Melina acordou com a sensação incômoda de que algo estava errado. O sol atravessava as frestas da cortina fina, iluminando o quarto pequeno, mas em vez de trazer a energia de um novo dia, apenas reforçava o vazio que sentia. Nos últimos dias, o corpo dela parecia rebelar-se contra a rotina: náuseas constantes, tonturas repentinas e uma fadiga que não desaparecia mesmo depois de horas de sono.
No início, tentou ignorar. Atribuiu os enjoos à comida barata da pensão e o cansaço às noites longas em que precisava se entregar a desconhecidos. Mas, com o passar das semanas, não dava mais para fingir. O atraso da menstruação foi o aviso final, a confirmação que seu instinto já havia sussurrado baixinho.
Sentada na beira da cama, Melina apertou as mãos entrelaçadas contra o colo e respirou fundo. A mente se recusava a organizar os pensamentos. Uma parte dela desejava estar enganada, acreditar que era apenas estresse. Mas, no fundo, sabia a verdade.
A lembrança daquela noite com Jonas voltava sempre. O calor dos toques, a intensidade dos beijos, a falta de cuidado. Foi a única vez que não houve proteção. Uma única vez que bastou para mudar tudo.
Durante o dia, ela tentou seguir a rotina como se nada tivesse acontecido. Saiu para comprar pão, trocou algumas palavras com a dona da padaria e até sorriu para uma criança que passou correndo pela rua. Mas, por dentro, estava despedaçada.
À noite, quando voltou para o quarto, encontrou Luciana sentada na cama, folheando uma revista qualquer.
— Você está péssima — disse a amiga, franzindo o cenho. — O que está acontecendo com você?
Melina hesitou, mas não conseguiu esconder.
— Acho… acho que estou grávida.
O silêncio tomou conta do quarto. Luciana arregalou os olhos, fechou a revista e jogou-a de lado.
— Grávida? Você tem certeza?
— Ainda não fiz nenhum teste, mas… sinto que estou. Todos os sintomas.
Luciana passou a mão pelo rosto, inquieta.
— Meu Deus, Melina… e de quem é?
A pergunta caiu como um golpe. A resposta parecia óbvia, mas a vergonha de admitir a situação a sufocava.
— Do Jonas — murmurou, quase sem voz.
Luciana se levantou de imediato.
— Você só pode estar brincando! Logo dele? O homem que paga mais caro, o que pode escolher qualquer mulher que quiser… e justo com você acontece isso?
Melina fechou os olhos, tentando conter as lágrimas.
— Eu não planejei. Foi um descuido. Eu não queria.
— E agora? — Luciana questionou, a voz carregada de preocupação. — Você sabe o que isso significa?
Melina permaneceu em silêncio. Não sabia o que significava, apenas sentia o peso esmagador da decisão que teria que tomar.
Nos dias seguintes, o segredo a consumia. Comprou um teste de farmácia e o escondeu dentro da bolsa, esperando o momento em que tivesse coragem de usá-lo. Quando finalmente reuniu forças, trancou-se no pequeno banheiro da pensão.
As mãos tremiam enquanto segurava a embalagem. As instruções pareciam se embaralhar diante de seus olhos. Fez o que precisava ser feito e, por intermináveis minutos, encarou o pequeno visor. Quando o resultado apareceu, não houve surpresa.
Apenas a confirmação de algo que já sabia.
Positivo.
O chão pareceu sumir sob seus pés. Melina encostou-se à parede fria, abraçando os joelhos, enquanto lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto. Uma vida crescia dentro dela. Uma vida fruto de uma noite que jamais imaginara que mudaria tudo.
A primeira reação foi o desespero. Como sustentaria uma criança se m*l conseguia sustentar a si mesma? Como criaria um filho em um mundo que só a empurrava para a escuridão?
E, acima de tudo, como enfrentaria Jonas?
A ideia de contar a ele parecia absurda. Ele era um homem poderoso, um CEO cercado de riqueza e prestígio. O que pensaria de uma garota de programa que aparecesse dizendo estar grávida dele? Riria. Desprezaria. A chamaria de oportunista.
O coração de Melina apertou com essa possibilidade. Já havia sentido na pele o peso do julgamento, mas dessa vez seria diferente. Seria esmagador.
Durante noites, ela m*l conseguiu dormir. Ficava acordada, acariciando o próprio ventre ainda plano, imaginando o futuro. Pensava em como seria o rosto da criança, em que tipo de mãe poderia ser. Uma mistura de medo e esperança se revezava dentro dela.
Luciana tentou ajudá-la, mas até ela parecia perdida.
— Mel, você tem que pensar em você. Em como vai viver. Não pode deixar esse bebê destruir sua vida.
— Não é um bebê que destrói vidas — respondeu Melina com firmeza inesperada. — São as escolhas.
Aquela frase marcou algo dentro dela. Pela primeira vez, sentiu que precisava ser forte. Talvez nunca tivesse tido escolha em muitos aspectos da vida, mas agora tinha. E decidiu que protegeria aquela criança, não importa o preço.
Com o passar das semanas, os sintomas aumentaram. O enjoo matinal tornou-se rotina, e o corpo começou a dar os primeiros sinais da transformação. Melina escondia o quanto podia, mas logo ficaria impossível disfarçar.
Foi nesse período que voltou a ver Jonas. Ele a procurou novamente, como já havia feito antes, mas dessa vez Melina recusou.
— Não posso — disse, tentando soar firme.
Jonas a observou com o cenho franzido, como se não estivesse acostumado a ouvir um “não”.
— Por quê?
— Porque não posso — repetiu, evitando os olhos dele.
Ele não insistiu, mas o olhar desconfiado ficou marcado na mente dela. Sabia que não poderia fugir para sempre. Mais cedo ou mais tarde, o confronto seria inevitável.
Em uma noite silenciosa, sozinha em seu quarto, Melina deitou-se e repousou a mão sobre o ventre.
— Você não pediu para vir ao mundo, meu amor — sussurrou, com a voz embargada. — Mas eu prometo que vou lutar por você. Eu vou te proteger.
As lágrimas molharam o travesseiro, mas, pela primeira vez, não eram apenas de dor. Eram também de determinação.
Ela não sabia como faria, não sabia quais batalhas teria que enfrentar, mas tinha certeza de uma coisa: não estava mais sozinha.
E isso mudava tudo.
O peso da noite agora era dividido. Não era mais apenas Melina contra o mundo. Era Melina e a vida que crescia dentro dela.
E, mesmo que o futuro parecesse incerto, havia uma centelha de esperança acesa no coração dela.
Uma centelha que se chamava sobrevivência.
E, mais tarde, se chamaria amor.