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Evelyn narrando
Meu nome é Evelyn, tenho 19 anos, Sou magra, tenho 1, 65 de altura, cabelos cacheados, no momento ele está meio ruivos. Mas já tive todas as cores que vocês imaginarem. Já pintei meu cabelo de azul, Rosa, roxo.
Nasci e cresci na Rocinha, o atual dono do Morro é o Saci, ele é sobrinho do chefe do comando. O Betão, esse aí tá na jaula e disseram que ele não vai sair nunca.
Desde muito nova aprendi que a vida não é justa, Eu era só uma criança quando tudo começou a desandar. Meu pai morreu quando eu tinha onze anos, Lembro do cheiro da roupa dele, do jeito como ele me chamava de "minha pequena", e do sorriso cansado depois de um dia inteiro ralando pra me dar o mínimo. Ele fazia de tudo por mim. Era pedreiro, eletricista, encanador, o que aparecesse ele fazia. Só pra não deixar faltar o pão em casa.
Minha mãe eu nem conheci. Morreu no parto quando nasci, meu nascimento foi a morte dela. E sabe o que é crescer achando que você matou sua própria mãe sem querer? Eu cresci assim, Sem saber o que era um colo de mãe, sem saber o que era carinho de mulher.
A única mulher que eu tive na minha vida foi minha madrinha, Ela era amiga do meu pai desde antes de eu nascer. Muitas das vezes eu via ela saindo do quarto dele, ajeitando a roupa, era criança demais para entender isso. Foi ela que ajudou ele a me criar, Era ela que fazia minha trança pra ir pra escola, que comprava meu material, que dava bronca quando eu bagunçava, Era como se fosse uma segunda mãe, mas mesmo assim, não é a mesma coisa. Aquele afeto de mãe, nunca tive.
Meu irmão, o Vinícius, ele era meu herói. Nove anos mais velho que eu, ele entrou pro tráfico cedo, mas fazia tudo por mim. Me levava pra escola, fazia meu prato, comprava minhas coisas com o dinheiro sujo que ganhava, mas era o único jeito que ele achava de me dar alguma coisa melhor. Eu nunca julguei ele, Pra mim, ele era só meu irmão, Meu protetor.
Mas tudo desmoronou numa noite. Eu tinha quinze anos. Tava deitada debaixo da cama, ouvindo os tiros, como já tinha ouvido tantas vezes. Só que dessa vez foi diferente. Era o Bope, Vieram com tudo, Subiram o morro pra matar. Não teve conversa. E foi nessa noite que meu irmão morreu.
Enterrar meu pai foi difícil, Mas enterrar meu irmão, foi como se tivessem arrancado um pedaço de mim. Eu fiquei vazia, fiquei sem chão, Não tinha mais ninguém, Só minha madrinha.
Depois disso, eu fiquei perdida, Me sentia sozinha, vulnerável, assustada. Foi aí que o Saci apareceu. O dono do morro, Começou a se aproximar, trazer comida, presente, conversar comigo.
Saci: Qualquer coisa que tu precisar, Evelyn, fala comigo, Tua família agora sou eu, Viny era da família.
Eu acreditei, E foi meu erro, Me deixei levar. Era um homem mais velho, respeitado, todo mundo tinha medo dele. E eu era só uma menina carente querendo sentir que tinha alguém por mim. Acabei me envolvendo, Me entreguei, Achei que finalmente tinha encontrado alguém que ia cuidar de mim.
Mas passou três meses e tudo mudou, Ele se mostrou um monstro. Começou com gritos, depois empurrão, depois tapa na cara. Quando eu vi, tava morando com um cara que me batia, me humilhava e ainda ficava com outras na minha frente.
Evelyn: Saci, eu não aguento mais isso.
Saci: Cala essa boca antes que eu te faça engolir os dentes, Tu é minha, ouviu? MINHA!
E eu fiquei, Não por amor, Mas por medo, Medo de apanhar, medo de morrer. Porque eu sei do que ele é capaz, Já vi ele matar gente só por olhar torto.
Vivo hoje como prisioneira, Trancada numa casa que parece uma cela. Não posso sair sem ele saber, não posso vestir o que eu quero, falar com quem eu quero, Nem minha madrinha eu vejo mais direito. Ele me afastou de tudo e de todos.
E o pi0r é que ninguém tem coragem de enfrentar ele. Todo mundo sabe como o Saci é, Mas ninguém fala, ninguém mete a cara. Porque quem enfrenta, morre.
Às vezes eu me olho no espelho e nem me reconheço. Eu era uma menina alegre, cheia de sonhos. Queria fazer um curso, trabalhar, quem sabe até ser enfermeira, Meu irmão dizia que eu podia ser o que quisesse. Hoje só sou o que sobrou de mim.
Mas uma coisa eu tenho, fé. Todos os dias eu rezo. Rezo mesmo.
Pra alguém aparecer e acabar com o Saci, Fazer com ele o que fizeram com meu irmão, Eu rezo por isso. Não quero mais viver com medo.
Queria ter coragem pra fazer isso eu mesma, Mas não tenho.
Se eu falar que quero ir embora, ele me mata, Se eu tentar fugir, ele manda me buscar. E se eu contar pra alguém, ninguém vai me ajudar.
Tem dias que eu penso em sumir. Me esconder em outro estado, mudar de nome, desaparecer. Mas ele sempre diz.
Saci: Pode tentar fugir, Evelyn. Mas eu vou te achar, E quem te ajudar, morre também.
Então eu fico, Engolindo o choro, segurando a dor, esperando que algum dia esse inferno acabe. Não sei como, Não sei quando,Mas eu espero.
Acho que o que me mantém viva é minha madrinha. De vez em quando ela aparece com um abraço, um olhar que diz “eu sei que você não tá bem”.
Madrinha: Você não merece essa vida, minha filha. Mas eu não posso fazer nada sem te colocar em risco.
Eu sei que ela me ama, E isso me dá um pouco de força. Mas é pouco. Muito pouco.
Essa é minha vida. Essa sou eu, órfã de pai e mãe, sem irmão, sem liberdade, vivendo com um homem que me faz sentir menos do que lixo.
Mas com um coração que ainda bate. E que, mesmo todo machucado, ainda sonha com o dia em que vai respirar em paz, e até esse dia chegar, eu rezo.
Eu rezo pra que alguém tenha coragem de fazer o que eu não consigo.