Vida cotidiana

1121 Palavras
Com os olhos entreabertos ainda na madrugada, senti novamente aquela sensação de saudade. Acordava com o coração apertado, mas também sentia que o motivo das minhas angústias estava em outra pessoa. Meus pais estavam bem, meus irmãos também, amigos…, poderia ser uma preocupação momentânea que aflige uma pessoa que mora no Rio de Janeiro, mas no meu íntimo acreditava ser em outro lugar. Uma coisa inexplicável. Acordei às 4:09 da manhã, um horário bom para quem faz faculdade em Niterói morando na Tijuca. — Já acordada filha! Iria te chamar 5:30. — É pai, não consegui dormir mais. Estou agitada ultimamente. — O pai tem uma mercadoria para pegar hoje às 6:00. O motorista ainda está na Serra e tenho que aguardar um pouco aqui. Peguei café que misturava com o leite gelado pela geladeira, não gosto muito de bebida quente e me servi com pão adormecido que caia bem naquela manhã escura. — Não quer que eu esquente? — Não precisa pai, está ótimo assim. Sou a mais nova de três irmãos e faço parte de uma família tradicional brasileira e um pouco clichê carioca, morando num apartamento onde após o casamento da minha irmã no civil, possuo um quarto só meu, outro do meu irmão, um da minha avó que na verdade é a dona de tudo e outro dos meus pais. Foi adaptado o pequeno quarto de empregada para Douglas que precisava de sua privacidade na chegada da adolescência e até dois anos atrás dividia esse com a minha irmã. Tínhamos uma casa super grande em Campo Grande, mas com a morte do meu avô ainda na minha infância, minha avó precisava ser cuidada e as dificuldades também contribuíram para nossa instalação e permanência aqui. Antes de sair, olhava minha avó que sentava em frente a televisão perto da sacada e dava o seu desjejum matinal antes dela acordasse minha mãe que a odiava por isso. Faço faculdade de relações internacionais em Niktcity E já nas barcas seguia aérea pela manhã de sol preguiçoso; sou uma das poucas pessoas que não mexem no celular na rua, nem para ver a hora, para isso tinha meu relógio de pulso que me servia muito bem. Após minha entrada no ensino superior, minha vida se resumiu a essa rotina todos os dias e poucas baladas despreocupadas. Ficava com meus amigos de faculdade e depois cada um seguia seu caminho entre empregos, maternidade e estágios. Quando chegava em casa novamente, precisava ter uma conversa com meu pai que pegava no meu pé em relação aos estudos. Nossos pais sabem encherem o saco quando querem e o meu pai fazia isso com maestria, mesmo sabendo que eu, Joelma, Walace e uma meia dúzia da sala estávamos sofrendo perseguição da professora Liandra – que definitivamente não tem o que fazer – ela nunca nos perdoou após um m*l entendido no primeiro dia de aula no terceiro semestre e eu estou quase repetindo a matéria dela e estou desesperada e a fim de trancar e recomeçar quando trocasse de professor. — Você tem noção quanto eu gasto para você ficar trancando matéria? — Pai, olha só, eu sei. De verdade. Eu sei o quanto você batalhou por mim, mas tá difícil. — Nada é fácil nesse mundo, querida. Aceita e se esforce mais. Isso vai te atrapalhar a conseguir o estágio mais pra frente. Então, como já disse, se esforce mais! Deveria parar de falar minhas intenções acadêmicas para meu pai, mas ele nos sonda o tempo inteiro quando estamos em casa. Eu, Douglas e Fabi, antes de sermos filhos de Jonas, somos vítimas dos ideais dele; Douglas é estudante do último ano de medicina, Fabi, administrativo na marinha, ou seja, segundo sargento e eu, que adorava geografia e história e encantava meu pai com minhas posições políticas e fantasias de espiã da KGB e da CIA achei uma boa a vida diplomática. Hoje tenho que me virar com meu inglês de escola de idioma e ainda aprender francês e espanhol, pois do nada aparece um professor poliglota dando aula sem dó nessas línguas. Se soubesse que poderia fazer qualquer graduação para ser diplomata, certamente ficaria na UFRJ em história. O melhor de estudar do outro lado da poça é aproveitar a viagem nas barcas para ler e ficar papeando com turistas, meus colegas de curso quando os encontro Walace e Samira entre muitas outras pessoas que aparecem em nosso caminho. Particularmente sempre gostei do trajeto da volta para casa e quando chego nela, dou um beijo na minha avó, converso um pouco com ela sobre coisas que vemos pela janela de nosso prédio na Tijuca. Quando terminamos a prosa, vou para meu quarto, tiro o tênis, sento na minha cama, e coloco por alguns minutos os pés para cima e abraço um bicho de pelúcia gigante que meu ex deixou de recordação. — Fala garota, o que tem de bom? — Oi gata! Escuta, sabe que tem um lual pra gente ir na quinta, né. Quinze anos de Rita, minha prima. — Ela é maior chata, tem certeza que vale a pena ir para a faculdade na merda na sexta para ter que aturar a filha do governador surtada? — É um lual, com um monte de figuras importantes, comida boa, bebida boa, Smirnoff à vontade… — Ah, não sei Cris. Agora quem marca uma festa de quinze anos na quinta? Meu pai ficará bolado se eu faltar no curso. — Sai da aí! Poxa Ágatha, a gente prometeu não se afastar depois do ensino médio e você só anda para trás nos lances que eu arrumo e olha que é só uma festa de família e autoridades. Até carona vamos ter de graça. — Hoje é terça e você só me avisa agora? — Se você me emprestar aquele vestido vinho, eu te empresto qualquer um daqui de casa, aproveitando que minha irmã está no Canadá. — Posso pensar? — Dois minutos! — Tá, eu vou. Vou desenrolar aqui em casa e te ligo. — Te amo vaca! — Eu também cabrita, Beijos! Longe da realidade de Cristiana, que também não era rica, mas é integrante de uma família política com dois vereadores, um deputado estadual e seu primo distante governador eleito. A mãe dela era professora do Estado e agora é assessora de um dos irmãos e já mandou a filha mais velha para o intercâmbio no Canadá, reformou a casa que antes estava bem deteriorada logo no início do Grajaú. Cris ainda fazia cursinho para entrar em medicina e há um bom tempo não a vejo, seria uma ótima oportunidade para isso e ainda estar perto de figurões políticos e empresários, pelo menos ensaio a vida que um dia quero levar.
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