CAPÍTULO 5 - PRESENÇA PARTE 1

1258 Palavras
(Daniel Velasques) Eu estava faminto quando os nossos pratos chegaram, Raquel pediu o mesmo que eu e não soube se era por educação ou se ela realmente tinha o mesmo gosto. Depois de ter visto a arma no porta-luvas Raquel tinha ficado mais calada do que o normal. Eu já tinha dito que era um delegado, ela devia deduzir que eu teria armas. Desde que ela ficasse longe delas não teria nenhum problema. Fiz um lembrete mental a mim mesmo para recolher minhas armas ou pelo menos colocá-las em locais menos óbvios, eu não estava mais sozinho e não sabia nada de Raquel ainda. Ter uma arma em casa significava que ela poderia ser usada e não apenas por mim. Sem me importar com regras ou etiqueta eu comi o mais rápido que pude, não tinha pressa em ir embora mas tinha fome, uma fome que me fez comer duas vezes e ainda pedir sobremesa. Fazia muito tempo que eu não sentia tanta fome, eu pulava refeições frequentemente e não tinha nenhum compromisso em manter hábitos alimentares saudáveis, a não ser quando chegava perto de ter alguma prova física na corporação. Comer feito um búfalo deve ter assustado Raquel. Ela ainda estava em seu primeiro prato quando terminei de comer e limpei a boca em guardanapo. Mesmo tentando disfarçar seus olhos eram transparentes, eles nunca a deixariam mentir sem ser descoberta. — Tem para você também. – Apontei a taça com uma sobremesa de chocolate que eu tinha pedido a mais. — Obrigada. – Murmurou ela. — Você pode comer, se quiser mais. — Estou satisfeito. – Informei. Raquel piscou, assentindo devagar como se dissesse que não tinha tanta certeza. Esperei com paciência até que Raquel terminasse a refeição e começasse a sobremesa para questioná-la. — Lembrou de alguma coisa depois que a deixei no hospital? – A postura de Raquel mudou no momento em que ouviu minha pergunta. Ela deixou a colher de sobremesa na taça, seus ombros se encolheram tensos e ela negou depois de desviar os olhos. — Escute, Raquel. – Me inclinei para frente, capturando o olhar dela. — Eu interrogo pessoas quase todos os dias, o corpo humano dá uns mil sinais quando contamos uma mentira. Sei exatamente quando estão mentindo para mim, então por que não deixa isso de lado e começa a falar a verdade? É o que mínimo que pode fazer depois que eu a coloquei em minha casa, não acha? Não posso morar com alguém de quem não sei nada sobre. Não me importo em te ajudar, mas preciso que seja sincera. Parece que eu tinha tocado em um ponto sensível, sabia que Raquel se sentia m*l por receber remédios, comida e estadia sem pagar com algum valor em dinheiro, então usei isso para pedir que contasse a verdade. — Você estava fugindo de alguma coisa quando entrou na frente do meu carro, ou de alguém. Do que estava fugindo? – A intimidei com o olhar do mesmo jeito que fazia na delegacia. Raquel não conseguiu sustentar meu olhar, sua respiração mudou de ritmo, ela desviou os olhos e negou com força. Eu tinha conseguido pressioná-la. — Eu não sei! Eu não sei quem era! Eu fui roubada, levaram a minha bolsa e me bateram com uma arma! – Ela atropelou as próprias palavras. — Foi assaltada? — Sim! – Eu assenti, satisfeito por ter tirado parte da verdade dela. Entendi o motivo dela ter demonstrado medo ao se deparar com uma arma no meu porta-luvas. — E onde você morava antes? Por que não tem para onde ir? — Eu não posso voltar lá, a casa foi queimada, foi incendiada e agora não tenho onde ficar. Não estou mentindo. – Eu sabia que não. Mas a história permanecia m*l contada. — Um incêndio proposital? Comunicou a polícia sobre o incêndio? — Sim, foi proposital. Eu não contei nada a ninguém, eu só fugi, fiquei com medo. Quem incendiou minha casa queria me m***r. — Faz sentido. Mas está segura agora, deve ir até a delegacia relatar o incêndio e também o assalto da última noite. — Não! – Raquel pegou minha mão por cima da mesa, os olhos desesperados me fitaram. — Por favor. Eu vou embora da sua casa, deixo tudo que comprou para mim, mas por favor não me leve para a delegacia. Ao perceber que meu olhar tinha saltado direto para nossas mãos em cima da mesa Raquel puxou sua mão de volta. — Por que não ir a delegacia? Tem algum problema com a justiça, Raquel? – Estreitei as sobrancelhas, sabendo que teria que parar de insistir em breve já que ela estava a beira de uma crise emocional. — Nenhum. Eu não fiz nada, eu juro que não fiz nada... – Raquel se levantou, ela tentou ir embora mas eu segurei seu braço com firmeza. — Sente-se, chega de perguntas. Prometo. – Só a soltei depois de seus olhos confirmarem que ela estava convencida de que eu não faria mais perguntas. — Não desperdice a sobremesa. Isso bastou para que ela se sentasse ainda receosa e voltasse a mexer em sua taça, seus olhos nunca se afastavam de mim por muito tempo. Raquel parecia permanentemente desconfiada e aquela mania de ficar olhando a porta de entrada e de saída de todo lugar que íamos ascendia ainda mais minha curiosidade a seu respeito. Mais tarde, depois que voltamos para casa tive a surpresa de não encontrar almofadas ou utensílios destruídos, Holly dormia tranquila quando abri a porta e ao notar nossa presença levantou para nos receber. Ou melhor, para receber Raquel, a traidora passou direto por mim novamente como se eu fosse invisível e foi direto dar boas vindas a ela. Pelo menos não tinha feito bagunça na sala. Parecia satisfeita em ver alguém além de mim na casa. Ter um dia de folga normalmente era um tormento para mim, mas agora eu tinha algo a fazer, mostrei a casa para Raquel e a ensinei a mexer nos utensílios. Ela ainda não parecia à vontade e me pedia até para fazer as mínimas coisas como ligar a TV, ela escolheu se sentar no chão e eu observei da varanda enquanto Holly se deitava em suas pernas a fim de receber carinho nas orelhas. Pensei na frase que Raquel disse enquanto estávamos no carro. “Ninguém gosta de ficar sozinho” foi o que ela disse e bem, eu gostava. Mas agora que eu não estava sozinho podia perceber aquele vazio um pouco menos latente do que costumava estar até ontem. Constantemente eu imaginava o que Lisa pensava das minhas atitudes, e isso tinha a ver diretamente com o esforço que Lisa fazia para ser uma mulher doce e caridosa. Nem sempre eu me sentia aprovado pelos conselhos que ela me deixou, mas esse não era o caso agora. Eu sentia que tinha feito o certo oferecendo o quarto de hóspedes para Raquel, mesmo contra a minha vontade. Sentia que Lisa estaria feliz em ver que eu tinha feito um gesto de gentileza. Na verdade, eu sabia que tinha feito aquilo movido pela curiosidade e pelo meu instinto investigativo, mas a intenção não mudava o fato, e eu me sentia bem mesmo assim. Mesmo não estando presente, Lisa continuava influenciando meus dias de uma forma genuína, de um jeito que só ela era capaz de fazer. Eu dormi mais naquele dia pelos cantos da casa do que tinha conseguido dormir a noite naquele ano inteiro. Meu pai me ligou por volta das cinco da tarde.
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