CAPÍTULO 6 - PRESENÇA PARTE 2

1363 Palavras
— Pronto. – Atendi. — Oi filho, tudo bem? Sua mãe disse que falou com você ontem. Como você está? — Estou bem. – Sacudi a cabeça tentando me livrar dos resquícios do sono. — Tem certeza? Sua voz está lenta. — Eu estava dormindo. — Expliquei. — Então te acordei, desculpe. — Não tem problema, eu dormi demais. — Não foi trabalhar? — Não. – Esfreguei os olhos, me dando conta de que não tinha comentado com eles sobre o acidente. — Eu me envolvi em um acidente com o carro ontem de madrugada, me deram o dia de folga. — Acidente? Disse que estava bem, Daniel. — Eu estou. – A forma como eles tentavam me fiscalizar ainda me incomodava, esse era um dos motivos pelos quais eu tinha decidido me afastar depois que tudo aconteceu. — Ninguém se feriu, foi só um susto. — Por estava dirigindo de madrugada? Pensei rápido. — Eu ia até a festa que Alice tinha me convidado, a mãe disse que duraria até tarde e eu decidi aparecer. – Ouvi o suspiro pesado dele do outro lado da linha. — Tem certeza que está bem? Não se machucou ou danificou o carro? Posso passar aí com sua mãe mais tarde se precisar de alguma coisa. — Não precisa. – Me apressei em negar, não imaginava como reagiriam ao se depararem com uma mulher andando pela minha casa. — Não estou machucado, está tudo certo com o carro e amanhã já vou trabalhar normalmente. Passo aí assim que sair. — Tudo bem. – O silêncio perdurou durante alguns segundos. — Filho, só queremos cuidar de você. Sabe disso, não sabe? Eu assenti mesmo sabendo que ele não podia me ver. — Sei, pai. Tudo bem. — Se alimente bem e durma direito. Nós nos vemos amanhã. — Até. – Me despedi, encerrando a chamada. Mais tarde, perto das nove da noite um cheiro irresistível de frango assado invadiu a varanda. Meu estômago protestou e eu praguejei baixo, achava que tinha comido o bastante para o resto do dia hoje no almoço, mas aquele cheiro me fez levantar e seguir para a cozinha. Na sala a TV estava ligada mas não havia ninguém, a mesa na sala de jantar estava arrumada como eu não via há anos e no centro dela havia um frango bem assado e decorado em cima de algumas folhas que presumi serem de alface. Um pouco afastada da mesa, na entrada da sala de jantar, estava Holly. Com seus meio palmo de língua para fora ela admirava o frango suculento coberto com uma tampa transparente. Mesmo tampado o cheiro tomava conta de toda a casa, havia salada colorida, arroz e um tipo diferente de farofa. Fiquei animado para o jantar, o que era novo para mim nos últimos tempos. Holly choramingou no canto onde estava. — Queremos a mesma coisa, traidora. Não vou te dar nenhum pedaço sequer. – Murmurei para ela que piscou para mim antes de deixar a sala de jantar, como se tivesse entendido e repudiado minha fala. Enquanto eu lavava as mãos na cozinha Raquel apareceu e desligou a TV. Ela estava com os cabelos longos úmidos e tinha trocado de roupa, percebi que ela gostava de vestidos. A mesa estava posta e Raquel reorganizou os pratos, como se a posição deles fosse fazer alguma diferença, ela ainda não tinha me visto aqui. Achei graça de sua preocupação em posicionar os pratos. — O gosto vai continuar o mesmo, independente de onde eles estejam. – Eu ensaiei um sorriso, tentando brincar. Raquel sobressaltou ao ouvir minha voz soar atrás de si. Ela se virou para mim, com os grandes olhos levemente surpresos. O cheiro de lavanda de seu shampoo exalava dos seus cabelos assim como o cheiro de loção hidratante corporal era evidente em sua pele mesmo com a distância. — Eu já ia avisar que o jantar estava pronto. – Ela avisou. — Não resisti ao cheiro. – Olhei a mesa posta, ela tinha encontrado as louças que estavam por anos guardadas no armário. Puxei uma cadeira sem conseguir esperar por mais tempo. Raquel ficou me observando em pé no lugar enquanto eu montava meu prato. — Você vai comer, não vai? – Perguntei. Raquel não me respondeu, apenas rodeou a mesa e puxou uma cadeira tomando o lugar a minha frente. Ela esperou que eu terminasse de fazer meu prato para fazer o dela. A carne parecia suculenta e eu comprovei ao colocar o primeiro pedaço de frango na boca. Aquilo estava divino. — Isso está muito bom. Muito bom mesmo. – Disse a ela depois de engolir. — Ainda bem que você não tem dinheiro para me pagar porque eu jamais iria preferir dinheiro ao invés disso aqui. Abençoadas sejam as suas mãos! Um vislumbre de sorriso passou pelos seus lábios. — Obrigada. – Suas bochechas ganharam um tom avermelhado e seus olhos se desviaram. Percebi que gostava da facilidade com que Raquel ruborizava. Eu comi em silêncio, não quis fazer nada além de comer até que toda a comida do prato estivesse em minha barriga. — Gosta de vinho? – Perguntei depois de terminar. — Sim. – Ela afirmou, colocando os cabelos para trás do ombro. — Eu já volto. – Me meti em um dos cômodos esquecidos por mim por anos, a adega. Ao voltar para a mesa enchi duas taças com um vinho seco argentino que harmonizava bem com o sabor do frango. Não conversamos muito depois do jantar, tomamos o vinho em silêncio, mas eu sentia como Raquel me olhava. Como se eu fosse um enigma a ser desvendado quando, na verdade, era ela que carregava todo o mistério que a sua situação envolvia. Ela sabia meu nome e a minha profissão, e agora conhecia a minha casa, enquanto eu não sabia nada além do seu nome e uma parte muito m*l contada da sua versão dos fatos que a trouxeram até aqui. Me ofereci para lavar a louça, mas Raquel insistiu que fazia parte do trabalho de cozinhar. Então segui para o meu quarto, depois de tomar um banho e escovar os dentes me preparei para dormir me deitei na cama, respirei fundo não querendo adormecer e reviver meu pior pesadelo. Fechei os olhos me sentindo exausto, eu só queria um pouco de paz, queria que a dor que eu sentia fosse ao menos um pouco aplacada. Queria parar de ter pesadelos envolvendo o pior dia da minha vida. Enquanto eu suplicava ao meu subconsciente que me deixasse em paz ao menos por uma noite minha consciência foi levada pelo sono. Só acordei quatro horas depois com meu celular vibrando no colchão. Ignorei a ligação, não estava interessado em saber quem era, quando finalmente consigo dormir um pouco alguém insiste em me incomodar. Segui para a cozinha. Quem sabe tomar um copo de leite morno me ajudaria a resgatar o sono interrompido por um maldito s*******o que eu não sabia quem era. Vi uma luz fraca vinda do teto da sala, achei que Raquel tivesse esquecido a luz acesa mas fui surpreendido ao vê-la de pé próximo a estante, de costas para mim. Raquel segurava um porta retratos em sua mão, um que eu conhecia bem mesmo de longe. — Achei que já conhecia o caminho para o seu quarto. – Raquel se virou para mim em um rompante, seu rosto perdeu perdeu a cor em dois segundos. Fulminei sua mão com o olhar, a mão que ela segurava o objeto que eu não a autorizei a pegar. — E-eu, eu só ia... — Não importa. – Me aproximei, Raquel deu três passos para trás e só parou quando estendi a mão, entendendo que devia me devolver o porta retrato. O tomei da sua mão abruptamente quando ela o estendeu para mim e lancei um olhar duro para ela. — Não mexa nas minhas coisas e não entre em nenhum cômodo sem a minha autorização. Seus olhos ficaram congelados em mim por alguns segundos, de repente Raquel passou por mim apressada e foi em direção ao seu quarto. Onde deveria estar ao invés de vasculhar objetos pessoais espalhados pela casa.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR