A bravura provém do sangue, a coragem provém do pensamento.
— Napoleão Bonaparte
Hipólita abriu a porta do quarto de Zarina minuciosamente, haviam acabado de colocar o plano em prática, evitou ao máximo chamar atenção dos soldados, por isso resolveram que a fuga seria ao amanhecer.
Vasculhou o corredor com os olhos e ao constatar que não havia ninguém por ali deu passe livre para que Zarina a acompanhasse. Conhecia sua casa, como a palma de sua mão, desceu a longa e entontecedora torre do castelo seguindo em direção a ala que ficava ao lado norte da grande Fortaleza.
Sabia que com a morte de seu tio havia acabado de pisar em um território perigoso, mesmo sendo noiva de Lord Byron, Anthonny ainda poderia querer sua cabeça. Não conseguiria ficar à espera de Louis sabendo que a sua vida e de seu bebê corriam perigo. Talvez Zarina estivesse certa, ele poderia ter desistido dela — pensou Hipólita com pesar.
Aquele silêncio ensurdecedor deixava o ar dentro daquele castelo ainda mais tenebroso, pôde sentir o pânico de Zarina quando a mulher segurou sua mão, as dela tremiam em contato com a sua. Ergueu a pesada tranca da porta e a abriu, ficou estagnada ao deparar-se com uma dezena de soldados com lanças e espadas apontadas em sua direção.
— Ora, ora… — A voz de Lord Byron cortou o ar atrás dela — Quer dizer que minha amada noiva tentou fugir novamente e pensou que eu não descobriria?
Hipólita olhou para a amiga que a fitava com aflição. Soltou a mão de Zarina e virou-se em direção a Byron, Sor Kentigern e mais outra dezena de homens esgueirava-se pelo local.
Byron estava um passo à sua frente.
— Não precisaria fugir se não fosse tratada como uma prisioneira em minha própria casa. — Rebateu de forma hostil.
— Oh, eu sou um homem difícil de se enganar Lady Hallwick. O cadáver de seu tio sob seu leito a denunciou.
Hipólita estudou as feições do homem por um momento, resolveu que não havia mais escapatória. Zarina era tão inocente naquela história e foi a que mais sofreu no meio dela, então percebeu que deveria fazer a coisa certa.
— A mulher a meu lado nada teve a haver com minha imprudência. — Afirmou Hipólita — Peço que a solte, por favor, faço o que desejar.
— Não! — Zarina gritou angústia e a abraçou — Não podes fazer isso, não ceda ao que ele quer, ele irá mata-lá.
Mas Hipólita sorriu em uma última tentativa de acalmá-la, segurou seu rosto entre suas mãos e acariciou as laterais de sua face com o polegar.
— Não deixarei que sofra por minha culpa, não mais! — Disse e a soltou.
Os soldados se aproximaram dela e Zarina fora empurrada por um deles, Hipólita se deixou ser acorrentada pelos homens de Byron sem apresentar resistência e, seguindo as ordens do Lord, ela fora trancada na masmorra do castelo.

Momentos depois que a escuridão da noite tomou conta do céu, depois que Hipólita fora abandonada com fome e sede dentro da maldita masmorra, a candeia de azeite iluminava a cômodo
gélido e vazio em que estava, suas pernas doíam, de frio e cansaço, a cãibra as dominavam.
Suas mãos estavam presas pela corrente na parede em uma posição desconfortável, os braços abertos, no alto, obrigando-a a ficar em pé. Nas primeiras horas durante o confinamento tentou equilibrar seu peso sob um pé, outrora em outro para tentar abrandar que cansasse mais rápido, agora, depois de tanto tempo m*l conseguia manter-se erguida.
Contudo, tentava ao máximo economizar suas energias para que a exaustão não tomasse conta de si. O som de passos fora ouvido e em poucos minutos a porta pesada de madeira fora aberta.
— A criada foi solta, tal como havia pedido. — Lá estava Byron, resoluto, olhando para ela com as pálpebras semicerradas e um sorriso no canto dos lábios — Olha só para ti, as mulheres obedientes não ficam trancadas em masmorras.
— Não, elas ficam trancadas em seus quartos enquanto são obrigadas a se deitarem com seus maridos.
— As mulheres têm esse dever ,querida, de dar filhos aos homens. — Afirmou ele — Passar o sobrenome e seus títulos, no final, é isso que importa.
Hipólita destinou a Byron apenas um olhar de escárnio.
— Sinto muito, mas essas expectativas não foram criadas e muito menos alimentadas por mim! — Sentia uma dor horrenda em seus braços, quase não se aguentava em pé, mas evitou demonstrar fraqueza perante o inimigo, então continuou tentando levar adiante aquela camada de indiferença e cinismo.
Ele caminhou vagarosamente até onde ela estava, prendendo seu corpo com o dele entre a parede. Hipólita apenas virou o rosto, fitou o chão, sabia que ele poderia tentar beijá-la contra sua vontade.
Sentiu os lábios quentes mordiscando seu pescoço enquanto as mãos maliciosas apalpava seu quadril, desceram até suas coxas e ele as puxou fazendo-a perder o apoio, colocando-as entre ele, Byron esfregou-se depravadamente nela, mesmo sob os trajes, pôde sentir o volume dele em sua virilha.
— Me enfiarei em ti, onde e quando quiser, me enfiarei até dentro de sua boca se assim for de minha vontade. — Brandou o Lord em seu ouvido — Tu como uma bela e submissa esposa, só irá gemer e pedir ao seu senhor por mais.
— Experimenta. — Disse sugestiva — Eu arranco o seu p***o a dentadas.
— És uma jovem tola, pensas que só porque matou um homem isso te faz invencível? — Indagou ele enquanto a forçava olhá-lo — Mas não se preocupe, não contarei ao rei, esse será o nosso segredinho. Não te culpo por tê-lo matado, vivemos em uma selva, e os fracos morrem! Ele era um m****o importante para este país, mas quem disse que me importo?
Tanto Byron, quanto seu tio não sabiam o que era honra, e se precisasse matar um dos seus para conseguirem poder, eles matariam sem hesitar. Não confiavam uns nos outros, por medo de serem apunhalados pelas costas.
Ela apenas balançou a cabeça diante dele. A repulsa transparecia em seu olhar.
— O bispo está chegando para dar sua punição. — ele anunciou em um tom de voz áspero.
— Como achas que posso levar a sério o julgamento de um homem que vive em bordéis com meretrizes?
Um sorriso lento abrandou a sisudez de Hipólita.
— Ele é bispo!
— Eu nunca insultei sua inteligência, por favor, não insulte a minha. Ele não é bispo, nós dois sabemos disso, Anthonny o fez bispo e sem o consentimento do Vaticano.
Lord Byron e Anthonny agiam de forma vigarista ao usavam o poder para controlar tudo no país, até mesmo os escolhidos para serem cardeais. Alfred tornou-se bispo a pedido de seu primo, ironicamente o falso sacerdote além de frequentar bordéis, também vivia embriagado.
— Está blafemando, não podes espalhar heresias sobre um homem de Deus, querida! — Ele deu de ombros e aproximou a boca de seu ouvido para falar — Mas quando as mãos de Deus cair sobre ti e teus pecados, voltará a ser pura e poderemos enfim fazer os votos.
— Pura? — Hipólita gargalhou rente à sua observação — Tudo o que nunca serei novamente, é pura.
Ela ergueu as sobrancelhas e deixou que ele concluísse sozinho, mas Byron era ignorante demais para entendê-la.
— Queres saber como foi matá-lo? Porque eu me lembro de cada segundo, eu me lembro de ter quebrado seu nariz, eu me lembro do meu punhal adentrando a carne de seu pescoço e cortando-o, como se estivesse abatendo uma ovelha. Lembro do seus gritos, de como ele se engasgou com o próprio sangue, eu me lembro do cheiro e do gosto quando os respingos atingiram meus lábios, eu lembro de seu olhar Byron, ele olhava compenetrado para mim, não queria morrer, estava com medo. — A fúria do Lord fora evidente quando seu rugido ecoou por toda masmorra, sabia que estava provocando sua raiva, mas nunca demonstraria fraqueza diante dele — Lembro de seu corpo esfriando bem diante de mim enquanto ele morria. Vê-lo morrer me deu muito prazer, só não deu mais prazer que as noites que sentir Louis dentro de mim. — Notou a surpresa no rosto dele e isso lhe deixarou satisfera. Ele achara que ela seria para sempre uma jovem fraca e tola que viveu o tempo todo sendo hostilizada pelo tio — Se fechar os olhos lembro detalhadamente de todas as vezes em que o tive, aquecendo meu corpo em noites frias, realizando todas as minhas fantasias. Então, achas que posso me tornar pura?
Ele passou alguns minutos para se recuperar de sua revelação, mas quando isso aconteceu a expressão de fúria em seus olhos foi arrepiante.
— Como ousa falar isso para mim? — Perguntou com escárnio.
Parecia que o próprio lúcifer estava em seu corpo quando ele ergueu o punho e lhe desferiu um tapa. E como doeu ter as mãos daquele miserável em seu rosto, sua pele ardia, mas não recuou diante dele. Com a força do golpe, sua boca foi cortada, aproveitou para cuspir o sangue no rosto de seu agressor.
— Foi corrompida pelo demônio, amanhã, quando receber sua punição, se arrependerá amargamente por ter me desrespeitado. — Ele gritou descontrolado — Farei da tua vida miserável um inferno, se arrependerá de ter acordado a fera, Lady Hallwick.
Ele puxou um paninho da manga da camisa e limpou o rosto enquanto a fitava ferozmente. Hipólita mordeu os lábios e sorriu deixando-o ainda mais irritado.
— Não carregará esse sorriso amanhã, quando estiver sendo açoitada como um bicho. — Ameaçou ele antes de sair.
Hipólita estava literalmente tremendo de frio quando a exaustão tomou seu corpo e ela se deixou adormecer.

O homem com trajes negros de bispo lia um rolo atentamente em voz alta, era sua punição que era dada por ele, Alfred, um homem feio e ranzinza, tinha cabelos longos e desgranhado, por seus olhos esverdeados transparência toda sua alma n***a.
Por amor ao seu filho, queria protegê-lo, e só por ele estava obstinada a dominar seus medos. E como resistência de toda angústia que sentia, a coragem ressurgiu em toda ela, fazendo-a retomar o controle de suas emoções.
O sol ainda dava os primeiros resquícios de sua aparição.
De onde estava, algemada com os braços abertos a troncos de madeira, podia ver centenas de soldados ingleses, homens de Byron. O restante deles faziam a guarda pelo lado de fora de sua propriedade. A Fortaleza dos Hallwick localizava-se no meio de um terreno de milhares de léguas cercado com muros enormes.
— Terá de ser purificada, e como penitência a senhorita levará cinquenta chicotadas. — Determinou o homem em tom de lamento — Depois de apanhar deverá confessar seus pecados. Deus, eu, seu amado noivo e todos estes homens honrados aqui presente serão testemunha.
Desgraçado! Pensou Hipólita.
Sor Hugrand foi o homem designado por Byron para lhe chicotear, pois pelas palavras de Byron, não conseguiria tocar na mulher que ama.
Estremeceu quando o homem pairou atrás dela, ele rasgou a parte de trás de seu vestido deixando suas costas livre. Alfred entregou o chicote ao homem, e por Deus, o chicote era feito de aço e revertido com couro. Rezou para que o homem não demorasse ao açoitá-la, quanto mais rápido, menos tortuoso seria.
Quando o peso do objeto tocou a pele de suas costas, o impacto a fez ranger os dentes. Caso as algema que prendiam suas mãos não estivessem prendendo-a tão alto, cairia de joelhos. Em algum momento durante a tortura tivera a sensação de que a cada golpe desferido, o objeto cortava a carne de suas costas em pedacinhos. Para seu conforto, depois da décima chicotada, além de parar de contar, também parou de sentir a dor.
Alfred mandou que Hugrand parasse por um momento para ouvir sua confissão. Encontrou forças para sorrir antes de repontar:
— Então esta é a penitência? Morei por anos com Fredis, isso não é nada perto do que ele fazia.
— Vamos ver até onde aguenta, não é imune à dor. — Lord Byron quem falou.
— Mas eu me acostumei com ela! — Ela estava mentindo, todavia aqueles homens não precisavam saber disso.
O som repugnante que o objeto causava ao chocar-se com seu corpo a deixava mais e mais tonta. Tinha a sensação de que o mundo a sua volta passava-se demasiadamente lento.
— E então? — Interviu Byron acenando para que o homem parasse mais uma vez.
— Eu desejo confessar. — Relatou sôfrega, todos a estavam observando — Eu confesso, confesso que em um dos bordéis que frequentei, avistei Bispo Alfred com uma prostituta em seu colo, os peitões dela estavam na cara. Dizem que ele tem muito fogo e que uma só não o satisfaz.
— Continue. — Mandou o falso sacerdote — Ela deve aprender a ter bons modos!
Hipólita resfolegou esperando por mais daquele martírio, mas o som estridente de uma trombeta ecoou chamando a atenção todos. A estranheza no rosto de Byron e seus homens a fazia acreditar que ela não fora tocada pelos soldados que estavam fazendo a guarda na parte exterior a fortaleza.
Novamente a trombeta tocou, mas desta vez com ela, veio acompanhada um grito de guerra que ela tinha certeza que toda Londres havia ouvido. De repente, um outro som fora ouvido, parecia que o apocalipse havia chegado e a Terra estava sendo destruída, mas era apenas os trovões dos casco dos cavalos soqueando o chão.
De longe via-se soldados cobertos com armaduras, em suas mãos haviam flechas, lanças e espadas. Três guerreiros se destacavam no meio daquela legião de homens, eles vinham lado a lado, montados em seus cavalos, trotando a todo vapor. Ficou impressionada quando o cavaleiro do meio ergueu-se com o cavalo em pleno galope, sua armadura era diferente dos outros, era n***a e em seu peito havia esculpido o mesmo símbolo dos estandartes que os seus porta bandeiras carregavam, um unicórnio branco adornado com correntes de ouro. Ele trazia consigo um arco e flecha e apontava na direção em que ela estava, fechou os olhos temendo que e ele a atingisse, então, o som de algo estatelando-se ao chão fora ouvido, era Sor Hugrand.
Os soldados do Lord começaram a se formar para esperar o ataque dos invasores, ao que lhe parecia a defesa do Castelo havia sido rompida, caso o contrário não teria como aqueles homens estarem ali.
— Quem são eles?
Alguém gritou a pergunta num rompante.
— O exercito de MacEchdach, O Príncipe n***o! — Respondeu Lord Byron desembainhando sua espada.
Os olhos de um dos homens quase saltaram de seu rosto, outros murmuravam palavrões, outros corriam, alguns lutavam. Eles estavam surpresos, mas não quanto ela estava, então ele veio para salvá-la?
E como se, só ao escutar seu nome fizesse com que sua esperança fosse recuperada. Rio involuntariamente enquanto presenciava seus amigos massacrarem o contingente de Byron, os viu cortar as cabeças de alguns deles debaixo para com sem descer de seus cavalos. A linha dos guerreiros escoceses se abriu e depois fechou-se encurralando-os para um novo combate.
— Matem todos os soldados! — A voz reverberou com força brutal, era Louis por debaixo daquela armadura n***a.
Sentiu um alívio quando as algemas lhe foram tiradas por Conan, e com a ajuda dele caminhou, desvencilhou-se dos braços protetores do amigo e correu em direção a Louis, ele saltou de seu garanhão, retirou o elmo que cobria seu rosto e a tomou nos braços quando Hipólita se jogou sobre ele, abraçando-o com força.
— Estou com raiva de ti, porque demorou tanto? — Ela perguntou, ficou tão consternada ao sentir ele afagar seus cabelos que só conseguiu deixar as lágrimas cair por sua face.
Quando a soltou Louis beijou a ponta de seu nariz, em seguida selou seus lábios nos seus. Como sentiu falta dele, até aquele m*l humor corriqueiro, das broncas que ele sempre lhe dava, afinal, aquela foi a forma dele demonstrar o quanto era importante para ele.
— Precisa ir, a cidade foi cercada, preciso que fique em segurança. Conan irá levá-la até a saída da cidade, lá uma carruagem estará à sua espera. — Bradou ele, a voz áspera pela fúria, ele olhava atentamente na direção em que Byron corria — Lamento não chegar a tempo. Mas eu o matarei e darei sua carne de comida aos lobos.
Nenhum do seus homens foram atrás dele, sabia que ninguém tocaria no Lord a não ser Louis, ele quem iria matá-lo.
— Zarina, preciso encontrá-la. — Passou os olhos pelo lugar, enquanto os soldados lutavam, os criados fugiam, mas nada de sua amiga.
— Sor Jame foi buscá-la, meus homens levarão todos em segurança para fora da cidade.
Ela assentiu em concordância, precisar ir, sabia que tirava sua atenção do confronto.
— Boa sorte. Te amo. — Disse Hipólita e chegou a ficar surpresa com as próprias palavras, até um pouco constrangida por admitir, mas era o que sentia.
Não esperou por resposta dele, acelerou os passo indo de encontro a Conan, ele perguntou se ela conseguia cavalgar, apenas assentiu, montando no cavalo de Louis.
Seguia a galope por entre a batalha, o som do metal chocando-se com metal pareceu perfurar seus tímpanos. Era a primeira vez que de fato presenciava uma guerra. Puxou as rédeas do cavalo quando uma lança quase acertou cocuyo, ao incitar o garanhão para cavalgar outra vez, Hipólita sentiu algo atravessar seu ombro de trás para frente, uma dor maçante a possuiu por completo, sem conseguir manter-se equilibrada sob o cavalo acabou caindo no chão.
Estava sufocada com a própria dor como se estivesse quebrado algum osso, de repente respirar pareceu uma tarefa impossível pois o ar parecia não adentrar em seus pulmões. Tentou se pôr de pé, mas voltou a cair e foi amparada por Conan. Pestanejou atordoada, o homem que segurava o arco e flecha teve o corpo cortado ao meio por um machado pelos guerreiros do clã de Louis, isso foi a última coisa que viu antes de apagar por um tempo.
Quando recobrou a consciência vira Imogen, mas seu rosto estava embaçado, ela lhe falara algo mas não pôde compreender. Estavam em movimento, concluiu que seria dentro da carruagem.
O cheiro de sangue estava impregnado nela, assim como uma sensação de morte.
Perdeu os sentidos outra vez mais, em uma delas ao acordar viu sua mãe sorrindo, em outra Louis a beijava. A última coisa que lembrou de ver antes de apagar novamente foi alguém fazendo-a tomar um líquido quente.