02 - Faísca da Revolta

1166 Palavras
Alguns meses antes... O cheiro de flores tomou conta do lugar de um jeito sufocante, quase c***l. Por mais que eu tentasse respirar fundo, parecia que cada inspiração trazia consigo um gosto amargo, pesado, desconfortável. Flores brancas, arranjos impecáveis, laços cuidadosamente alinhados... Nada daquilo combinava com ela. Minha mãe sempre detestou flores cortadas. Costumava dizer que eram pedaços de vida arrancados só para enfeitar a morte e achava ridículo. Mas, ainda assim, estavam ali. Flores lindas e mortas, exatamente como minha mãe. Eu mantive as mãos apertadas sobre os joelhos, tentando controlar o tremor que subia pelos dedos, percorrendo meus braços até o peito, onde tudo parecia implodir. A garganta queimava, seca, como se houvesse algo preso ali. Algo pesado demais para ser engolido, mas que também não queria sair. Eu não sabia como seria dali pra frente. Minha mãe era literalmente a única pessoa que me amava, e era capaz de me ver. Engoli em seco, mais uma vez. A vontade de chorar era imensa, mas eu não conseguia. Nunca consegui chorar, não depois de levar tantos tapas na cara de um pai que sempre me achou um fardo, e preferiu minha irmã. Acho que desenvolvi uma espécie de orgulho misturado com embotamento emocional que me tornou assim. Chorar? Não, obrigada. Mesmo com o funeral acontecendo na minha casa, eu não aceitava isso, não me sentia confortável. Eles estavam por toda parte. Gente que eu nem lembrava que existia, outros que nunca fizeram questão de existir na minha vida... mas, de repente, pareciam profundamente abalados. Sussurros, olhares que escorriam sobre mim como lâminas invisíveis. Comentários discretos, tão discretos quanto uma facada bem dada nas costas. "Coitadinha... tão nova e já está morta... Agora a filha está sozinha, o pai nem gosta dela..." "Agora vai ter que crescer na marra... Sempre foi meio rebelde, né? Quem sabe agora se endireita." "Será que vai morar com o pai? Não sei se o sr. Ferrer vai aceitar essa menina com esse piercing no nariz." Muitos me olhavam como se eu fosse a próxima a ser enterrada. Outros, como se eu fosse um problema esperando para ser resolvido. Mas nenhum deles realmente me olhava de verdade. Não viam. Não queriam ver. O pior de todos? Com certeza era ele: Sentado três cadeiras ao lado, com a postura ereta, o olhar frio, impassível... Senhoras e senhores, Luiz Ferrer. O homem que, até poucos meses atrás, era apenas uma assinatura no meu registro de nascimento. Uma ausência permanente, uma sombra esquecida na biografia da minha vida. E agora... agora estava ali, mais presente do que nunca, não porque queria... mas porque precisava manter a imagem de bom moço. Nunca o engoli, nunca quis saber dele. Nosso relacionamento era baseado em cartões de natal com notas de cem dólares e cartões de aniversário que provavelmente eram enviados pela secretária dele, não por ele. Quando nossas olhares se cruzaram, eu senti meu corpo inteiro se enrijecer. Havia algo nele que me causava náusea. Algo no jeito como cruzava as mãos, como mantinha o queixo levemente erguido, como se estivesse acima de tudo... até da morte. Ele não parecia triste. Nem abalado, sequer parecia desconfortável. Na verdade, ele parecia profundamente irritado, talvez porque agora, eu parei de ser um problema da minha mãe e passei a ser um problema dele. Seria péssimo para a imagem dele se ele não acolhesse sua filha bastarda de dezessete anos que acabou de perder a mãe para um câncer agressivo, que ele se recusou a ajudar a tratar. Desviei o olhar, cravando os olhos no tecido preto da saia, apertando os punhos até as unhas quase rasgarem a pele. Aquele tremor voltou, insistente, começando nos dedos, subindo pelos braços e prendendo a respiração dentro do peito. Mas eu não ia desabar, não na frente dele. Foi então que meu olhar se perdeu na mesa lateral, onde repousavam alguns dos pertences dela. Coisas que pareciam deslocadas ali, como se ainda não soubessem que sua dona não voltaria mais. O colar de ametista simples, esquecido na estante de livros, que agarrei como se fosse a joia mais cara da casa, na realidade tinha apenas valor sentimental. Não valia mais que cem dólares. E também havia um anel, que eu olhei com cuidado. Não me lembrava de vê-la usando muito. Senti os olhos marejarem, e, pela primeira vez, precisei morder o lábio com força para impedir que aquilo transbordasse. Levantei devagar, ignorando os olhares, fingindo que não ouvia ninguém, e caminhei até a mesa. Deslizei o anel pelos dedos, apertando-o na palma da mão como se aquilo fosse capaz de segurar um pedaço dela comigo. E, por alguns segundos, acreditei que fosse. — Não vai levar tudo, espero — a voz grave, carregada de desdém, cortou o ar como uma lâmina. — Isso pertence à família. Demorei alguns segundos para processar que era comigo. Virei devagar, sentindo o estômago afundar ainda mais. Ele me olhava de cima, como quem observa um problema, não uma pessoa. — Eu sou família — respondi, mais baixa do que gostaria, mas com a pouca firmeza que ainda restava. — Aliás, a única família real dela. Você fez questão de nos deixar para trás quando arrumou outra, e me tratar como uma “filha bastarda”, não é mesmo, senhor Ferrer? — Eu soltei uma risada irônica. — Então... É. Acho que eu sou família, né? Seus olhos se estreitaram. — É... vai precisar começar a se comportar como tal. Vamos arrancar esse piercing no nariz e você vai começar a usar roupas decentes. Nunca vi uma garota de quase dezoito anos ainda usar jeans e camiseta. Você precisa se comportar direito, ou vai ferrar a minha imagem. — Verdade. Porque você não faz isso suficientemente bem sozinho, né? — Cala a boca, Victoria. Me respeita, eu sou teu pai! — Ele se exaltou um pouco e eu engoli seco. Cada palavra dele era uma pedra no meio do peito. Ele sequer disfarçava, não fazia questão de suavizar. Estava claro que, para ele, agora eu era responsabilidade dele... e nada além disso. Virei de volta, fechei um caderno que peguei na mesa também, apertei o anel na mão e ignorei. Ignorei tudo, como aprendi a fazer desde muito antes de entender que ignorar também era uma forma de sobrevivência. O barulho da TV ligada na sala dos fundos chegou até mim, meio abafado, perdido no zumbido dos sussurros. Fui até lá, porque não aguentava mais ouvir a voz daquele homem. — “Henry Antonelli, herdeiro do Grupo Antonelli, recusou-se novamente a comentar as denúncias que envolvem seu pai e seu suposto assassinato. Fontes afirmam que, apesar do temperamento difícil, é ele quem mantém o império respirando...” Não prestei atenção. Nem sabia quem era esse tal de Henry Antonelli, nem me importava. Talvez, se soubesse... teria parado. Teria olhado. Teria entendido que o destino gosta de começar as tragédias assim: no fundo de uma notícia qualquer, em um dia em que tudo já parecia perdido.
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