CAPÍTULO 8

1363 Palavras
AIDEN FOX Acordei antes do sol, não que eu tivesse dormido muito, ainda sentia o cheiro de shampoo dela na minha memória, e não era algo que eu queria lembrar, mas estava lá, grudado como maldição. A visão daquele corpo nu, me deixou tão perturbado, que penso nisso a cada instante, não devia, mas penso, vou fazer algo com relação a isso? Sim, vou, me manter o mais longe possível desta menina, que além de nova na idade, é nova na mente, mesmo que aquilo fosse realmente adorável, seu jeitinho é encantador, seu sorriso sempre constante ilumina tudo, seus olhos brilham tanto que parecem diamantes... Porra, Aiden, de novo pensando nela assim! Grito mentalmente para mim mesmo de novo, estou fazendo muito isso ultimamente. Vesti a camisa preta, colete tático por baixo, pistola no coldre. O dia ia ser longo. E a partir de hoje, ninguém ia entrar, sair ou respirar nessa casa sem eu saber. No corredor, dois seguranças me esperavam, passei instruções rápidas, curtas, como sempre. — Perímetro externo, quatro homens fixos, dois móveis. Ponto cego na ala leste, câmera nova em menos de uma hora. E todo pacote, seja carta ou caixa, passa pelo raio-x portátil antes de entrar. Eles assentiram. Não era um pedido, era uma ordem. Desci para a sala de controle, no monitor, as câmeras ainda tinham ângulos mortos. Eu mesmo ajustei as configurações, reposicionei duas, adicionei mais uma no portão lateral. Troquei códigos, criei novas rotinas de verificação a cada trinta minutos. Ninguém vai encostar na Lívia. Não no meu turno. Quando terminei, fui até o dormitório dos funcionários, bati a porta de um deles para chamar atenção, o mais novo estava com cara de ressaca. — Isso aqui não é hotel. — Olhei fixo pra ele. — Quem não estiver disposto a trabalhar sob meu comando, peça pra sair agora. O garoto engoliu seco e fez que sim com a cabeça. Bom. Não tolero indisciplina sob meu comando, nunca. Saí dali e fui direto até o escritório do Rubens. Precisava discutir algumas investigações paralelas, algo que a polícia não conseguiria fazer com a mesma… liberdade que eu tinha. Mas quando abri a porta, vi dois uniformes azuis sentados diante dele. Policiais. Rubens estava sério, os dedos tamborilando sobre a mesa. — O que está acontecendo? — perguntei, entrando sem pedir licença. Rubens soltou o ar devagar. — Estou com medo, Aiden. Muito medo. A Lívia é minha única filha. Eu não vou perdê-la. — O senhor não vai. — Minha voz saiu firme. — Estou cuidando de tudo. — Agora a polícia também vai cuidar. — Ele olhou para mim de um jeito que deixava claro que era decisão final. — Sei que é competente, por isso praticamente te implorei para aceitar o serviço, mas a Lívia, é tudo para mim, eu não quero mais correr nehum risco. Eu não gostei. Não porque não confiasse em alguns deles, mas porque quando muita gente se mete, informações vazam. E nesse jogo, informação vazada significa alvo mais fácil, mas engoli a contrariedade. — Entendido. Conversei pouco com os policiais. Eles estavam ali para “dar suporte”, ou seja, ficar no caminho. Assim que saí da sala, meu estômago lembrou que não via comida desde ontem. Fui para a cozinha. E foi aí que vi ela. Sentada numa das bancadas, cabelo ainda meio bagunçado, camiseta larga que caía por um ombro, pernas dobradas como se fosse dona do lugar e realmente era, a princesinha da casa, a peincesa que ama panda, quase ri ao ver a estampa de panda na camiseta dela. Ao me ver, fez um movimento rápido, escondendo algo atrás do corpo. Meu instinto falou mais alto, essa menina não está fazendo o que acho, em todas as minhas prestações de seguranças, a maioria dos protegidos, eram mimados, usuários de drogas, e achei que Lívia fosse diferente, mas pelo visto não. — O que você está escondendo? — Nada. — Respondeu rápido demais, com os olhos arregalados, as bochechas vermelhas, tão linda, que quase me desconcentra. — Lívia. — Dei dois passos, a voz carregada de aviso. — Mostra. Agora. Ela franziu o nariz. — Não é da sua conta, você não manda na Liv, gigantão rabugento. — Eu sou seu segurança. Tudo que você faz é da minha conta. — Isso é abuso de poder, senhor Aiden Fox, chato. — ela mostra a língua para mim. Revirei os olhos. — Não existe abuso de poder quando a minha função é impedir que você morra. Ela estreitou os olhos, desafiando. — Então você acha que o que a Liv tem aqui é uma arma? Que vou atirar em mim mesma? — Ou droga. — Falei sem pensar muito. O silêncio caiu pesado. Ela piscou, devagar, e então arregalou os olhos como se eu tivesse acabado de insultar três gerações da família dela. — Você acha que EU…? — A voz dela subiu. — Você enlouqueceu, feioso, a Liv, não usa essas coisas feias, a Liv é uma princesa. — Então me mostra. Pessoas como você, só sabem fazer merda sem se preocupar com as consequências, me mostra, agora. — Não! Avancei e segurei o pulso dela, puxando sem força, só o bastante para revelar o que ela escondia. E então eu vi. Um copo infantil. Cheio de leite. Com… dezenas de pandas sorridentes estampados. Eu encarei aquilo. Ela me encarou. E aí, do nada, o copo voou na minha direção. O leite acertou minha camisa, desceu pelo colete, e eu fiquei ali, com a pistola no coldre e cheiro de leite fresco no corpo. — Você está maluca? — Eu não queria que você me visse com esse copo! — Ela gritou, o rosto corado, não sei se de vergonha ou raiva. — Por que diabos? — Porque… porque é meu copo especial, tá?! É de criança! E você ia zoar, ou achar ridículo! Eu respirei fundo, sentindo a paciência escorrer pelo chão junto com o leite. — Eu não ligo pro copo, não ligo para nada do que faz, que não te coloque em risco. — Mas eu ligo! — Ela cruzou os braços, ainda sentada na bancada, agora com os olhos marejados. — Não quero que você saiba dessas coisas! — Eu já sei que você tem uma coleção de pelúcias que parece um zoológico inteiro, acha que um copo vai piorar minha opinião? — Eu não coleciono pelúcias, são meus amigos. — Amigos. Certo. — Passei a mão no rosto. — Lívia, isso não é um interrogatório. Eu só quero saber o que você esconde, porque esconder coisas pode te colocar em risco. — Não é perigoso beber leite! — Ela rebateu, jogando as pernas para frente como se tivesse vencido uma discussão. — Perigoso não, mas infantil sim. — Viu? — Ela apontou. — Você tá zombando! — Eu não estou zombando. — Mas a verdade é que talvez tivesse um traço de ironia na minha voz. Ela bufou, saltou da bancada e passou por mim com um ombro firme, como se quisesse empurrar o mundo. — Vai proteger outra pessoa, Aiden. Eu não preciso de babá! Ainda mais uma que acha que a Liv, usa coisas feias. Virei para segui-la. — Eu não sou sua babá. Sou a única coisa entre você e alguém que quer te matar. Ela parou na porta, me olhando de lado. — E eu não me importo, sai da vida da Liv. — Eu vou sair, Lívia Trajano, assim que te deixar segura, vou embora e assim nos darmos paz, um ao outro. — Pode ir, deixa o Fletcher, eu gosto mais dele. Aquilo me atingiu de uma forma que não sei explicar, só sei que não gostei, não mesmo. — E quem disse que ele gosta de você, ele só está fazendo o trabalho, assim como eu. — Pelo menos, ele não fica brigando com a Liv, nem achando que a Liv, é uma drogadona. Ela virou as costas e saiu. Fiquei sozinho na cozinha, com leite escorrendo pela camisa, pensando que, de todas as missões que já tive na vida… essa era a mais perigosa. E não era por causa das balas.
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