Seis

1388 Palavras
Evelyn narrando Eu não tô aguentando mais o Saci, Ele tá cada vez pior, agora apareceu com uma amante nova e tudo indica que é a tal da Suelen. Dizem que ela anda batendo tudo que sabe do Betão direto pra ele. E eu acredito, porque ela é uma das marmitas que vai fazer visita íntima no presídio. Não sei ao certo quantas são, mas sei que ela é uma delas. Tá sempre se metendo com os de frente. Hoje foi dia de fazer as compras no supermercado. Minha madrinha sempre me encontra por lá porque os meninos avisam quando me veem chegando. Dois deles me ajudam, o Corado e o Dudu. Enquanto eu tava pegando as frutas, a Suelen passou por mim com a irmã dela, se achando. Começou a soltar gracinha, falando alto o bastante pra eu ouvir, mas fingindo que era conversa entre elas. Suelen: Tem mulher que acha que manda no pedaço, mas nem sabe que é só chifre e vergonha que carrega. A irmã dela riu, e eu respirei fundo. Tentei ignorar, juro. Mas ela continuou. Suelen: Chifruda horrorosa, se arruma pra ficar em casa igual uma prisioneira. Que dó. Parecia que meu sangue ferveu, Parei bem na frente dela e encarei sem medo. Evelyn: Tá falando de mim? Fala logo na minha cara, vaca. Suelen: “h, olha aí, tocada, Se fosse alguma coisa mesmo, o marido não tava procurando mulher na rua, né? Eu engoli seco. Porque, no fundo, ela tava certa. Mas engolir verdade da boca de piranh@ nenhuma é fácil. Ainda mais sendo Suelen. Eu não ia baixar minha guarda. Evelyn: Tu só é mais uma marmita m@l comida, Vive se oferecendo, só tem valor entre as grades. Ela se transformou. Veio pra cima de mim sem pensar duas vezes, e a gente se embolou ali mesmo, no meio do supermercado. Tapa, puxão, grito, tudo. Suelen: Tua falsa moral não segura homem nenhum. Evelyn: E tu acha que segura quem, sendo ração de cadeia? Foi feio. As pessoas começaram a gritar, os seguranças chegaram perdidos, e foram os vapores que apartaram a briga. O Corado me puxou pro lado e o Dudu ficou entre a gente. Corado: Pelo amor de Deus, Evelyn, larga isso! Tu vai sair perdendo. Dudu: Suelen, vai cuidar da tua vida, vai, Tu quer guerra onde não tem. Eu saí de lá tremendo. Com raiva, com vergonha, com tudo. Não aguento mais viver desse jeito. Me sinto humilhada até quando vou comprar comida. E saber que o Saci tá por aí se divertindo com essa aí enquanto eu me monto toda pra ele, já me dá nojo. Cada dia que passa, me sinto menos eu. Não demorou nada. Nem duas horas depois da confusão no mercado, o Saci chegou em casa fervendo. Nem precisou dizer nada, só de olhar na cara dele eu já sabia que tinha dado r**m. Alguém, provavelmente a própria Suelen, correu pra contar pra ele. E como sempre, ele não quis saber de lado nenhum, só queria me esmagar com a raiva dele. Ele entrou chutando a porta. Saci: Tu tá pensando que é quem pra sair batendo boca na rua, vagabund@? Eu respirei fundo, mas já tava com o sangue quente também. Tava cansada de engolir tudo calada. Evelyn: Ela que começou. Tu quer saber mesmo? Ela me chamou de chifruda na frente de todo mundo, Eu não sou de ferro não. Ele me encarou, os olhos cheios de ódio, Deu um passo pra frente. Saci: E tu me peitou? Tu me desmoralizou no meio da favela por causa de piranh@? Tu quer virar exemplo é? Evelyn: Exemplo é tu me trancar em casa e sair com qualquer uma, Eu cansei dessa palhaçada, Saci. Eu sabia que tinha passado do ponto, mas já não me importava mais. O problema é que ele também não pensou duas vezes. Veio seco, A primeira tapa estalou no meu rosto e me desequilibrou. Bati no armário da cozinha com o ombro. Quando olhei pra ele, ainda zonza, já veio o segundo soco, direto na barriga. Caí de joelhos, tentando puxar o ar. Ele me puxou pelos cabelos, me levantou à força e me arrastou até a sala, me jogou no sofá. Saci: Tu vai aprender a respeitar, sua idiot@. Me bateu com a mão, com o cinto que arrancou da própria calça, com tudo. Eu só me encolhia, tentava proteger o rosto, mas ele não parava. Xingava, gritava, me chamava de tudo. Cada palavra vinha junto de um golpe. Senti o gosto do sangue na boca, o braço doendo de tanto tentar me defender. Quando tentei levantar pra correr pro quarto, ele me puxou de volta pela blusa, me jogou no chão e pisou no meu peito pra me segurar. Saci: Tu é minha, Não esquece nunca isso. E se tu abrir essa boca de novo na rua, eu te quebro de um jeito que nem tua madrinha vai te reconhecer. Depois disso, saiu como se nada tivesse acontecido. Bateu a porta, e eu fiquei ali, no chão, toda dolorida, tremendo, chorando baixo. Me sentia suja, fraca, destruída. Não sei por quanto tempo fiquei ali, sem conseguir levantar. Cada dia com ele é mais medo, mais dor. E eu só queria sumir, desaparecer, fugir de tudo isso. Eu tava me levantando quando Corado entrou na Sala, com as compras que eu deixei no carrinho. Corado: Evelyn? Ele me ajudou a levantar, me sentou no sofá e foi pegar água pra mim, enquanto eu só sabia chorar, toda machucada. Corado: Pô, por que tu não vai trocar ideia com o Betão, mano? Tu fica nessa porr@ aí, o Saci vai acabar te matando na porrada. Evelyn: Dá um help, Corado, preciso colar no presídio pra ver o Betão. Falei, mas não sei como, já que sou vigiada 24 horas por dia. Subi pro quarto cambaleando, sentindo cada dor do corpo. Minha costela doía, o rosto ardia, e eu m@l conseguia abrir o olho direito. Me olhei no espelho e foi pior ainda, parecia outra pessoa. Cabelo desgrenhado, boca cortada, olho inchado. Tava destruída. Liguei o chuveiro e deixei a água cair quente nas costas. Quente mesmo, daquelas que quase queimam a pele, mas eu nem sentia. Era como se o corpo tivesse anestesiado. Só queria apagar aquela sujeira, aquele nojo que ele me deixou. Fiquei ali um tempão, sentada no chão do box, com a cabeça encostada no azulejo, sentindo a água correr e tentando me esvaziar de tudo. Quando finalmente saí do banho, vesti um short velho e uma blusa larga. Me joguei na cama com o cabelo pingando e chorei. Chorei até não aguentar mais, até o corpo cansar e eu acabar dormindo. Acordei com um susto, A porta do quarto abriu com força e a voz dele veio cortando o silêncio. Saci: Levanta e vai fazer a janta, Tô com fome. Tentei entender que horas eram, mas lá fora já tava escuro. Me sentei na cama devagar, sentindo o corpo reclamar de cada movimento. Mas foi o que ele falou depois que me gelou o sangue. Saci: Os caras do Betão vieram atrás da tua madrinha hoje ela falou demais, teve coragem de me ameaçar, ninguém me ameaça e fica Por isso mesmo. Meu coração quase parou, Olhei pra ele com o olho arregalado, engoli seco e perguntei com a voz trêmula. Evelyn: Minha madrinha, o que aconteceu com ela? Onde ela tá? Ele só me olhou com aquele jeito frio, de quem sabe que tem teu mundo na mão. Saci: Não sei. Só sei que se tu e ela não ficarem bem quietinhas, vai sobrar pra todo mundo, Fica esperta. Aquela hora minha cabeça girou. Minhas pernas amoleceram de novo. Senti uma mistura de medo e ódio que me consumiu inteira, Como é que ele pode? Como é que tem coragem de envolver a única pessoa que me protege? Fiquei ali parada, olhando pra ele com uma raiva que nunca tinha sentido antes. Não falei nada, Só pensei em como minha vida virou esse inferno. Um relacionamento que não tem amor, só prisão. Um homem que me cerca, me bate, mente, engana, mata, e ainda quer me fazer acreditar que é por amor, Que ódio desse desgraçado, agora mais do que nunca, tenho que dar um jeito de ver o Betão.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR