CAPÍTULO 7 - BOA NOTÍCIA PARTE 1

1075 Palavras
(Daniel Velasques) Quando acordei no dia seguinte a casa estava vazia, mas a mesa estava posta com o café da manhã. Um café farto e saudável com direito a salada de frutas com mel e granola, pães, queijos e bolos, duas variedades de sucos e café com creme. Haviam flores discretas em um jarro no centro da mesa e deduzi que essa foi a forma que Raquel encontrou de pedir desculpas por pela noite de ontem. Como a comida estava intacta deduzi que ela ainda não tinha tomado café, mas eu ainda estava chateado e não iria até o quarto chamá-la. Aproveitei sozinho as coisas que Raquel preparou, me lembrando de deixar o bastante para ela comer depois. Ela não tinha o direito de mexer em algo tão pessoal quanto uma foto, uma foto da minha família. Lembrei o motivo de eu odiar receber gente em casa, sentia como se meu santuário fosse invadido e tocado por mãos impuras e indesejadas. E eu queria manter tudo intocado, exatamente como era antes de tudo acontecer. Dona Janete sabia que essa era uma das minhas exigências, tudo deveria estar exatamente no mesmo lugar. No quarto em que eu passava boa parte do tempo, o quarto mais importante daquela casa, eu fazia questão de manter tudo exatamente como era, até mesmo de continuar perfumando as roupas com as mesmas fragrâncias. Aquele cômodo era o meu paraíso, o mar de lembranças onde eu podia me afogar de vez em quando, e eu era rígido com a limpeza do local. Vê-la tocando aquele porta retrato fez uma raiva enorme queimar em minhas veias. Raquel era só uma estranha e em nenhum momento eu dei permissão para que entrasse em minha i********e. Talvez eu não devesse deixar o porta retrato ali, a estante era um móvel exposto que qualquer um que chegasse na sala de estar podia ver. Mas aquela ainda era a minha casa, eu queria manter minhas lembranças onde quisesse e ninguém tinha nada a ver com isso. Ninguém devia se atrever a tocar em nada sem a minha permissão. Depois de tomar café eu me preparei para sair, depois de deixar meu número em um bilhete me dei conta de que não adiantaria deixar o número se Raquel não tinha um aparelho celular. O telefone que havia usado para me ligar depois de receber alta tinha sido o do hospital. Resmunguei comigo mesmo enquanto ia até o meu quarto revirar algumas gavetas, eu tinha alguns aparelhos antigos e um deles devia servir para ela. Deixei um dos celulares ligado em cima do bilhete com o número para o caso de problemas ou de uma emergência e segui rumo a mais um dia de trabalho. Recebi olhares temerosos de alguns agentes ao passar pela porta da frente da delegacia. — Bom dia. – Cumprimentei os curiosos, que responderam com desânimo quando passei por eles. Fechei a cara ao abrir a porta da minha sala e ver Arthur sentado na minha mesa e com os malditos pés em cima da minha mesa. — O chefe voltou! – Saudou, ficando de pé, Arthur veio até mim batendo em meu ombro. — Espero que tenha descansado porque isso aqui ficou uma zona sem você. Um sorriso doentio surgiu no rosto dele, não que ele estivesse com algum problema, Arthur parecia um maníaco normalmente, então tudo nele parecia doentio. Os cabelos que ele insistia em não cortar chegavam na altura de seus ombros, Arthur teimava em deixar a barba grande e se vestir feito um ogro. Seu porte bruto não ajudava e a falha na sobrancelha, causada por um acidente na infância contribuía para deixá-lo com o ar ameaçador. Era bom no sentido de meter medo, e r**m porque parecia um homem das cavernas, mas meu amigo estava feliz assim e eu já tinha desistido de convencê-lo a se arrumar descentemente. Conheci Arthur e Nathan na faculdade de direito, Nathan tinha descoberto que não era aquilo que queria no terceiro semestre do curso, ele trocou para o curso de psicologia e concluiu na mesma unidade que Arthur e eu. Para minha surpresa nos encontramos na civil anos depois, trabalhávamos juntos, Nathan como perito, Arthur como escrivão e eu como delegado. — Essa é a minha caneca? – Juntei as sobrancelhas apontando o objeto que ele usava para tomar café. — É. – Respondeu. — E aí? A garota sobreviveu para contar a história? Ela está bem? Já tínhamos falado por telefone, precisei avisá-lo que nosso plano teria que ser adiado para outra madrugada. — Sim. Ela está bem, mas é uma longa história. – Fui até a minha mesa, tomando meu lugar de volta. Arthur se jogou na cadeira da frente na minha mesa. — Tudo que não preciso agora é uma morte nas minhas costas. Arthur bebericou o café na minha xícara, a xícara que ele não devia estar usando. — Como ficaram as coisas por aqui? – Perguntei. — Quer saber como o pessoal trabalhou sem você? A galera ficou bem humorada sem o velho da arma por perto. Fechei a cara. — Já mandei pararem com esse apelido ridículo. — Eles pararam. Na sua frente. — Não posso fazer nada se não gostam de mim, na verdade acho que ajuda a manter o respeito em dia. Mas esse termo ridículo tem que parar. — O apelido só vai parar se você deixar de reclamar feito um velho e de ameaçar usar uma arma a cada m***a que acontecer nesta delagacia. Mas acho que não é o caso. Não, não era. Eu não ia parar. Eu não era nenhum maluco de me descontrolar com os civis, mas não havia paciência sobrando para os agentes, eu tinha fama de chato e ranzinza entre eles. Se eu fizesse metade das coisas que ameaçava já estaria atrás das grades há muito tempo. — Foi o que pensei. – Arthur deu de ombros. — Tenho novidades que vão melhorar o seu humor. Juntei as sobrancelhas. — Que novidades? — Vai saber se for comigo até a tia Maria dar um prejuízo na hora do almoço. – Arthur bateu na minha mesa feito um maldito ogro. — Estou voltando ao meu posto. Ele se levantou indo até a porta, lembrar de alguma coisa o fez parar no meio do caminho. — Vai querer café? – O fuzilei com os olhos, esse infeliz estava usando a minha xícara e ainda estava me oferecendo café. — Não então.
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