Ethan
Após as manobras judiciais que meu pai deu a fim de fazer parte do conselho das empresas de meu avô me representar, me vi no desconhecido. Meu avô paterno, o pastor Joshua Thompson, me introduziu ao seu mundo, sem me pressionar tanto quanto meu pai, mas eu era diferente a ponto de não conseguir esconder da igreja e do colégio.
— O Ethan sempre foi um garoto muito estranho, um dia o exemplo fiel do bom moço educado e no outro, um rebelde cheio de palavras ácidas e corrosivas que mina minha paciência. Eu tento lidar com ele, mas as vezes cansa, sabia. — George conversava na sala.
— E se tentasse um colégio interno?
— Alguma coisa que fizesse interagir mais com outras pessoas, outros adolescentes, ter que se virar.
— Tenho medo de deixá-lo mais sozinho do que ele já está. Ele herdou uma quantia absurda de ações, terras e títulos europeus, assim como sua irmã que não tem ideia disso. Receio que se caso fique sozinho as hienas dos familiares dele e outros parentes o deteriorarão mais ainda. Elas possuem títulos e não dinheiro russo.
— É verdade!
Eles falavam sobre mim no andar abaixo da linda casa que meu pai comprou para morar com minha mãe assim que descobriu que estava grávida de mim. Nunca chegamos a morar aqui na verdade com ela viva, ela passou anos fechada e de uns tempos para cá, meu pai queria me dar uma vida normal, longe da badalação das elites do litoral da França e Dinamarquesa – terra essa que meu avô materno adotou juntos com minhas tias e teve minha mãe, sua única filha de sangue com Mafalda, minha avó. Cheguei a ser bem popular no meu colégio, fui abraçado pelas pessoas, mas eu tentava recuperar a graça perdida numa manhã de sábado, após ser comunicado sobre o acidente no jato particular do meu avô onde ele com sua então amante. Mesmo que digo que a tristeza veio nesse exato momento, não é verdade. Eu estava com eles ali. Lembro-me da expressão facial de minha mãe fazendo seu último travamento de tempo – um comando que só telepatas treinados e experientes conseguem para não me deixar vê-la morrer enquanto meu avô era o copiloto. Isso já faz três anos, dez meses e vinte dias. Boa querendo interrompê-los, precisava descer as escadas e já que não existia outro caminho além da janela.
— Como vai meu filho, está melhor?
— Sim, meu pai.
— Como vai garoto? – meu tio Carl perguntava se levantando da poltrona.
- Bem. Como vai? – O abracei, respondendo seu entusiasmo. Fazia uns dois anos que não o via pessoalmente.
— Quer ficar com a gente, se caso…
— Agora não, vai ficar mais tempo?
— Sim, almoçamos juntos.
— Certo! Pai eu vou na biblioteca, entregar isso.
— Quer que eu vá com você?
— Não, vou correndo, assim faço exercício.
— Está bem, leve o celular.
— Relaxa, eu voltarei logo! Não é longe. Maria está em casa?
— Não. Saiu com suas irmãs.
Não que eu quisesse ser uma pessoa problemática, mas depois dos dezesseis anos, minhas habilidades psíquicas que acreditava ter perdido com o trauma daquele acidente, elas simplesmente emergiram durante o teste. Minhas tias e tios, me alertaram sobre os deveres de ser parte de uma aliança europeia que mexiam com ocultismo. Meu pai foi criado numa comunidade evangélica de Massachusetts, mas, mesmo que ele tenha presenciando minha mãe, meu avô e outros tantos membros da Dynastie Lunaire por diversas vezes em suas artimanhas sobrenaturais, ele tem dificuldade de aceitar que eu sou tão igual ou pior que eles.
Corri duas quadras por Charlestown e parei curvado em frente a biblioteca pública de Boston, mas cansado do que de costume. Estava sendo consumido pela minha própria mente.
— É Débora, acertei?
- Sim. Mas…
- Relaxa, a Agnes falou de você.
- Sério! Mas, sou nova aqui… como?
- Vim entregar isso.
- Certo!
Agnes era uma senhora de setenta anos que sempre conversava comigo no turno dela, a última vez que a vi por bilocação, estava cansada e com dores nas pernas e no hospital de Charlestown para uma pequena cirurgia nos tendões, sua aura era incrível e tem tudo para viver até os cem, sempre gentil e uma das poucas pessoas abertas a conhecer as minhas habilidades. Aliviei suas dores, mas está aí um dom que não tenho é de cura, eu só consigo enganar um pouco e fazê-la dormir.
- Viu o rosto dela? – perguntou Agnes em nossa última conversa.
- Não, eu não a vejo. Eu só a sinto.
- Por que não sai um pouco mais, vai embora para o Brasil e se a sente aqui, deve ser porque ela é daqui.
- Eu estraguei qualquer possibilidade de frequentar a escola aqui e qualquer outro lugar que não seja a biblioteca.
- Esqueceu o que eu fiz?
- Eles mereceram Ethan. Não tinham o direito de rirem de sua dor.
Nem eu de quebrar a cara deles, da maneira que eu as quebrei.
Nas vezes que estava na Europa, eu e meus primos zoaram em festas, raves e tudo que tivesse muito barulho, bebidas e mulheres que nunca sabia se estava gostando ou com medo da gente, nos Estados Unidos, era filho de um secretário de relações internacionais e tinha que lidar com a fatídica realidade de ser filho bastardo dele, pelo menos para a minha família de lá e George, mesmo tendo feito isso com outras duas mulheres nunca levou a culpa pelos seus atos, afinal, as mulheres é que seduzem e roubam o homens. Foi um escândalo, meu pai e Svetlana estavam apaixonados e foi isso. Meu pai foi pai antes dos dezessete anos e depois com vinte e um e mais tarde de mim e das minha irmã com Svetlana.