O Preço da Escolha

1204 Palavras
O sol nascia devagar, tingindo o céu de laranja e dourado, mas Melina m*l percebia a beleza daquela manhã. Ainda estava deitada na cama de hotel, imóvel, como se o corpo tivesse sido esvaziado de qualquer força. Jonas havia partido horas antes, deixando sobre a mesa um maço de notas bem dobrado. O dinheiro parecia brilhar com arrogância, como se a lembrasse a cada segundo do que ela havia feito para recebê-lo. Virou-se de lado, abraçando o travesseiro, e fechou os olhos. Tentou convencer a si mesma de que aquilo fora apenas mais um encontro, igual aos outros que Clarice havia arrumado. Mas sabia que não era verdade. Algo nele a havia marcado, como se tivesse riscado seu nome no fundo da alma. “Quanto tempo eu tenho com você?” A voz dele ecoava em sua mente, firme e fria. Não havia carinho, não havia doçura, apenas um contrato silencioso entre corpos. Ainda assim, foi diferente. A forma como a tocou, o modo como olhou em seus olhos, como se pudesse ver além da máscara... aquilo a perturbava mais do que gostaria de admitir. Respirou fundo, levantou-se e foi até o espelho. A maquiagem borrada revelava olheiras profundas. Passou a mão pelos cabelos desgrenhados, tentando se recompor. “Você escolheu esse caminho”, repetiu a si mesma, embora no fundo soubesse que não havia sido bem uma escolha. Fora empurrada, manipulada, conduzida pelas promessas de Clarice e pela necessidade de sobreviver. Ao sair do hotel, o vento frio da manhã a atingiu em cheio. Sentiu-se nua, exposta, mesmo vestindo o mesmo vestido vermelho da noite anterior. Caminhou apressada até o ponto de ônibus, ignorando os olhares curiosos. Dentro do coletivo lotado, sentou-se ao lado de uma senhora que segurava um buquê de flores. O cheiro doce das pétalas contrastava com o perfume forte que ainda impregnava sua pele. Melina virou o rosto para a janela, tentando não chorar. Quando chegou em casa, a tia Alcina já estava de pé, mexendo na cozinha. A mulher lançou-lhe um olhar reprovador assim que a viu entrar. — Virando a noite na rua? Que exemplo você acha que dá? — disparou, batendo a colher na panela. Melina respirou fundo, evitando responder. Sabia que qualquer palavra apenas alimentaria mais críticas. Subiu para o quarto, fechou a porta e jogou o dinheiro sobre a cama. Contou as notas uma a uma, e um nó apertou sua garganta. Era mais do que ganharia em um mês inteiro de trabalho na lanchonete. Com aquele valor, poderia pagar contas atrasadas, comprar roupas novas, talvez até sonhar em guardar alguma coisa. Mas a que preço? Passou os dedos sobre as cédulas, lembrando-se de cada segundo da noite anterior. A sensação de ser observada, de ser tocada, de estar disponível como mercadoria. Uma parte dela queria correr para o banheiro e se lavar até arrancar a própria pele. Outra parte, porém, sussurrava que talvez aquela fosse a única saída possível. Horas depois, Clarice apareceu, como sempre radiante e confiante. Sentou-se na cama de Melina sem pedir permissão e pegou parte do dinheiro. — Taxa da casa, querida. Você sabe como funciona. — Deu um sorriso, como se fosse natural tirar proveito da inocência alheia. Melina engoliu em seco. — Eu não sei se quero continuar... — disse, hesitante. Clarice ergueu uma sobrancelha, rindo. — Não queira me fazer rir, Melina. Você nasceu para isso. Olhe-se no espelho! É linda, jovem, tem um corpo que deixa qualquer homem de joelhos. Vai jogar fora a chance de sair dessa miséria? — Eu só... não sei se consigo. — Claro que consegue. — Clarice levantou-se, segurando o rosto dela entre as mãos. — Escute bem: dor passa. Vergonha passa. Mas o dinheiro fica. E no final, você vai me agradecer. As palavras da amiga soavam como veneno, mas ao mesmo tempo exerciam uma estranha atração. Melina não tinha ninguém além dela. Não tinha com quem dividir seus medos, suas dúvidas. Clarice era o braço que a empurrava para o abismo, mas também a única que parecia se importar com sua sobrevivência. Nos dias seguintes, Melina se dividiu entre a rotina da lanchonete e as noites que Clarice organizava para ela. Tentava não pensar muito, apenas se desligava, como se fosse outra pessoa. O dinheiro aumentava, e junto com ele a sensação de vazio. Cada cliente era uma história diferente: alguns queriam companhia silenciosa, outros exigiam submissão, alguns chegavam bêbados, outros violentos. Melina aprendeu a se proteger como podia, a esconder emoções, a se tornar uma atriz em um palco sem luzes. Mas sempre que fechava os olhos, era o rosto de Jonas que surgia. Não entendia o motivo, tampouco queria admitir. Ele era apenas mais um, lembrava-se. Mais um que a usou, mais um que pagou e foi embora. Ainda assim, algo nele havia se gravado em sua memória como ferro em brasa. Certa noite, exausta após voltar de um encontro particularmente humilhante, Melina se trancou no banheiro. Ligou o chuveiro, deixou a água quente cair sobre a pele e chorou em silêncio. Chorou pelo que perdeu, pelo que nunca teve e pelo que ainda sonhava em ter. “Será que algum dia vou ser feliz?” A pergunta ecoou em sua mente, sem resposta. No dia seguinte, ao chegar à lanchonete, foi surpreendida pela demissão. O dono alegou que não podia mais manter alguém que vivia chegando atrasada e com aparência cansada. Melina tentou argumentar, mas no fundo sabia que ele estava certo. Sua vida havia se dividido entre duas realidades, e nenhuma delas lhe oferecia dignidade. Saiu do local com os olhos marejados e o coração apertado. Agora, o que lhe restava? Foi então que Clarice apareceu novamente, como se pressentisse o momento certo para agir. Encontrou Melina sentada na calçada, abraçada aos próprios joelhos. — Ei, garota, levante a cabeça. O mundo não acabou. — Sentou-se ao lado dela. — Você perdeu um emprego miserável, mas ganhou um caminho de ouro. Melina balançou a cabeça. — Não quero essa vida... — E qual vida você quer? Ficar implorando emprego por salário mínimo? Esperar que sua tia finalmente te coloque para fora de casa? Acorde, Melina. A noite pode ser c***l, mas também é generosa. Você já provou o gosto disso. O silêncio foi a resposta da jovem. Clarice sorriu, como quem sabia que já havia vencido. — Vou arrumar algo especial para você. Um cliente diferente. Rico, poderoso. Esse vai mudar sua sorte. Melina a olhou, assustada. — Eu não quero mais... — Vai querer, sim. Confie em mim. E assim, sem perceber, Melina foi sendo arrastada ainda mais para dentro daquele mundo. Cada passo parecia difícil de reverter. A promessa de um cliente especial, “rico e poderoso”, plantou em sua mente a ideia de que talvez existisse algo diferente entre tantos encontros sem alma. Enquanto caminhava de volta para casa naquela noite, sentiu o coração acelerar. Não sabia explicar, mas tinha a sensação de que estava prestes a encontrar novamente o homem que não conseguia esquecer. Jonas. E, embora não pudesse prever, aquela nova aproximação seria o primeiro passo para uma história que mudaria tudo — para ela, para ele, e para a vida que ainda estava por nascer.
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