Betão narrando
Se é pra falar de mim, então vamo falar direito, José Roberto é o nome de batismo, mas ninguém me chama assim desde muleque. No corre, sou Betão, dono de vários morros, chefe do Comando, 34 anos bem vividos, sou loiro, olhos azuis, 1,80 de altura, e carrego mais tatuagem na pele do que história pra contar, há seis eu tô trancado nessa jaula de segurança máxima. Cadeia de verdade, daquelas que o sistema fala que ninguém manda, mas quem comanda sou eu.
Caí num flagrante armado, mas foi só o estopim. Já tinha acerto meu em três homicídio, dois assalto pesado a carro-forte e uma pá de tráfico interestadual. Os cana juntou tudo num dossiê só. Peguei trinta e quatro anos no fechado, Três quatro, meu parceiro. Mas quem é cria sabe que lei tem brech@, e brech@ é trampolim pra quem sabe pular. Tô de olho no bom comportamento, nessas paradas de progressão.
Eu não caí porque fui burro. Caí porque tinha traíra na contenção. Alguém que vendeu informação por migalha, Já sei quem foi, já tá debaixo da terra. Aqui, cagueta não respira muito tempo, Eu tô na contenção da grade, mas minha visão vai mais longe que luneta.
Sabe como é, né? O sistema gosta de dizer que bandido bom é bandido morto. Mas quando chega aqui, os agente bate continência é pra mim. Tudo no bolso do Comando. Cê acha que general anda sem tropa? Eu tô preso, mas minha caneta ainda assina ordem.
Celinha é diferenciada, TV, frigobar, comida boa, Quando dá vontade de churrasco, desce contrabando. Eu fumo só do bom, os moleque que tão comigo aqui também, Respeito é base, e aqui dentro eu sou a base da porr@ toda.
A ordem parte daqui, Quer guerra no morro? Liga pra mim. Quer paz? Liga também, Não se faz nada sem eu saber. Tenho rádio, tenho acesso, tenho fiel comigo aqui e lá fora.
Engraçado que tem neguinho que pensa que porque eu tô preso enfraqueci, É o contrário. A cadeia me deixou mais forte, mais frio, mais calculista. A diferença é que agora eu tenho tempo pra pensar. Tempo pra entender quem é de verdade e quem é vacilão.
E por falar em vacilão, tem um nome que me dói falar. Meu sobrinho, O Saci, Moleque cresceu me vendo comandar, sabia da responsa, sabia da linhagem. Mas escolheu ser otári0. Se vendeu barato, quis fazer o nome nas minhas costas.
Com esse aí, eu vou me acertar. Olho no olho. Já falei pro advogado.
Advogado: Deixa. Não mexe com isso agora.
Tô esperando a hora, E eu tô. Porque eu sou paciente, Cada dia aqui é um preparo. Quando eu sair, vai ter acerto.
Advogado: Betão, já falei, irmão, Fica de boa, Já puxou seis. Tem margem. O juiz já viu teu nome três vez na conduta. Continua nessa linha que vai sair. Tá ligado na Lei, né? Um terço no fechado, depois vai pro semi.
Betão: Tô ligado, doutor, Só que minha cabeça ferve. Ver os moleque fazer merd@ e saber que minha mão não tá lá pra corrigir - Falei, segurando a raiva.
Mas eu espero, Porque eu sou diferente, Eu sou cria de raiz, não esses de modinha que cresce em baile e morre com post no Insta.gram.
Lá fora, o Comando tá com os irmão certo, Cada morro com seu gerente, mas todo mundo sabe quem é o patrão. E quando alguém pisa, vem ordem daqui. Eu mando matar com uma ligação, Mando parar guerra com um bilhete, Tem juiz que treme com meu nome, promotor que muda de rota, e policial que pede benção.
Sabe qual foi a última? Moleque novo quis comprar o morro do Teteu. Se meteu onde não devia. Dei ordem. “Desaparece com ele.” Em três dias, nem o chinelo acharam, Esse é o peso do meu nome.
E eu não me vanglorio, Só deixo claro. O crime tem regra, tem hierarquia. Se você quebra, paga. E se pagar não for suficiente, desaparece.
Mas também sei reconhecer quem é de verdade. Tem uns parceiro lá fora que tão fazendo o corre como eu ensinei. Tem menino virando homem, mulher virando chefe, e tudo mantendo o nome da firma limpo.
Minha filha, por exemplo, tá com a mãe em outro estado, Eu não vejo faz três anos, mas pago tudo. Escola, comida, roupa, segurança, Ela não vai seguir meu caminho. Esse mundo aqui é pra quem não teve escolha. Eu tive, mas escolhi essa vida. Ela não vai precisar.
Às vezes eu penso no dia que vou sair. Imagino o portão abrindo, o vento batendo na cara, o barulho da favela me recebendo. Vai ser o dia do acerto, Não só com o Saci, mas com todo mundo que pensou que eu enfraqueci.
E eu vou sair, Certeza, Advogado tá com tudo encaminhado. Conduta exemplar, sem briga, sem confusão. Só no rádio, só no bilhete, só na mente.
Agente : E aí, patrão, tá precisando de mais gelo pro uísque?
Betão: Só se for do importado, parceiro. Aqui a gente não baixa o nível, nem trancado - Dei aquela risada, monstruosa.
Essa cadeia não me prendeu, Só me deu tempo, Tempo pra pensar, pra organizar, pra observar quem vai comigo até o fim.
E quando eu sair, vai ser outro capítulo, Outra história, Mais pesada.
O sol bate no concreto do pátio como se quisesse fritar a mente da gente. Mas eu nem reclamo. Esse calor me lembra da rua, da laje quente, do cheiro da pólvora e da fumaça subindo depois do corre bem feito. Aqui dentro, o banho de sol é mais do que lazer é território. Cada canto tem dono, cada sombra tem peso. Mas onde eu sento, ninguém ousa dividir espaço, A sombra é minha, O banco é meu, O respeito também.
O cimento onde eu fico tem meu nome cravado,"Betão, 157 eterno" entalhado na raça por um parceiro que já nem respira mais. Morreu jurando lealdade, E lealdade é tudo aqui dentro. Quem não tem, não dura, Quem trai, não volta pro pátio.
Eu fico calado, puxando um cigarro artesanal enrolado na mão mesmo, com seda da boa. A fumaça sobe lenta, igual meu pensamento. Tudo que eu faço é pensado, Nunca fui de agir no calor do momento, O vacilão age no impulso. O chefe observa.
Meus cria tão sempre por perto. Tucano cola em mim desde a época da Rocinha, Moleque ligeiro, visão boa. Já salvou minha pele mais de uma vez, Dandão é das antigas, frio, calculista. Cuida da movimentação dos agente, da faxina, que é código pra dizer, ele faz a engrenagem girar sem barulho. Esses são os dois que eu olho e confio. O resto, eu só tolero.