Chapter XXIV

2365 Palavras
Episode: Bday?  O quarto estava estranhamente silencioso. Os gotejos da chuva eram os únicos sinais de que existia vida lá fora daquela alta janela. Harry não reclamaria, embora. Ele sempre apreciou o silêncio.  Pra ser sincero, o encaracolado gostava de ficar sozinho, mas não de se sentir sozinho. Essa sensação era r**m, estranha. Aos doze anos, quando não possuía amigos, Harry costumava criar companheiros imaginários. Ele se lembra que seu primeiro amigo imaginário se chamava Will. E ele "podia voar". Harry o criara como uma personificação daquilo que queria ser: livre. Entretanto graças sua esquizofrenia crônica o rapaz sempre vivia acompanhado de enfermeiras particulares e babás. Até os doze anos na verdade Styles nunca se comportou "diferente". Ele agia como todos. Nunca teve crises. Tudo começou aos quinze.. Quando coisas aconteceram... E ele acabou se perdendo de si próprio. Consequentemente as coisas pioraram; seus sintomas de ansiedade e epilepsia surgiram para agravar o caso. E seu pesadelo começou. Tais memórias dos acontecimentos que o trouxeram até aqui faziam seu coração acelerar e seu corpo suar frio, mas era inevitável não pensar nisso às vezes. Com o tempo o pequeno amadureceu de seu jeito. Com uma pré-adolescência e adolescência conturbadas e cheias de episódios traumáticos, Harry passou a conhecer outro sentimento além da solidão, a dor. E a dor passou a acompanha-lo diariamente, para tudo que fazia. Sua fiel (e indesejada) companheira. Ser internado nesse hospital foi de início um baque à sua sanidade. Era muito doloroso imaginar que ele nunca teria sua vida "normal" de volta. Jamais olharia os pôster das bandas que gostava presas na parede de seu quarto antes de dormir. Porque, bem, as paredes de sua "nova casa" eram brancas... E vazias. Foi convivendo com a dor contínua que Styles começou a valorizar a solidão e o vazio. Ele aprendeu que quando estava vazio de sentimentos e pensamentos, a dor não o incomodava tanto, porque ele não pensaria em como sua vida era uma bosta e se remoeria pelo fato, ele simplesmente daria de ombros e fingiria que tudo estava bem e que nada o abalaria mais. Ele gostava dessa ideia de "falso conforto", do "inabalável"... Mas, principalmente, gostava de se sentir forte. Pelo menos uma vez na vida. Mesmo que esse "forte" fosse puro fingimento. E encarar as paredes brancas todos os dias da semana, mês, e ano... Faziam com que sua mente captasse o vazio das paredes e compartilhasse o mesmo vazio de sua alma com elas. Ele poderia se perder e ir para um universo paralelo rapidamente apenas de fixar as pupilas em um ponto horizontal. A solidão, de repente, acabou se tornando rotina. Ele se acostumou com a "presença da ausência" da mesma forma que depois de aprender o abecedário você jamais esquece. Se transforma em uma parte sua. Tudo ia bem até um ser baixinho de tronco robusto, cabelos lisos castanhos e olhos incrivelmente azuis aparecer. Louis Tomlinson fez Harry regredir com seu auto-controle. Louis foi mostrando-o que estava tudo bem em demonstrar o que sente. Embora isso entregasse o poder das pessoas de o machucarem, Harry confiava em Louis. Ou melhor, não teve outra alternativa. O de olhos azuis simplesmente chegou invadindo seu mundo e quebrando as muralhas de proteção ao redor do Harry.  De início Styles estava preocupado (ainda está) por se sentir exposto ao mundo novamente... Mas Louis fazia questão de demonstra-lo que ele seria sua proteção quando o maior precisasse. E, infelizmente, Louis desacostumou Harry com sua ideia de solidão. A companhia do menor era a maior felicidade da existência do encaracolado... E toda vez que assistia seu assistente/amigo indo embora aos finais da tarde, o coração frio daquele jovem falhava uma batida. Essa batida permaneceria falhada até que por volta das nove da manhã a porta de seu quarto fosse aberta revelando Louis com uma bandeja de café da manhã. E então um sorriso ameaçaria rasgar em seu rosto enquanto ele tentasse com muitos esforços repreender tamanha emoção. Por mais que estivesse mudando, ainda era complicado para ele expressar-se livremente (sem contar que não queria que Louis soubesse como ele aquecia o corpo do maior apenas com aquele olhar entusiasmado e o brilho de sua alma). Mas, em momentos como esse, de começo de dias chuvosos e frios, sem som ou cor.. Harry meio que desejava voltar ao seu eu antigo, porque assim provavelmente não estaria com essa sensação de vazio ao seu redor. Não estaria com saudades de Tomlinson e muito menos desejando-o ali presente contando algo b***a ou rindo por baboseiras. As horas daquela manhã específica estavam demorando demais para passar e o frio apenas arrepiava mais ainda seus pelos. Harry se enrolou no cobertor e abraçou a si mesmo em busca de algum calor, contudo foi em vão. Ele começou a notar que não era deste tipo de calor que precisava. - LOUIS ESPERA! Subitamente Styles escutou Zayn gritando ao fundo. Alguns cochichos ressoaram do corredor até que a porta foi "arrombada" por Louis e uma tropa de gente atrás dele. Tudo foi um susto imenso ao garoto que se encolheu no canto sem entender p***a nenhuma. Bem, até ele ver o "bolo de aniversário" que todo ano o traziam no dia 29 de maio. Sua mente captou o sinal.  Completara-se mais um ano em que ele estava preso na clínica. Uma série de aplausos altos interveio nos pensamentos de Styles. Ele estava demasiadamente constrangido para sequer desviar o olhar do chão. Suas bochechas provavelmente adquiriram um tom escarlate ao que seu corpo se afundava mais e mais no colchão e contra a parede.  Ele se sentou e puxou as pernas contra o peito. Estava assustado com toda a baderna. Louis percebendo o incômodo do menor fez sinal para que os ali presente parassem. Com finalmente um pouco menos de barulho Harry levantou a cabeça e passou a encarar a cena. Zayn estava ao lado de Louis, e Liam do outro lado. Fora eles também haviam alguns dos profissionais e enfermeiros que trabalhavam com o cacheado. Todos seguravam balões de gás hélio azuis claros. Todos vestiam sorrisos e olhares iluminados.  Parecia uma realidade tão distante da sua.. A felicidade. Harry estava muito reflexivo e melancólico nesse dia. Droga. - Cof cof! - Zayn forçou uma tosse para calar a boca dos convidados e ganhar a atenção deles. - Como todo ano faço um breve discurso, esse não será diferente! - Malik anunciou com uma voz confiante, lançando um sorriso de compaixão ao menino encolhido no seu canto. - Quando eu entrei nesse hospital não fazia a menor ideia do que esperar. Eu era inexperiente e tinha receio de estragar as oportunidades. Foi assim que conheci Harry que tive a certeza de ter escolhido a profissão certa para minha vida. Nós nos damos bem desde o início e eu pretendo que sempre seja assim, porque gosto muito de você, Harry. Te-lo mais um ano conosco é uma honra, e eu digo isso em nome de todos. Zayn concluiu seu discurso com uma breve reverência a Styles, recebendo reconhecimentos em forma de aplausos pelas belas palavras. Harry forçou um sorriso sem jeito como agradecimento. - Nha, nha, nha. Gostei do que disse, Muhamed. Mas agora é minha vez!  Louis interrompeu a série de aplausos, dando um passo a frente em direção a Harry, todo animado.  - Pra ser sincero, eu sou péssimo com palavras. Sou péssimo em muitas coisas, e discursar é uma das principais. Mas eu percebi que por algumas pessoas vale a pena passar vergonha, algumas pessoas valem todos os tipos de riscos e esforços. Mesmo que eu seja preso por contrabandear chocolate num manicômio! - Tomlinson falou irônico, arrancando risadas alheias, inclusive daquele que mais importava, de Harry, que riu envergonhado.  - O ponto é: eu não penso que a melhor parte de tudo tenha sido entrar nesse hospital. - continuou, dessa vez criando uma conexão direta com os olhos verdes intensos. - E sim penso que a melhor parte de tudo tenha sido entrar na vida de Harry.  Suspiros. - A maioria de vocês lida com Harry Styles, o paciente. Eu tenho o orgulho de me gabar ao anunciar que eu lido apenas com Harry, o humano. E vocês não o conhecem como eu, não que eu esteja aqui para me glorificar, mas pra ser sincero, essa é a maior honra que alguém poderia ter. Ele está fazendo seis anos de internação nesse hospital, e honestamente, me chateio muito com o fato de que alguns enfermeiros aqui não o tratam como ele merece, com o cuidado que ele precisa ao por exemplo aplicarem os remédios em suas veias finas. Enfim. Eu acho que todos nós sofremos com contratempos dos destino. E eu não me arrependo deles porque foram eles que justamente me trouxeram aqui. E eu não iria preferir estar em nenhum outro lugar senão com você, Haz. - Louis disse sincero, encarando o belo garoto com um sorriso alucinador. - Harry é uma pessoa especial. Mais esperta e fiel que muitos nunca chegarão a ser. Eu sou grato por conhecê-lo. Muito. Nesse instante Louis também ouviu aplausos ao fundo. Mas  soavam distantes demais talvez porque ele estava em uma espécie de mundo paralelo com Harry. Os dois se olhavam diretamente trocando cumplicidade, solidariedade e carinho. Um sorriso iluminado e apaixonado tomou conta do rosto do cacheado sem ele que percebesse, sem seu consentimento. A esse ponto os dois haviam esquecido que outras pessoas também estavam naquele cômodo. Naquele momento nada era mais importante do que as palavras do menor causaram ao maior. Ele se sentia bem como nunca antes. Nunca mesmo. Era um sentimento estranho e incomum para ele... A felicidade.  Estar vivo jamais foi tão bom quanto agora para o maior. Suas covinhas fundas entregavam isso. Já fora da bolha Liam e Zayn se entreolharam numa expressão cúmplice, de quem sabia mais do que os outros. Outros aliás que apenas apreciavam a cena adorável com suspiros. Estavam felizes que Harry estivesse progredindo, embora fossem alheias ao tipo de "progresso" que na realidade acontecia. Malik pingaterreou alto despertando Louis de seu transe e capturando sua atenção. - Bem, nós cortaremos o bolo lá na cozinha comunitária e traremos os pedaços de vocês mais tarde, sim? Dê o café da manhã de Harry porque ele não pode sair da dieta. - Zayn ordenou enquanto Louis revirava os olhos internamente. - Vamos, pessoal. De volta ao trabalho. E até mais, Liam. - o moreno acenou para Payne, que sorriu de volta. - Feliz mais um ano, Harry!- Liam cumprimentou-o animado. - Bem, vou indo gente, Amélia me aguarda.  E com isso ele deixou o quarto. Todos deixaram. Restou apenas Harry, Louis e uma bandeja de café. Não tardou para que Louis revirasse uma mochila que trouxera discretamente e tirasse de lá uma série de comidas diferentes da refeição meia boca que o hospital oferecia. Em sua mala havia muffins de chocolate, pequenas garrafas de refrigerante sabor cereja, balas, e várias bolachas. Louis gastou praticamente todo o dinheiro de jantar da semana. Era uma ocasião especial, oras. O sorriso de Styles aumentou ainda mais se isso era possível ao ver todos os alimentos novos posicionados agora em seu colchão. - Mesmo que não seja seu aniversário de fato eu trouxe três presentes!- Tomlinson anunciou animado. - O quê?! - Harry questionou com o rosto se esquentando, não costumava ganhar presentes. - O primeiro está aqui! Louis voltou na mochila e desta pegou um grande embrulho dourado. Harry pegou-o cuidadosamente e ao desfazer o laço retirou de lá três livros novinhos. - O maior é de Dan Brown, um dos meus escritores favoritos, mas também tem dois românticos: "Orgulho e Preconceito" e "Quem é você, Alasca?". Eu sei que livros do John Green são conhecidos por serem indicados a adolescentes, mas eu não vejo problema algum em gostar deles, particularmente as personalidades dos personagens me intriga muito. Uma vez você me falou que acha que livros são personificações de pessoas, e honestamente a Alasca me lembra muito você, esse livro me lembra você, porque é cheio de suspense e mistério. E eu gosto dele. Harry encarava todos os livros em seus braços com uma expressão de paixão. Não era novidade que ele amava ler, mas ter seus próprios livros para deixar junto dele naquele quarto era... Indescritível. Porque agora nunca estaria sozinho. Ele poderia ter a companhia dos livros quando quisesse. - Louis, eu... Eu...  Harry começou a balbuciar, contudo as palavras fugiam de sua boca graças a surpresa e o choque que ele ainda se encontrava pelos presentes maravilhosos. - Eu nem sei o que dizer. - finalmente falou. - M-muito obrigado. Eu nunca ganhei presentes de aniversário, acho. Apesar de não ser meu aniversário, é com certeza um dos melhores dias da minha vida. Louis sorriu comovido. Era lindo assistir Harry tocando a capa dos livros com tamanho cuidado e ternura. - Bom, o seu segundo presente está aqui também. Tomlinson pegou um pacote da mochila. Vale lembrar que era uma mochila enorme pra caber tanta coisa. Harry estranhou a embalagem. Porque tocando-a por fora, parecia que o que quer que estivesse lá dentro era mole. - Isso são...? - Roupas! Harry retirou do pacote uma calça jeans preta skinny, uma blusa branca de mangas curtas e um casaco moletom verde. As pupilas de Styles se dilataram. Mesmo que ele não pudesse de fato vestir algo que não fosse a veste azul bebê do hospital, ter roupas em seu quarto dava-o uma sensação de conchego, de ter posse de coisas que pessoas normais têm, como por exemplo roupas. - Eu amei, Lou. Sinto apenas por não poder usa-las. São lindas. Louis sorriu mais ainda e se aproximou num ímpeto do garoto, segurando em seus ombros e mantendo contato visual. - Pois bem, é aí que entra a utilidade desse presente! Ele servirá para o terceiro! Harry arqueou uma das sobrancelhas. - Como assim? - Bem, eu andei pensando, você está comemorando seis anos de estadia nesse hospital. Então nada mais justo que...- fez suspense. - Louis, o qu- - Haz, este meu terceiro presente será liberdade por um dia. Você passará o dia de hoje comigo longe daqui.
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