Brendon
É ela.
Depois de todos esses anos, é ela mesmo. Minha garota misteriosa, Charlotte.
Ela foi a melhor noite da minha vida, mas tão rapidamente quanto entrou, desapareceu. Às vezes me pergunto se ela foi apenas um sonho, seu gosto e aqueles lábios me assombrando para sempre. Ela era definitivamente real, mas desapareceu como um fantasma.
Até agora.
São três da manhã e aqui está ela à minha porta sob uma chuva torrencial, com uma criança assustada nos braços e um homem inconsciente sendo arrastado atrás dela pelos meus guardas. Tantas perguntas me invadem a mente enquanto desço as escadas com minhas calças de seda, tão ansioso para vê-la pessoalmente que nem parei para me vestir adequadamente.
O cabelo dela está molhado e caindo sobre o rosto. A maquiagem está borrada e ela está usando calças de corrida largas, um moletom largo e tênis. Fui informado de que o carro dela pifou no meio da entrada, então não é surpresa que ela esteja encharcada. Os olhos de Charlotte estão fixos na criança em seus braços enquanto ela a balança para frente e para trás, claramente tentando acalmar os gritos de medo e angústia que emanam dela.
Não reconheço o homem, e uma estranha onda de ciúme me percorre ao vê-lo. Chegando ao salão, afasto meus homens com um simples olhar. Ele será cuidado e visitado pela equipe interna.
O médico vai verificar o por que dele está inconsciente. Anseio por saber sua relação com Charlotte, mas isso desaparece quando ela finalmente levanta a cabeça e nossos olhares se encontram.
Num piscar de olhos, já se passaram quatro anos, e ela está olhando para mim do bar com um sorriso brincalhão nos lábios.
Pisco e estamos de volta ao meu corredor, uma tempestade rugindo lá fora e vários dos meus guardas olhando de soslaio para Charlotte. Eles a veem como uma ameaça, um risco para mim, mas tudo o que vejo é a mulher por quem me apaixonei no momento em que a beijei, e pela primeira vez em quatro anos, meu coração bate novamente.
— Charlotte — digo baixinho, e ela ergue a sobrancelha como se estivesse surpresa por eu lembrar o nome dela. — O que você está fazendo aqui?
É óbvio que ela estava chorando, e sua voz está carregada de emoção quando ela finalmente fala:
— Eu não sabia para onde ir.
Sua tristeza e desespero me arranham como mil lâminas de barbear, e sinto meu peito se fechar, como se o ar fosse muito pouco para encher meus pulmões. Juro silenciosamente a mim mesmo que, seja o que for que tenha causado tanta dor a ela, será resolvido rapidamente. Dou um passo à frente, hesitante. — O que você precisa?
Ela pisca lentamente, exausta, e seus ombros caem. — Socorro — sussurra. — Por favor.
Não preciso ouvir mais nada. Com um estalar de dedos, os guardas desaparecem e Conor, meu guarda-costas pessoal, surge como uma sombra ao meu lado. Eu coloco um braço ao redor dos ombros de Charlotte e a conduzo escada acima, para o meu quarto. Quando entramos, ela me conta sobre a criança — Nicky — e como o rapaz que veio com ela está perturbado. Charlotte pede roupas secas e um lugar onde possa dar um banho quente no rapaz. Mostro o banheiro e digo que ela pode ficar o tempo que precisar. Ela assente e desaparece para dentro, fechando a porta atrás de si.
— Chefe? — Conor se aproxima, curioso. — Quem é ela?
Eu fixo o olhar na porta do banheiro. Meu peito dói ao saber que a vi por cinco minutos e já há uma porta entre nós. Viro-me e desço para a sala de estar. — Você se lembra daquela noite na boate?
— Qual noite?
— Quatro anos atrás. Depois que fechei aqueles contratos no Oriente Médio.
Conor faz que sim com a cabeça.
— É a mulher do bar — murmuro. — Charlotte. — Seu nome parece pesado e precioso na minha boca. Olho novamente para a porta e baixo a voz: — Por que ela está aqui?
— Você acha que é algo sinistro? — Conor pergunta.
— Não sei o que pensar — admito, suspirando profundamente. — Será que estou sonhando?
— Quer que eu te dê um tapa? — Ele sugere, meio sério.
— Não precisa. — Rio secamente. — Descubra tudo que puder sobre ela. Veja o carro lá fora, quero saber onde ele esteve antes de chegar aqui. Mas antes, traga roupas para ela e para a criança.
— Sim, senhor. — Conor abaixa a cabeça e sai imediatamente, me deixando sozinho com meus pensamentos turbulentos.
A espera parece interminável. Meus quartos são os únicos sem câmeras, então tudo o que posso fazer é decifrar os sons — a água correndo, respingos, sussurros suaves. Quando a porta finalmente se abre, Nicky está dormindo nos braços de Charlotte, as bochechas coradas de calor. Ela, envolta em um robe fofo e macio, me lança um olhar cansado mas agradecido antes de deitar a criança na cama, protegendo-a com um carinho silencioso. A cena me faz apertar os dedos ao redor do copo que estava segurando, absorvendo cada detalhe dela.
Enquanto ela se aproxima para ajeitar a filha, um movimento faz o robe dela subir um pouco, revelando pele viva e ensanguentada nos pés. Sinto gelo nas veias. O que aconteceu com ela?
— Obrigada — Charlotte murmura. — Por me aceitar. — Seus olhos passeiam pelo quarto, parando em cada cortina de seda, cada pintura, como se estivesse em outro mundo. Um suspiro escapa de seus lábios, um som pequeno, mas cheio de emoção.
— Eu não poderia mandá-la embora a essa hora da noite — digo suavemente.
— Tem certeza? — Ela dá uma risada fraca, abraçando a si mesma. — Seu segurança parecia bem decidido a fazer exatamente isso.
— Eles são treinados para me proteger — explico, mas minha voz sai quase distraída. Meus olhos não a largam.
— Mmm-hmm — ela murmura, sem se aprofundar. Reconheço a tensão no modo como ela se senta, a maneira como envolve o corpo em volta de Nicky, protetora. Poderia insistir em perguntas, mas sei que não vou conseguir respostas agora. Então, decido mudar de tática.
— Sente-se — aponto para o sofá. — Você ainda consegue vê-la daqui.
Ela hesita, olhando para a filha, mas obedece, sentando-se na beirada, tensa como uma corda esticada.
— Deixe-me ver seus pés — peço baixinho.
— O quê? — Charlotte bufa, surpresa. — Por que quer ver meus pés?
— Por favor, deixe-me cuidar de você — digo, indo até o banheiro para pegar o kit médico. — Charlotte, vi que você está machucada. Deixe-me ajudar.
Seus olhos estreitam, mas ela não responde. Lenta, levanta a barra do robe. Eu me ajoelho à sua frente, estendo a palma para cima. Depois de um instante que parece eterno, ela levanta o pé e me oferece. As marcas são claras — arranhões, hematomas. Eu conheço esses ferimentos. Pessoas machucadas assim correm descalças em terreno áspero, e minha garganta aperta de raiva.
— Quer me contar o que aconteceu?
Charlotte apenas balança a cabeça e sussurra de dor quando limpo as feridas com o antisséptico. Meu peito se contrai. Sou um homem de ação imediata, mas sei que se forçá-la agora, ela vai se fechar completamente. Então foco em cuidar dela: removo pedrinhas cravadas na pele, lavo o sangue, cubro cada arranhão com ataduras almofadadas. Quando termino, repito com o outro pé. Ela chia de dor, mas se mantém firme, silenciosa.
Vejo mais ferimentos — a maçã do rosto inchada, o lábio cortado. Alguém a machucou. Meu aperto em seu tornozelo se intensifica por um instante. A raiva me consome como fogo.
— Pronto — digo, soltando sua perna devagar. — Vou arrumar sapatos que não machuquem ainda mais. Precisa de mais alguma coisa?
— Não — ela responde em um sussurro, evitando meu olhar.
Levo a mão ao rosto dela, tocando sua bochecha machucada. — Alguém bateu em você, Charlotte.
Ela fecha os olhos e vira de leve o rosto contra minha mão, um gesto que parte meu coração. — Por favor... — ela sussurra.
— Se você me contar o que aconteceu, posso te ajudar — digo baixinho.
Charlotte ergue os olhos para mim, tão azuis e tão cheios de dor que sinto o estômago despencar. — Não posso. Não agora.
Eu apenas assinto. — Entendi. — Minha mão começa a se afastar quando, de repente, Charlotte se inclina para mim. Suas mãos tocam meus ombros nus e, como em todos os meus sonhos desde aquela noite no bar, seus lábios encontram os meus, suaves e urgentes.