O Peso de Duas Vidas

1064 Palavras
Melina acordou com a sensação incômoda de que algo estava errado. O sol atravessava as frestas da cortina fina, iluminando o quarto pequeno, mas em vez de trazer a energia de um novo dia, apenas reforçava o vazio que sentia. Nos últimos dias, o corpo dela parecia rebelar-se contra a rotina: náuseas constantes, tonturas repentinas e uma fadiga que não desaparecia mesmo depois de horas de sono. No início, tentou ignorar. Atribuiu os enjoos à comida barata da pensão e o cansaço às noites longas em que precisava se entregar a desconhecidos. Mas, com o passar das semanas, não dava mais para fingir. O atraso da menstruação foi o aviso final, a confirmação que seu instinto já havia sussurrado baixinho. Sentada na beira da cama, Melina apertou as mãos entrelaçadas contra o colo e respirou fundo. A mente se recusava a organizar os pensamentos. Uma parte dela desejava estar enganada, acreditar que era apenas estresse. Mas, no fundo, sabia a verdade. A lembrança daquela noite com Jonas voltava sempre. O calor dos toques, a intensidade dos beijos, a falta de cuidado. Foi a única vez que não houve proteção. Uma única vez que bastou para mudar tudo. Durante o dia, ela tentou seguir a rotina como se nada tivesse acontecido. Saiu para comprar pão, trocou algumas palavras com a dona da padaria e até sorriu para uma criança que passou correndo pela rua. Mas, por dentro, estava despedaçada. À noite, quando voltou para o quarto, encontrou Luciana sentada na cama, folheando uma revista qualquer. — Você está péssima — disse a amiga, franzindo o cenho. — O que está acontecendo com você? Melina hesitou, mas não conseguiu esconder. — Acho… acho que estou grávida. O silêncio tomou conta do quarto. Luciana arregalou os olhos, fechou a revista e jogou-a de lado. — Grávida? Você tem certeza? — Ainda não fiz nenhum teste, mas… sinto que estou. Todos os sintomas. Luciana passou a mão pelo rosto, inquieta. — Meu Deus, Melina… e de quem é? A pergunta caiu como um golpe. A resposta parecia óbvia, mas a vergonha de admitir a situação a sufocava. — Do Jonas — murmurou, quase sem voz. Luciana se levantou de imediato. — Você só pode estar brincando! Logo dele? O homem que paga mais caro, o que pode escolher qualquer mulher que quiser… e justo com você acontece isso? Melina fechou os olhos, tentando conter as lágrimas. — Eu não planejei. Foi um descuido. Eu não queria. — E agora? — Luciana questionou, a voz carregada de preocupação. — Você sabe o que isso significa? Melina permaneceu em silêncio. Não sabia o que significava, apenas sentia o peso esmagador da decisão que teria que tomar. Nos dias seguintes, o segredo a consumia. Comprou um teste de farmácia e o escondeu dentro da bolsa, esperando o momento em que tivesse coragem de usá-lo. Quando finalmente reuniu forças, trancou-se no pequeno banheiro da pensão. As mãos tremiam enquanto segurava a embalagem. As instruções pareciam se embaralhar diante de seus olhos. Fez o que precisava ser feito e, por intermináveis minutos, encarou o pequeno visor. Quando o resultado apareceu, não houve surpresa. Apenas a confirmação de algo que já sabia. Positivo. O chão pareceu sumir sob seus pés. Melina encostou-se à parede fria, abraçando os joelhos, enquanto lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto. Uma vida crescia dentro dela. Uma vida fruto de uma noite que jamais imaginara que mudaria tudo. A primeira reação foi o desespero. Como sustentaria uma criança se m*l conseguia sustentar a si mesma? Como criaria um filho em um mundo que só a empurrava para a escuridão? E, acima de tudo, como enfrentaria Jonas? A ideia de contar a ele parecia absurda. Ele era um homem poderoso, um CEO cercado de riqueza e prestígio. O que pensaria de uma garota de programa que aparecesse dizendo estar grávida dele? Riria. Desprezaria. A chamaria de oportunista. O coração de Melina apertou com essa possibilidade. Já havia sentido na pele o peso do julgamento, mas dessa vez seria diferente. Seria esmagador. Durante noites, ela m*l conseguiu dormir. Ficava acordada, acariciando o próprio ventre ainda plano, imaginando o futuro. Pensava em como seria o rosto da criança, em que tipo de mãe poderia ser. Uma mistura de medo e esperança se revezava dentro dela. Luciana tentou ajudá-la, mas até ela parecia perdida. — Mel, você tem que pensar em você. Em como vai viver. Não pode deixar esse bebê destruir sua vida. — Não é um bebê que destrói vidas — respondeu Melina com firmeza inesperada. — São as escolhas. Aquela frase marcou algo dentro dela. Pela primeira vez, sentiu que precisava ser forte. Talvez nunca tivesse tido escolha em muitos aspectos da vida, mas agora tinha. E decidiu que protegeria aquela criança, não importa o preço. Com o passar das semanas, os sintomas aumentaram. O enjoo matinal tornou-se rotina, e o corpo começou a dar os primeiros sinais da transformação. Melina escondia o quanto podia, mas logo ficaria impossível disfarçar. Foi nesse período que voltou a ver Jonas. Ele a procurou novamente, como já havia feito antes, mas dessa vez Melina recusou. — Não posso — disse, tentando soar firme. Jonas a observou com o cenho franzido, como se não estivesse acostumado a ouvir um “não”. — Por quê? — Porque não posso — repetiu, evitando os olhos dele. Ele não insistiu, mas o olhar desconfiado ficou marcado na mente dela. Sabia que não poderia fugir para sempre. Mais cedo ou mais tarde, o confronto seria inevitável. Em uma noite silenciosa, sozinha em seu quarto, Melina deitou-se e repousou a mão sobre o ventre. — Você não pediu para vir ao mundo, meu amor — sussurrou, com a voz embargada. — Mas eu prometo que vou lutar por você. Eu vou te proteger. As lágrimas molharam o travesseiro, mas, pela primeira vez, não eram apenas de dor. Eram também de determinação. Ela não sabia como faria, não sabia quais batalhas teria que enfrentar, mas tinha certeza de uma coisa: não estava mais sozinha. E isso mudava tudo. O peso da noite agora era dividido. Não era mais apenas Melina contra o mundo. Era Melina e a vida que crescia dentro dela. E, mesmo que o futuro parecesse incerto, havia uma centelha de esperança acesa no coração dela. Uma centelha que se chamava sobrevivência. E, mais tarde, se chamaria amor.
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