que pedir mais uma vez pra você ficar calada. — ela diz afobada
Ouço passos pesados na escada e então vejo uma garota com trajes da Erudição e Peter carregando o corpo semi acordado de Maria. Em sua testa, há um corte superficial, mas que escorre um pouco de sangue ainda. Ela está sussurrando palavras desconexas.
— Eu deveria ter injetado esse soro pra ela dormir, mas se eu fizer isso vai ficar mais difícil pra vocês duas carregarem ela. — Peter diz
— Eu vou esperar vocês se afastarem e vou desligar os disjuntores do prédio. — a garota diz — Isso vai apagar as imagens das câmeras.
— Quem é você? — pergunto
— Não importa, só calem a boca e vão embora. — ela diz passando Maria para Ali e eu
Ali e eu somos pequenas, Maria é um pouco maior e mais larga que nós duas. A chance de dar errado e nós sermos pegas é enorme.
— Boa sorte pra vocês. — a garota diz — Vamos, Peter.
— Toma. — ele me entrega a seringa — Injeta nela depois que estiverem seguras, porque essas alucinações não vão parar nem tão cedo.
Peter e a garota misteriosa sobem as escadas e Ali e eu começamos a arrastar o corpo de Maria pra fora dali, pela saída de emergência.
Saímos em um beco e vamos caminhando enquanto Maria murmura coisas esquisitas e se debate um pouco. Seus braços estão em nossos ombros, mas suas pernas estão moles, o que dificulta a caminhada.
— Espera, qual é o plano? — paro e olho para Ali
— Colocá-la no trem e ir pra Audácia. Não é lá que todo mundo está?
— Esse plano é horrível. — franzo o cenho — Vão nos pegar.
— Não temos outra escolha agora.
— Temos sim.
Entramos em outro beco e eu vejo um grupo Sem-Facção caminhando. Me aproximo deles e vejo que um homem mais velho que eu me encara. Um de seus olhos é completamente branco.
— Eu sou Tris Prior. — digo — E essa é Sol de Maria Prince. Estamos a resgatando da...
— Da Erudição. — ele conclui minha frase — Vamos levá-la pra casa.
O homem a pega no colo com facilidade e, num delírio, Maria o chama de Quatro. Começamos a andar por uma série de becos fedidos e desconhecidos por mim, até que chegamos em uma das estações do trem.
De trem, observo a cidade passar por meus olhos e vejo o edifício da Erudição se afastando. Respiro aliviada, embora eu não faça ideia do que vem a seguir.
Será que Jeanine já percebeu que fugimos?