Episode: Além do Horizonte
- Não, Louis! Você é maluco? Zayn nunca concordará com isso!
- Harry, ele já concordou! Eu sei que sou meio impulsivo e inconsequente às vezes, mas eu jamais sequestraria um paciente e levaria ele embora do manicômio, não é?
Harry bufou audivelmente e se levantou da cama. Louis permaneceu sentado, embora.
As mãos grandes e ásperas de Styles suavam frio ao que ele as esfregava uma na outra.
- Isso não é nem permitido por lei! Só parentes ou alguém formado com diploma em mãos pode tirar algum interno do manicômio por um dia! E olhe lá!
- Harry, qual é? Eu conversei com Zayn. E-eu sei que ninguém veio te visitar durante todos esses anos. - Louis disse hesitante e tentando ser cauteloso, entretanto presenciando a cena do garoto maior paralisando o caminhar e encarando o chão. - E eu pedi então pra ser essa pessoa. Não é porque eles não quiseram vir e te levar pra respirar longe daqui por um curto período, que eu não possa fazer. Se até o rabugento do Malik compreendeu, então não há com o que se preocupar.
- E-eu sei, mas é que.. É que isso é estranho, não? Parece que você estará levando um animal de estimação pra passear. Ou então adotando um cão abandonado por um dia, e logo depois tendo que devolvê-lo porque ele não se adaptou no novo lar.
- Deixe de ser bobo. - Louis riu. - Você está mais para gatinho.
Os olhos verdes de mato arregalaram-se e Harry mordiscou o interior da bochecha.
- Louis, é sério!
- Okay, talvez um gatinho raivoso.
- Louis! Não dá pra nós fazermos isso! Entendeu?
- Oh, e por que não?
- Por-Porque.. Porque..
Louis sacou o que estava acontecendo.
Ele pôde averiguar melhor a situação ao perceber que Harry estava abraçando o próprio corpo com os braços.
Tomlinson já entendera que o maior fazia isso ao se sentir pequeno e indefeso.
Portanto, o de olhos azuis se aproximou de Harry até estar exatamente em sua frente.
- O que foi, Haz?
De primeira Harry ficou hesitante e desviou o contato visual, mas conhecendo seu amigo ele sabia que Louis não o deixaria em paz sem que ele admitisse a verdade.
- Eu estou com medo. - Harry respondeu baixinho, como se ele estivesse sussurrando um segredo mega importante.
- De quê?
- Eu não sei. - o maior suspirou e andou até sua cama, jogando-se nela sem cuidado. - É só assustador imaginar o mundo afora novamente. Eu passei muito tempo aqui, entende? Essa é a minha realidade, é uma zona de conforto já. A ideia de encarar algo que esteja além da porta de ferro principal desse hospital faz com que eu me sinta... Assustado.
Louis ao escutar tudo isso soube exatamente o que haveria de fazer.
Ele sorriu minimamente e se sentou na cama de Styles, ao lado do corpo largado sobre o colchão.
Os olhos dos dois se encontraram em uma intensidade inusitada.
- Sabe de uma coisa, Haz? Eu sei como você se sente. No primeiro dia que eu vim trabalhar aqui eu tive essa mesma sensação.
- Não, Lou. Você estudou para isso. Estava preparado.
- Harry, era diferente. Era diferente a ideia de estudar a teoria e vivenciar na prática. Então sim, quando eu entrei aqui estava quase me cagando nas calças.
Styles torceu a ponta do nariz pelo termo indelicado, mas depois sorriu divertido.
- E, bem, convenhamos que observar como as coisas funcionavam aqui, no interior, as pessoas, os métodos, as toneladas de remédios... Isso não era lá algum tipo de calmante pro meu nervosismo. Mas sabe o que mudou toda essa realidade?
- Não...
- Você. Você, Haz. - Louis sorriu. - Conhecer você tornou tudo mais simples, de certo modo. E foi assim que eu aprendi a lidar com a realidade de vocês, porque você me apresentou a ela de uma maneira que fez com que eu passasse a aprecia-la.
As palavras de Louis mantiveram uma ligação direta com o coração de Harry, que se aqueceu imediatamente. m*l cabia no peito.
Um sorriso cheio de covinhas e graciosidade ameaçou rasgar o rosto do maior.
- Bem. Vês agora? - Louis questionou-o. - Eu entendo que a ideia do novo o assusta, anjo. Mas eu quero que você confie em mim. Confie em mim e me deixe retribuir o seu favor. Deixe com que eu te apresente a minha realidade fora daqui e torne-a adaptável para você. Sim?
Droga.
Harry não respondeu.
Não tinham palavras suficientes em sua língua.
Entretanto, após muito ponderar, sua cabeça se moveu para cima e para baixo, vagarosamente. Foi um breve aceno.
- Prometo que não terá o que temer. Não irá se assustar, eu estarei ao seu lado de qualquer maneira.
- Ok. Acha que gostarei da sua realidade? - Harry perguntou com os olhos ganhando mais vida. Ele estava começando a se animar com a ideia.
- Acho que gostará tanto que irá parar de chama-la de minha realidade, e irá querer que ela se torne sua também.- Louis respondeu-o sincero.
- É isso que machuca, Lou. - Harry confessou enquanto se sentava corretamente na cama, cruzando as pernas em estilo índio e usando as pontas dos dedos para brincar com os lençóis. - Eu tenho certeza que gostarei de sair daqui. Mas isso só fará com que seja mil vezes mais doloroso pra voltar depois e lembrar que toda essa adrenalina foi um caso de um dia. E que acabou.
- Até compreendo, Haz. Só que não é melhor viver e ter memórias boas pra se guardar e sentir falta, do que não ter? Não é bom aproveitar as oportunidades enquanto elas existem?
Harry se calou.
Ele notou que o outro estava certo.
Então num ímpeto de ousadia por fim indagou:
- Você promete que vai cuidar de mim? Não vai deixar que o mundo me quebre de novo, não é?
- Eu nunca deixaria. Nem o mundo, nem ninguém.
...
Louis pode firmemente dizer que já viu e pegou vários rapazes bonitos na adolescência.
Ele também teve casos com garotas que possuíam olhos incrivelmente claros, incrivelmente escuros, incrivelmente todas as cores.
Aqueles de cabelos longos, curtos, de topete, as ruivas, morenas, todos e todas.
Corpos que fariam os instrumentos musicais violões sentirem inveja.
Eram s***s grandes, bundas maiores ainda.
Caras altos de músculos rasgando a blusa.
Ele achou que já havia visto e provado muito.
Absolutamente tudo.
Mas essa ideia logo se desmanchou ao que Harry saiu do "banheiro" do quarto com as roupas novas em seu corpo.
Ele caminhou para fora dali tímido, segurando firme a antiga veste azul entre os braços.
Entretanto aquilo não se assemelhava a um paciente. Aquilo estava para um nível além de modelo profissional.
Louis jurou que se Harry não estivesse morando aqui, ele poderia facilmente ser representante da Vogue.
Embora fosse um moletom básico, o tecido acolheu tão bem o corpo de Harry que colocaria essas meninas com seus moletons da Adidas "tumblrs" no chinelo.
Não bastando isso ainda havia a calça.
Deus.
Aquela calça skinny preta muito apertada modelava o corpo de Styles de uma maneira que Louis achou até ofensiva para o resto da humanidade.
Harry roubara toda a beleza para si e nem fazia ideia.
E, oh, aqueles cabelos cacheados ainda estavam presos com a bandana verde.
Porque sim, desde que Louis o dera essa bandana, Harry viu nela seu ponto de apoio.
Os passos do maior eram envergonhados e curtos. Ele se sentia exposto e sabia que Louis o olhava daquele jeito... Admirado.
- E-Eu trouxe u-um par de bot-botinhas do Liam. Ele não se importa de te em.. Emp.. Emprestar. - Louis balbuciou ainda perdido na beleza estonteante de Harry.
Droga. Aqueles malditos lábios de Styles estavam tão convidativos. Graças ao frio mais avermelhados que o normal.
- Ok. - Harry só respondeu simples e sem jeito, indo em direção aos calçados semi-novos que Louis apontou.
Por sorte a numeração coube exatamente.
- Vamos? - Harry tossiu e sugeriu.
Louis piscou rapidamente diversas vezes até recobrar sua lucidez. Ou parte dela.
...
Muitos já assistiram Jurassic Park. E desses que assistiram posso afirmar que é quase inesquecível a parte do filme em que os personagens entram no mundo verde dos dinossauros.
Talvez a trilha sonora ajude para tornar essa parte um ponto crucial, mas certamente o que mais chama atenção é como os personagens ficam de queixo caído ao adentrarem em um lugar completamente diferente do que esperavam.
Um lugar com árvores altas, folhas verdes, uma selva espetacular.
E foi com esse sentimento de terror, choque e surpresa que Harry deu o primeiro passo para fora do hospital, ao passar pela porta principal.
Adentrando na selva de pedra, chamada cidade.
A boca de Harry formou um perfeito "O".
Obviamente ele já havia tido uma vida "mais normal", e já morara por anos fora daquela clínica psiquiatra... Mas agora era diferente, porque ele se esquecera qual era a sensação de saber que existe vida longe da sua antiga realidade.
O sol forçou um pouco ao aparecer, espantando aquele frio intenso de semanas e a chuva torrencial, e cedendo uma temperatura mais amena, como se estivesse fazendo-o apenas para receber Harry de forma mais acolhedora.
A brisa envolveu os corpos e o maior somente fechou os olhos, estático, permitindo-se sentir.
Respirar.
Respire, Harry. Você pode respirar agora.
- Ahm... Haz? - Louis chamou-o alheio àquilo.
Harry afastou suas pálpebras sem pressa olhando o estacionamento a sua volta, o céu nublado com incidência solar, o vento fraco balançando árvores distantes... E por fim Louis.
Louis.
O melhor de toda a paisagem.
Ele sorriu genuinamente para o garoto ao seu lado.
Um sorriso branco e verdadeiro que fez Louis arquear a sobrancelha em confusão mas logo depois se permitir navegar naquele sorriso contagiante e piscar para o maior, que corou envergonhado.
- Venha Haz, Liam me emprestou o carro dele por hoje.
Louis informou, já retirando a chave do bolso e começando a andar em direção ao automóvel.
No entanto, Harry não se moveu.
- Que foi? - Louis perguntou ao perceber a imobilidade do outro.
- E se eu tiver um ataque de pânico hoje, Lou? E se eu me exaltar ou algo assim?
Harry estava se encolhendo cada vez mais e dando passos para trás, recuando de sua decisão diante as mil e uma possibilidades de tudo dar errado e isso ser um completo desastre.
Louis chegou perto do maior e puxou-o para um abraço.
Rodeou seus braços pelo tronco de Harry e sentiu-o escondendo o rosto em seu pescoço.
- Se você sentir qualquer coisa eu estarei bem aqui, ok? Nós podemos andar de mãos dadas e qualquer sensação que você tiver basta apertar minha mão, e eu farei o possível para que você melhore. Não precisa ser inseguro, Harry.
- Ok. Vamos. - Harry disse decidido e contra a sua própria vontade se afastou do aperto de Louis.
Tomlinson sorriu e estendeu a mão para Harry, numa espécie de convite.
Harry o sorriu de volta e encaixou sua mão na dele. Com a companhia do moreno de olhos azuis ele poderia se aventurar em qualquer nova experiência.