Victor comia a comida que a mãe tinha feito na noite anterior como se fosse um banquete. Eu estava sentada na cama, ainda vestida com a sua camisa branca impecavelmente limpa, e pisquei, enquanto observava-o em silêncio. O cheiro de sabão em pó da camisa era o único frescor naquele ambiente abafado e com cheiro de desinfetante.
Estar embaixo dele era bom. Estar com Victor enquanto fazíamos um sexo maravilhoso me fazia esquecer de tudo, mas, por algum motivo, quando acabava, a confusão dentro de mim começava a se formar. No começo, eu não estava confusa sobre isso... eu não ligava muito, até que meu rosto ganhou evidência na comunidade, até que aquela p***a daquele perfil de fofocas decidiu me mostrar como as pessoas me enxergavam.
Não era a amante de traficante que me definia. Eu era uma universitária. Eu me ajoelhava na frente de Victor e me sentava nas salas de aula com a mesma naturalidade, e essa discrepância estava me dilacerando.
Victor largou o pote e se virou, com aquele sorriso de canto que sempre me desarmava, mas que hoje me pareceu um pouco forçado.
— Cê tá meio desligada hoje... — Ele comentou, me arrancando do meu torpor. — . Deixa de lado essa preocupação com a faculdade, você não disse que estava tudo melhorando por lá?
Eu pisquei, dando um sorriso fraco.
— Não é nada demais, só tô... preocupada com as notas. — Respondo, dando um sorriso amarelo.
Ele beijou minha testa, um gesto que deveria ser reconfortante.
— Eu vi o que aconteceu no twitter. — Ele comenta. — Já mandei alguém procurar quem está por trás dessas páginas. Tu não é a única difamada.
Eu reviro meus olhos, recostando-me na parede.
— Não precisa de todo esforço. Eu não sou a única, mas também não vou ser a última. Sempre tem uma mais corajosa que a outra. — Dou de ombros. — E no final, de que vai adiantar? A opinião aqui — aponto para a cabeça, batendo com o indicador. — das pessoas nunca vai mudar.
— Mas você é a minha mulher, se os outros não fazem nada, eu faço. — Deu de ombros.
— Victor, não vale a pena. — Suspiro, fechando meus olhos. — Não vale a pena criar uma briga sobre isso lá fora. Não vale a pena marcar ainda mais a minha cara. Você está preso e por mais que tenha gente por você lá fora, eu tô' sempre no asfalto e eu não quero ficar marcada por causa de pouca coisa. Deixa elas falarem, já to me acostumando.
Ele suspira pesadamente. A ideia parece horrível para ele, absurda. Victor me puxou para um abraço apertado, mas agora era diferente. Não era um abraço de conforto; era um abraço de posse, uma reafirmação do que ele achava de mim.
— Entendi. Deixa esse problema de asfalto pra lá, então. — Ele afagou meu cabelo e beijou meu ombro. — E quando eu sair, vai ser diferente. Ninguém vai te meter na rua de novo. Você vai ficar em casa, cuidando do que é nosso. A minha mulher não precisa de trabalho, precisa de mim.
Foi o xeque-mate. O preço do apoio financeiro era a minha liberdade. Eu não podia esperar mais. Eu tinha que começar a viver a vida que ele queria roubar, antes que ele saísse e fosse tarde demais.
***
Cheguei em casa e o cheiro de Victor estava entranhado em mim, era gostoso e reconfortante, até eu me lembrar das palavras dele e elas funcionarem como um balde de água fria sendo jogado na minha cara. Tirei tudo e tomei um banho demorado, tentando lavar o medo e a sensação de propriedade.
Eu encarei o celular por dez minutos, o nome de Bia piscando. A Bia que não sabia do Victor, a Bia que achava que eu estava me matando de estudar por causa do TCC. A Bia era a minha âncora para o mundo que eu estava perdendo.
Também tinha uma mensagem da irmã de Victor, uma de Eduarda, que eu quase não estava vendo, já que pouco saia de casa e algumas muitas do grupo da minha faculdade.
Finalmente, respirei fundo e liguei para Bia, ignorando todas as outras.
— Alô, nossa Mandi, achei que você tinha entrado dentro do TCC. — Ela riu do outro lado, animada. — Ou se tinha enlouquecido.
— Estou sã, por hora, esgotada. — Eu murmuro. — E você? Como está?
— Bem, o que vai fazer hoje? É sábado, é dia de ignorar a faculdade, lembra? — Fala.
— Nada, mas queria sair, beber alguma coisa, curtir... ver gente. — Murmuro.
— FINALMENTE! OBRIGADA, MUNDO! — Ela grita do outro lado. — Hoje à noite, o pessoal da turma de Direito está fazendo um happy hour em um bar, perto do campus. Só para botar o papo em dia. Parece que a gente tem um colega novo, supergato, que transferiu de Minas. Cola lá!
Eu sorri.
— Que ideia tentadora. Eu vou, me espera na entrada, por favor. — Murmurei.
O colega novo não me importava agora. Eu não gostava de problema e não queria um homem novo no meu pé. Só queria minhas amigas, cerveja e uma boa dose de adrenalina. Era isso... era tudo!
Desliguei e joguei o celular, levantando-me da cama. Vesti um conjunto preto: uma blusa de um ombro só, justa e com um corte assimétrico que deixava parte da barriga à mostra, e uma saia curta, também preta, com um cinto de argolas metálicas. Completei com argolas grandes nas orelhas, pulseiras prateadas e alguns anéis.
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