Quando acordei, eram cerca de meio-dia. Eu estava moída. Acabada. Parecia que um caminhão tinha passado em cima de mim.
Primeiro que tinha feito a visita do Victor, e depois, ainda sai. Como se a vida fosse um morango. Amanhã eu ainda tinha aula logo pela manhã.
Eu me arrastei até a cozinha para tomar uma água, e só então peguei o celular, que estava em modo silencioso desde a noite passada para eu não ser acordada por mensagens de grupo inúteis.
Quase tive um ataque cardíaco quando vi a notificação.
moreiraleo00: Bom dia, Amanda. Ou boa tarde, pelo visto. Rs. Você estava tão linda ontem, que quis arriscar chamar. O que você acha de a gente fugir dos estudos e ir pra praia hoje? O sol está perfeito. Juro que te devolvo inteira pra Enfermagem no final do dia.
Ele escreve certinho, que delícia.
Meu coração deu um salto. Praia. Era o meu lugar favorito do mundo, mas a praia era um lugar onde qualquer conhecido poderia me ver e mandar um salve para a comunidade. Mas era um convite para o sol, para a vida. E eu estava sedenta.
Quero dizer, ele nunca me pediu nada e o nosso acordo era diferente. Eu estava aqui fora e ele... ele disse que eu era "mulher dele." Ainda assim, não concordei com nada dessa loucura.
Foda-se. Eu não ia ficar em casa esperando a vida que ele queria me impor.
Eu cliquei em responder antes que a culpa me atingisse.
Mandy.h: Bom dia, Léo. Tô aceitando a fuga. A facul pode esperar. Qual praia?
Léo respondeu em menos de dez segundos.
moreiraleo00: Perfeito! Ipanema? Te pego em quarenta minutos. Me manda o endereço por DM. Te prometo que você vai conseguir respirar.
Respirar. Era exatamente o que eu precisava.
Corri para o armário, ignorando a pilha de livros de anatomia. O biquíni novo, a canga mais colorida, o cabelo preso de qualquer jeito. Enquanto me olhava no espelho, a sensação era de que eu estava me vestindo para um crime. Eu precisava era de mar, sol e cheiro de protetor solar.
Peguei o celular e vi o contato de Victor na lista de favoritos. Eu precisava de uma desculpa. Eu tinha que sair. E tinha que mentir para justificar minha ausência, caso alguém me visse. Mandei uma mensagem rápida para ele, sabendo que a visita dele só aconteceria dali a uma semana, mas o aviso era para a segurança.
Victor: Como você está? Tudo bem? Sumiu :)
Eu: Estou indo para o hospital do campus fazer uns estágios extras. Preciso dessas horas para fechar o crédito. Vou ficar sem celular por causa do plantão.
Respirei fundo e fechei os olhos, jogando o celular na minha bolsa. Porque eu estava mentindo? Eu nem tinha nada com ele. Que merda, que droga. Que inferno.
Porque, mesmo sabendo que não era errado, eu sentia que era? Apertei enviar e senti o alívio frio de uma mentira bem plantada.
Sai pela porta da frente, enviando uma rápida mensagem para léo de que era melhor encontrar ele lá, afinal, o morro não era um espaço muito legal para ele por ser de fora. Ele topou.
Vai ser um bom dia.
***
Eu o encontrei perto do Posto 9 em Ipanema. Léo estava sentado sozinho na areia, já sem camisa, com a pele clara começando a pegar um sol de leve. Ele acenou, aquele sorriso fácil, e me levantei rápido.
— Você veio mesmo! Pensei que era só um sonho de ressaca. — Ele brincou, me dando um abraço rápido. Era um abraço de amigo, mas que me fez sentir um calor diferente.
— Cale a boca, engenheiro. Eu sou uma enfermeira responsável. Só estou tirando umas horas para o meu bem-estar mental. — Retruquei, rindo, enquanto estendia minha canga.
Estar com Léo era como dar um reset na minha vida. Não falávamos de problemas, de dinheiro, ou de ameaças. Falávamos da água gelada do mar, de como era absurdo que o Rio de Janeiro fosse tão lindo e caótico, e sobre o porquê dele ter escolhido Engenharia em vez de Música. Ele pegou o violão velho na mochila e começou a tocar, uma canção simples, que falava sobre a liberdade de ir e vir.
Eu fechei os olhos, sentindo o sol no rosto e a areia quente nos pés. A letra falava sobre seguir o próprio rumo, e eu senti um nó na garganta. Era a primeira vez que eu chorava em público sem ser de desespero, só de alívio.
Era muito difícil para mim pensar que, enquanto Léo era o meu sonho da cabeça aos pés, definitivamente, o homem que eu sonhei a vida toda, eu não era mulher para ele e nunca seria sua idealização. Sabia que nós estávamos fadados ao fracasso.
Eu já estava quebrada. Usada e presa.
— Está tudo bem? — Léo perguntou, a voz suave, deixando o violão de lado.
Eu enxuguei as lágrimas rapidamente.
— Está, sim. É só... a vida de Enfermagem é pesada. — Ri. — Essa música me lembrou minha mãe.
Léo assentiu, sem pressionar. Ele me estendeu a mão, e eu a segurei.
— Que bom que eu posso ajudar. Saiba que eu adoro a sua companhia, Amanda. Você me faz querer parar de pensar em licenciamento ambiental e só... viver.
Nós terminamos a tarde rindo, pulando as ondas e falando sobre o futuro. Léo era o futuro.
Ao fim da tarde, o sol estava se pondo. Nós caminhávamos pela orla, eu com o cabelo salgado e a pele bronzeada, me sentindo mais eu do que nunca. Ele me parou perto de um coqueiro, me encarou, e eu soube o que estava por vir.
— Amanda, eu não sei o que você tem na sua vida, mas sinto que você carrega um peso enorme. Eu não vou perguntar. Mas eu... eu estou muito a fim de você. E sinto que você está de mim também. — Ele não deu espaço para eu mentir.
Eu engulo em seco, umedecendo meus lábios. Encarei-o profundamente e suspirei, dando-lhe um mínimo sorriso.
— Eu... eu posso te beijar? — Ele perguntou, piscando para mim.
Eu sorri de volta, frágil.
— Não precisa perguntar.
Ele se inclinou. O beijo dele não foi selvagem; foi doce, hesitante e cheio de ternura. Foi um beijo de descoberta, de recomeço. Eu correspondi, fechando os olhos e me permitindo sentir a segurança, o cheiro de maresia e o gosto de sorvete de limão que ele tinha comido antes. Eu me agarrei àquele beijo como se ele fosse a minha única boia de salvação.
Eu me afastei, com o coração acelerado. E foi a certeza daquele sorriso, o cheiro sutil dele na minha pele, e o beijo na minha boca que me fizeram saber: eu havia cruzado a linha da traição. E não havia como voltar atrás.
Léo me deixou perto de casa com um abraço e a promessa de uma "próxima fuga". Eu entrei em casa e corri para o banheiro. O cheiro de Léo. O cheiro de liberdade. O cheiro de culpa.
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