O espaço já estava cheio quando chegamos. Bia segurou em meu braço para que não nos perdessemos enquanto andávamos em direção ao nosso grupo.
— Eles não vão acreditar que você veio. — Ela murmura.
— Você não avisou? — Ergo as sobrancelhas.
— Eu não olhei o grupo hoje. — Confessei.
— Perceptível. — Ri. — Mas tá uma merda pra todo mundo mesmo, amiga. Normal.
Nos aproximamos da mesa e a primeira a nos encarar foi a Paulinha Ela sorriu abertamente e cutucou Elisa com o cotovelo.
— SUA CACHORRAAA. — Ela pulou em mim. — Porque não contou que estava vindo?
Ela fez biquinho. Eu ri.
— Foi de última hora, Duda. Eu estava precisando desesperadamente de gente normal. — Brinquei.
Cumprimentei a Lisa e os outros, sentindo o alívio de estar em um lugar onde as preocupações eram notas e cachaça de baixa qualidade. A normalidade da vida universitária, algo que eu deveria saber e experimentar com mais frequência, mas que eu estava me deixando perder.
Eu estava tentando acompanhar a conversa sobre a prova de Administrativo de alguns dos nossos colegas de Direito, quando Bia chamou a atenção de um rapaz sentado ao meu lado.
— Gente, antes que vocês voltem para o drama de Administrativo, te apresento o Léo. Ele que é o babado da transferência. Léo, essa é a Amanda, ela é da Enfermagem, mas é nossa amiga de rolê, porque todo mundo precisa de alguém pra cuidar dos feridos dessa faculdade.
Léo se virou e me deu um sorriso fácil. Ele tinha o cabelo cacheado e bagunçado, óculos de grau, e exalava uma tranquilidade que me pegou de surpresa. Ele era o oposto do Victor.
Se segurança tivesse uma aparência, seria essa. A dele.
— Oi, prazer. Sou o Léo. Bem-vindo de volta ao mundo real. — Ele estendeu a mão, o toque leve, e a forma como ele sorriu me fez esquecer onde eu estava por um segundo. — Ouvi muito de você essa semana.
— Ouviu, é? — Ergui as sobrancelhas, rindo. — É um prazer conhecer você também. Eu sou a Amanda. Prazer.
— Sua área é Enfermagem, certo? Eu sou da Engenharia, mas estou pegando umas eletivas de Direito para entender melhor o licenciamento ambiental. — Explica, e eu me sento no banquinho ao seu lado. Todos os outros parecem começar a ficar focados em seus próprios mundinhos. — E você? Como está lidando com a faculdade de enfermagem?
Eu rio.
— Ah, é uma porcaria, mas eu amo. — Murmuro. — Principalmente o PCE.
Léo se inclinou, interessado. E ali ficamos, falando sobre Processo de Cuidado de Enfermagem, sobre como ele queria inovar em projetos sustentáveis, e sobre a ridícula burocracia dos órgãos ambientais. Em nenhum momento ele perguntou sobre meu passado, sobre meu dinheiro, ou me olhou com desejo possessivo. Eu era só Amanda, a garota da Enfermagem que amava o PCE. Eu me senti livre.
A conversa era tão boa e fácil e ele parecia entender tudo que eu sentia, ou apenas fingia muito bem. Impossível saber. As horas passaram rápidas, como um borrão e acho que nunca me aprofundei tanto em uma conversa como aconteceu com Léo.
Ele também me contou sobre a casa dele em Minas. Sobre a família dele. Sobre como era a vida lá e como ele amava, mas como precisava se desprender do interior - que é de onde vinha - e conhecer novos lugares e que foi por acaso que acabou escolhendo o Rio.
Quando me dei conta, eram quase três da manhã. Bocejei e voltei meus olhos para ele. Parecíamos os únicos sóbrios da mesa e alguns de nós já tinham ido embora. Os que sobraram, tinham arrumado alguém e estava prontos para extender a noite de outro modo.
— Nossa, a hora voou. — Comentei.
— É.
Ele sorriu, e eu senti minhas bochechas ficarem quentes. O silêncio que se seguiu não era pesado, ele só manteve os olhos em mim por tempo demais, me estudando.
— Eu não devia falar isso, mas... — Léo começou, passando a mão na nuca, um gesto nervoso. — Eu adorei a nossa conversa, Amanda. De verdade. Você é ainda mais legal e mais bonita do que falaram, se você... quiser... A gente pode sair para alguma coisa?
Eu parei uns segundos, encarando-o. Parecia tão errado, mas eu sorri... e caramba, parecia que ainda que fosse libertador, era algo... novo e meu. Eu não tinha nada assumido com Victor, não é? Então...
— Porque você não me passa seu i********:? E a gente vê no que dá? — Pergunto.
Ele ri e acena.
Léo pega o celular dele e eu digito meu user. Ele me segue e eu sigo de volta na mesma hora.
— Bem, eu acho que já vou, então. — Murmurei, quando meu uber enviou mensagem uma mensagem avisando que chegou.
— Eu te levo lá fora.
O ar da madrugada era frio, mas eu estava aquecida por dentro. Léo me acompanhou até a calçada onde um Uber Moto parou bruscamente.
— Te vejo por aí, Amanda. Me chama. — Ele disse, com os olhos fixos nos meus.
Eu assenti, incapaz de falar. Coloquei o capacete e senti o cheiro de gasolina e a pressa da noite, que era infinitamente melhor do que o cheiro de desinfetante e o peso da posse. Dei tchau com a mão e o motoqueiro acelerou, me levando de volta para a minha vida de fachada, com a proposta de Léo e meu coração acelerado em segredo.
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