Pré-visualização gratuita CAPÍTULO 1 – QUEM É FERNANDO
Nando narrando
Meu nome é Fernando Alencar.
Mas quase ninguém me chama assim.
Pra todo mundo eu sou Nando da VG.
Apoiei os dois braços no parapeito da varanda e fiquei observando as luzes espalhadas pelo Vidigal. Lá de cima dava para enxergar quase tudo: as vielas, os becos, os bares ainda abertos e o movimento dos moradores voltando para casa depois de mais um dia de trabalho.
A brisa da noite batia no meu rosto enquanto eu tragava devagar.
A lua estava enorme.
Bonita pra c*****o.
Mesmo assim, eu não conseguia relaxar completamente.
Nunca consegui.
Viver aqui me ensinou que a tranquilidade é uma parada temporária.
Hoje está tudo calmo.
Amanhã alguém pode tentar arrancar a tua cabeça.
Instintivamente, passei a mão na pistola presa à cintura.
Velho hábito.
Desde moleque aprendi a andar atento.
Sempre foi assim.
Minha mãe se casou de novo depois que meu pai resolveu abandonar tudo e ir embora do país. Nunca fomos próximos. Pra falar a verdade, nem sei se ele acompanha minha vida ou se faz questão de saber que existo.
Talvez seja melhor assim.
Enquanto alguns filhos crescem ouvindo histórias de príncipes e heróis, eu cresci ouvindo rajadas de tiros durante a madrugada.
A vida nunca me deu muita escolha.
Fechei os olhos por alguns segundos.
Mas bastou isso para as lembranças aparecerem.
Os rostos.
Os gritos.
Os amigos que ficaram pelo caminho.
Alguns fantasmas nunca vão embora.
Abri os olhos de novo e voltei a olhar para a comunidade.
Ali embaixo algumas crianças ainda brincavam na rua.
Aquilo me fez sorrir.
Era por elas que eu tentava manter a ordem.
Muita gente de fora gosta de apontar dedos sem conhecer a realidade daqui.
Mas eu conheço cada viela desse lugar.
Conheço o nome das famílias.
Sei quem acorda às cinco da manhã para trabalhar.
Sei quem passa dificuldade.
Sei quem precisa de ajuda.
E também sei quem gosta de criar problema.
Por isso ninguém mexe com trabalhador onde eu comando.
Quem chega querendo intimidar morador aprende rápido que existe consequência.
A construção atrás de mim chamou minha atenção.
Os pedreiros tinham acabado de sair.
Minha casa estava ficando exatamente como eu queria.
Piscina nova.
Área gourmet.
Mais alguns quartos.
Conforto não era pecado.
Principalmente depois de tudo que vivi.
Soltei uma risada baixa.
Só faltava uma mulher pra dividir aquilo tudo comigo.
Mas ainda não apareceu nenhuma capaz de me prender.
Por enquanto, era só curtição.
Meu celular vibrou no bolso.
Uma notificação.
Depois outra.
E mais uma.
Peguei o aparelho.
Quando um negócio importante acontecia dentro da comunidade, a informação chegava até mim antes de chegar em qualquer outro lugar.
Abri o relatório.
Os olhos percorreram os dados da tela.
Mansão vendida.
Mansão de luxo.
Três suítes.
Piscina.
Sauna.
Garagem.
Uma das melhores propriedades do Vidigal.
Assobiei.
Quem comprou tinha dinheiro.
Muito dinheiro.
Continuei lendo.
O nome do comprador apareceu logo abaixo.
Lorena Amaral.
Franzi a testa.
Amaral?
Alguma coisa naquele sobrenome me incomodou.
Digitei o nome no celular.
A internet carregou algumas imagens.
E aí eu vi.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
— Não pode ser...
Ampliei a foto.
Era uma mulher linda.
Loira.
Sorriso perfeito.
Corpo escultural.
Mas não foi isso que chamou minha atenção.
Foi quem estava ao lado dela.
Delegado Amaral.
Na mesma hora senti o sangue esquentar.
Aquele desgraçado.
O homem que eu odiava com todas as minhas forças.
O homem que tirou o VN da minha frente.
Ainda conseguia lembrar daquela cena.
Do estampido.
Do corpo caindo.
Da impotência.
Fechei a galeria do celular antes que a raiva tomasse conta de vez.
Então a esposa dele estava vindo para o Vidigal.
Justamente para o meu território.
Olhei novamente a foto de Lorena.
Alguma coisa não fazia sentido.
Por que a mulher de um delegado escolheria morar ali?
Especialmente naquele lugar.
Sozinha?
Com filhos?
Com escolta?
Era informação demais sem resposta.
E quando alguma coisa não fazia sentido, eu investigava.
Peguei o rádio.
— Atenção geral. Quero todo mundo na base em cinco minutos.
A resposta veio quase instantaneamente.
— Copiado.
— Na escuta.
— Tô chegando.
Guardei o celular e fiquei observando a foto mais uma vez.
Cinco minutos depois a movimentação começou.
Um a um, meus homens entraram no salão principal.
Alguns sentaram.
Outros ficaram em pé.
Todos esperando.
Quando o último chegou, levantei o aparelho e joguei a imagem para a televisão.
A foto de Lorena apareceu na tela.
Um silêncio tomou conta do ambiente.
Alguns assobiaram.
Outros trocaram olhares.
Eu permaneci sério.
— Prestem atenção.
Todos voltaram os olhos para mim.
— Essa mulher se chama Lorena Amaral.
O nome provocou murmúrios imediatos.
— Amaral? — alguém perguntou.
Assenti.
— Mulher do delegado.
O silêncio voltou.
Muito mais pesado dessa vez.
— Quero todo mundo ligado. Não façam contato desnecessário. Não quero gracinha, não quero curiosidade e muito menos erro.
Cruzei os braços.
— Se ela veio pra cá por trabalho, beleza. Mas se tiver qualquer coisa relacionada ao marido dela, eu quero saber antes de todo mundo.
Os homens concordaram.
Ninguém discutiu.
Ninguém questionou.
Porque todos ali lembravam do VN.
Todos.
A reunião terminou poucos minutos depois.
Aos poucos eles foram saindo.
Até que fiquei sozinho.
Mais uma vez.
Voltei para a varanda.
A noite continuava bonita.
A favela continuava iluminada.
Mas agora minha paz tinha ido embora.
Peguei o celular.
Sem perceber, abri novamente a foto de Lorena.
Fiquei encarando a imagem por alguns segundos.
Bonita.
Bonita demais.
Soltei um suspiro.
Problema.
Aquela mulher tinha toda cara de problema.
E alguma coisa me dizia que aquela história estava só começando.
CAPÍTULO 1 – QUEM É FERNANDO
Nando narrando
Meu nome é Fernando Alencar.
Mas quase ninguém me chama assim.
Pra todo mundo eu sou Nando da VG.
Apoiei os dois braços no parapeito da varanda e fiquei observando as luzes espalhadas pelo Vidigal. Lá de cima dava para enxergar quase tudo: as vielas, os becos, os bares ainda abertos e o movimento dos moradores voltando para casa depois de mais um dia de trabalho.
A brisa da noite batia no meu rosto enquanto eu tragava devagar.
A lua estava enorme.
Bonita pra c*****o.
Mesmo assim, eu não conseguia relaxar completamente.
Nunca consegui.
Viver aqui me ensinou que a tranquilidade é uma parada temporária.
Hoje está tudo calmo.
Amanhã alguém pode tentar arrancar a tua cabeça.
Instintivamente, passei a mão na pistola presa à cintura.
Velho hábito.
Desde moleque aprendi a andar atento.
Sempre foi assim.
Minha mãe se casou de novo depois que meu pai resolveu abandonar tudo e ir embora do país. Nunca fomos próximos. Pra falar a verdade, nem sei se ele acompanha minha vida ou se faz questão de saber que existo.
Talvez seja melhor assim.
Enquanto alguns filhos crescem ouvindo histórias de príncipes e heróis, eu cresci ouvindo rajadas de tiros durante a madrugada.
A vida nunca me deu muita escolha.
Fechei os olhos por alguns segundos.
Mas bastou isso para as lembranças aparecerem.
Os rostos.
Os gritos.
Os amigos que ficaram pelo caminho.
Alguns fantasmas nunca vão embora.
Abri os olhos de novo e voltei a olhar para a comunidade.
Ali embaixo algumas crianças ainda brincavam na rua.
Aquilo me fez sorrir.
Era por elas que eu tentava manter a ordem.
Muita gente de fora gosta de apontar dedos sem conhecer a realidade daqui.
Mas eu conheço cada viela desse lugar.
Conheço o nome das famílias.
Sei quem acorda às cinco da manhã para trabalhar.
Sei quem passa dificuldade.
Sei quem precisa de ajuda.
E também sei quem gosta de criar problema.
Por isso ninguém mexe com trabalhador onde eu comando.
Quem chega querendo intimidar morador aprende rápido que existe consequência.
A construção atrás de mim chamou minha atenção.
Os pedreiros tinham acabado de sair.
Minha casa estava ficando exatamente como eu queria.
Piscina nova.
Área gourmet.
Mais alguns quartos.
Conforto não era pecado.
Principalmente depois de tudo que vivi.
Soltei uma risada baixa.
Só faltava uma mulher pra dividir aquilo tudo comigo.
Mas ainda não apareceu nenhuma capaz de me prender.
Por enquanto, era só curtição.
Meu celular vibrou no bolso.
Uma notificação.
Depois outra.
E mais uma.
Peguei o aparelho.
Quando um negócio importante acontecia dentro da comunidade, a informação chegava até mim antes de chegar em qualquer outro lugar.
Abri o relatório.
Os olhos percorreram os dados da tela.
Mansão vendida.
Mansão de luxo.
Três suítes.
Piscina.
Sauna.
Garagem.
Uma das melhores propriedades do Vidigal.
Assobiei.
Quem comprou tinha dinheiro.
Muito dinheiro.
Continuei lendo.
O nome do comprador apareceu logo abaixo.
Lorena Amaral.
Franzi a testa.
Amaral?
Alguma coisa naquele sobrenome me incomodou.
Digitei o nome no celular.
A internet carregou algumas imagens.
E aí eu vi.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
— Não pode ser...
Ampliei a foto.
Era uma mulher linda.
Loira.
Sorriso perfeito.
Corpo escultural.
Mas não foi isso que chamou minha atenção.
Foi quem estava ao lado dela.
Delegado Amaral.
Na mesma hora senti o sangue esquentar.
Aquele desgraçado.
O homem que eu odiava com todas as minhas forças.
O homem que tirou o VN da minha frente.
Ainda conseguia lembrar daquela cena.
Do estampido.
Do corpo caindo.
Da impotência.
Fechei a galeria do celular antes que a raiva tomasse conta de vez.
Então a esposa dele estava vindo para o Vidigal.
Justamente para o meu território.
Olhei novamente a foto de Lorena.
Alguma coisa não fazia sentido.
Por que a mulher de um delegado escolheria morar ali?
Especialmente naquele lugar.
Sozinha?
Com filhos?
Com escolta?
Era informação demais sem resposta.
E quando alguma coisa não fazia sentido, eu investigava.
Peguei o rádio.
— Atenção geral. Quero todo mundo na base em cinco minutos.
A resposta veio quase instantaneamente.
— Copiado.
— Na escuta.
— Tô chegando.
Guardei o celular e fiquei observando a foto mais uma vez.
Cinco minutos depois a movimentação começou.
Um a um, meus homens entraram no salão principal.
Alguns sentaram.
Outros ficaram em pé.
Todos esperando.
Quando o último chegou, levantei o aparelho e joguei a imagem para a televisão.
A foto de Lorena apareceu na tela.
Um silêncio tomou conta do ambiente.
Alguns assobiaram.
Outros trocaram olhares.
Eu permaneci sério.
— Prestem atenção.
Todos voltaram os olhos para mim.
— Essa mulher se chama Lorena Amaral.
O nome provocou murmúrios imediatos.
— Amaral? — alguém perguntou.
Assenti.
— Mulher do delegado.
O silêncio voltou.
Muito mais pesado dessa vez.
— Quero todo mundo ligado. Não façam contato desnecessário. Não quero gracinha, não quero curiosidade e muito menos erro.
Cruzei os braços.
— Se ela veio pra cá por trabalho, beleza. Mas se tiver qualquer coisa relacionada ao marido dela, eu quero saber antes de todo mundo.
Os homens concordaram.
Ninguém discutiu.
Ninguém questionou.
Porque todos ali lembravam do VN.
Todos.
A reunião terminou poucos minutos depois.
Aos poucos eles foram saindo.
Até que fiquei sozinho.
Mais uma vez.
Voltei para a varanda.
A noite continuava bonita.
A favela continuava iluminada.
Mas agora minha paz tinha ido embora.
Peguei o celular.
Sem perceber, abri novamente a foto de Lorena.
Fiquei encarando a imagem por alguns segundos.
Bonita.
Bonita demais.
Soltei um suspiro.
Problema.
Aquela mulher tinha toda cara de problema.
E alguma coisa me dizia que aquela história estava só começando.