Eu estava no meio de uma sessão exaustiva de estudos para uma prova de Farmacologia, tentando ignorar a culpa que vinha em ondas, quando a campainha tocou. Achei que era o entregador de comida que tinha pedido, mas quando olhei pelo olho mágico, meu coração parou. Não era o entregador. Era o Coringa.
Ele era um dos braços direito de VH. Já tinha ouvido falar dele algumas vezes, mas nada muito aprofundado. Sabia que Victor confiava nele de olhos fechados, mas era Guga quem era amigo de infância e mais próximo da família dele. Coringa era um dos "olhos na rua" de Victor. Ele não tinha cara de bandido, mas era um dos mais frios e leais
Franzi meu cenho, confusa.
Abri a porta, forçando um sorriso que m*l disfarçava o pânico.
— Coringa? Que surpresa.
Ele não sorriu. Apenas tirou o capacete da moto, revelando o cabelo raspado nas laterais e um olhar que me atravessava.
— Victor pediu pra eu dar um pulo por aqui. Queria ver se a casa estava ok. E se a mulher dele estava focada no que precisa.
Ele entrou sem pedir permissão, e eu tive que dar um passo para trás. Seus olhos varreram a sala de estar, a mesa cheia de livros de medicina, e pousaram na minha expressão.
— Ele ficou preocupado. Você mandou uma mensagem estranha, falando de plantão em pleno sábado à tarde. Sei que Enfermagem é puxado, mas... plantão assim do nada?
Eu senti o suor escorrer frio pelas minhas costas.
— Foi de última hora, Coringa. Estava cobrindo uma colega que teve uma emergência, estou desesperada para fechar as horas extras antes do TCC. — Menti, apontando para a pilha de livros, esperando que o estresse do PCE fosse convincente. — Mas, ele está mandando você vir me vigiar? Porque ele mesmo não fala comigo?
Ele pegou um dos livros de anatomia, folheou e largou com desinteresse.
— Entendi. É bom ver que você está estudando. Victor confia em você, Amanda. Mas ele me mandou aqui porque a última coisa que ele precisa agora é de distração na rua. Fica na tua, tá? O asfalto está quente. — Ele me lançou um olhar hesitante e eu franzi o cenho.
Ele me olhou de cima a baixo antes de se virar para a porta. Senti um arrepio. Ele não me pegou, mas sabia que estava me vigiando.
— Vou avisar Victor que está tudo nos conformes. — Ele disse, antes de sair.
Fechei a porta e escorreguei até o chão. A visita não era para ver se a casa estava ok. Era para ver se a mulher dele estava no lugar? Que p***a é essa? O que Victor tem? Merda na cabeça?
***
Eu não conseguia tirar a imagem do Coringa da minha cabeça. O jeito que ele varreu a sala, o olhar de desconfiança. Victor tinha me mandado um recado claro: ele estava me vigiando. E eu não era mais a garota que obedecia em silêncio.
Peguei o celular e, com as mãos tremendo de raiva, digitei o número de Victor na aba de mensagens. f**a-se se ele só veria aquilo dali a uma semana. Eu tinha que reagir agora.
Eu: O Coringa esteve aqui.
Enviei e esperei. A resposta veio quase instantaneamente, o que só confirmou que Victor estava online e esperando o feedback do capanga.
Victor: Sim. Eu que mandei. Precisava saber se você tá focada no que precisa. Você sumiu o dia todo.
A raiva me fez ver vermelho. O teclado parecia tremer na minha mão.
Eu: Não sou sua propriedade, Victor. E não sou uma criança pra você mandar capanga na minha casa checar se eu estou 'focada'.
Victor: Você consegue continuar fazendo isso por mim, Amanda, sua dispensa tá cheia, você tem o que quer, compra o que quer, tem passagem, uber para a faculdade... Eu pago a pra você continuar com essa merda de Enfermagem que você tanto ama. Você é mulher do Victor Hugo, e não uma vagabunda que fica de rolê por aí.
O golpe foi certeiro. Ele sabia exatamente onde me atingir. A faculdade. O futuro que eu só tinha por causa do dinheiro dele. Eu senti a lágrima escorrer, mas era de ódio, não de dor.
Eu: Eu não sou 'mulher do Victor Hugo'. Eu sou Amanda. E o nosso acordo é sobre a minha faculdade. Não sobre ser sua refém. Se eu soubesse que seria assim, eu tinha ficado na rua.
Eu me senti m*l por dizer aquilo, mas era a pura verdade. Eu o odiava por me fazer arrepender de ter aceitado a ajuda dele.
Victor: Não se arrepende, não. Você não estaria estudando se eu não tivesse te proposto. E sabe o que acontece quando a gente se arrepende? A gente perde o que tem. E o que você tem sou eu, Amanda.
Victor: Se o Coringa te pegasse 'dando rolê', a conversa ia ser diferente. Fica quieta. Volta pro teu livro. Quando eu sair, a gente resolve essa tua rebeldia.
Que porcaria de atitude era essa agora? Quem ele estava pensando que era? Que inferno. Jogo meu celular no sofá com força e rosno de raiva, alto.
Mas isso não vai ficar assim.