- Eu não vou deixar a Sara sozinha aqui! O que você tem na cabeça?
- O que eu tenho na cabeça? Sério, Ander?! O que você tinha na cabeça quando começou essa m***a toda?!
Anderson está furioso, anda de um lado para o outro dentro da sala de seu superior e amigo, o major Santos.
- Olha, cara. Foi o melhor que eu consegui. Era isso ou rua. Você deveria ficar grato por isso, eu tive que discordar de uma ordem do meu superior pra te ajudar.
- Eu sei, velho! Me desculpa. Eu só... não sei o que fazer. A Sara não responde mais aos estímulos, estão realizando outros exames e, ao que tudo indica, vão sugerir o desligamento.
- Eu sinto muito cara. Por que você não me falou sobre isso?
- Eu precisava ficar sozinho. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. As vezes penso que deveria ser eu no lugar da Sara. Ela não merecia isso.
- Não fala bobagem. Ninguém merece isso. Fica em paz cara. Nada disso foi sua culpa. Foi uma fatalidade.
- Eu nem consigo voltar para casa mais.
- Onde você está ficando?
- No meu antigo apartamento. Tá pra venda, mas ninguém interessado ainda.
- Por que vai vender ele?
- O contrato de aluguel venceu e não renovaram. Tá difícil alugar lá, não é bem localizado. E eu preciso desse dinheiro.
- Mas se você não consegue ficar no apartamento de vocês, por que não aluga ele então?
- Não posso fazer isso. Tem muito da Sara lá. Tem muito de nós, dos nossos sonhos.
- Ander, pensa bem. Se você olhar isso com outros olhos, vai ver que não é algo tão r**m. Pode ser um recomeço pra você. Longe das lembranças. Assim você se mantém ocupado e não foca na dor.
- Por que estamos falando como se ela já estivesse morta?
Anderson olha para o amigo, se senta e começa a chorar. O major se aproxima e o conforta com um abraço.
- Eu não sei se tenho muitas opções, só não consigo pensar nesse momento. Estou com uma divida enorme no hospital, e com esses exames só vai aumentar. Eu preciso, mais do que nunca desse emprego. Não so pelo dinheiro, mas por que isso aqui é minha vida, é tudo que eu tenho, tudo que me resta agora. Sei que se a Sara pudesse, ela diria para eu aceitar.
- Você já fez isso antes, você é bom. Quando sugeri isso ao coronel ele topou na hora. Só me pediu para te manter bem longe do caminho do tenente, por ele está com muita raiva de você.
- Eu vou aceitar essa missão. Vou derrubar essa quadrilha de desgraçados e vou desmanchar essa teia. Vou provar que estou certo sobre esse cara. Vou derrubar o esquema desses bandidos aqui dentro.
- É isso aí! Assim que se fala. Esse é o Anderson casca grossa que conheço!
Lorena
- Eu não aguento mais ver essas matérias sensacionalistas nesses sites e páginas de fofoca!
- Filha, a vida pública é isso. Agora vão tentar te derrubar de todas as formas. Você não pode deixar se a****r por isso. Nem deve ficar olhando essas notícias, na verdade.
Lorena tem se saído definitivamente muito bem em campanha. Ja consegue arrastar multidões para a rua em prol de sua campanha política. Tem apoio total de sua comunidade e sua popularidade vem crescendo a cada dia. Nas pesquisas, é um dos nomes que vem liderando. O chefe do Tráfico fez tudo como havia dito. Com a ajuda de todos os poderosos envolvidos na corrupção, conseguiu que fosse aprovada uma nova lei, cujo as cláusulas foram criadas exatamente para favorecer Lorena e sua candidatura, assim feito, ela não estava mais inelegível e pode concorrer ao cargo de senadora, e se eleita, poderá assumir sem nenhum problema legal.
De início ela se manteve relutante em aceitar, sabia que era errado, não queria se afundar mais nesse mundo, mas quanto mais o tempo passava, mais ela sentia que não havia uma forma de sair dessa teia, era como uma areia movediça, quanto mais ela se movia, mais presa a isso ficava. Mas, com o tempo, ela passou a não achar tão r**m a ideia. Estava conseguindo ajudar mais pessoas, estava ampliando seus contatos. Conseguiria sair do olho do furacão. Teria mais recursos e contatos para ir em busca de saber o que houve com sua filha. Ela estava aceitando seu destino, estava começando a gostar de tudo que o poder pode proporcionar.
Houve uma reunião com aliados de Brasília e Lorena precisaria estar presente. Nessa reunião discutiriam assuntos muito importantes. Ela não queria ir, ainda tinha muito medo de sair em público, e desta vez, teria que ir sem seu pai, mas o chefe lhe garantiu segurança. Falou sobre um acordo de trégua com a facção rival, pois o que estava por vir beneficiária ambos os lados. Durante a reunião, um dos candidatos apontou Lorena como inapta para estar em tal lugar, a chamando de bandida na frente de todos que estavam presentes. Houve uma grande discussão, alguns a favor, alguns contra e os que se mantinham em cima do muro. Lorena saiu da reunião muito estressada. Definitivamente, aquilo não era o que ela queria. Sentia que nunca pertenceria a esse mundo. Quando chegou ao hotel em que estavam hospedados, pediu a seus seguranças que a deixassem sozinha. E assim, quando eles se descuidaram, a moça saiu sozinha pelas ruas. Ela estava triste, nervosa com a situação e tudo que teve que ouvir lá. E tinham mais as notícias que circulavam pela internet. Tudo isso era um gatilho para a ruiva, a lembrava de tudo que passou, de toda dor que sentiu. Caminhando sem rumo pelas ruas, avistou um bar que parecia estar meio vazio. Entrou e pediu uma dose de uísque. Ela só precisava relaxar e esquecer de tudo um pouco. Quando pediu sua segunda dose, sentada no balcão do bar, viu que um homem sentou ao seu lado. Ela o olhou e ele não olhava na direção dela, então ela deu uma pequena distância dele e continuou tomando seu uísque.
- Me trás algo bem forte, por favor. O que você tiver aí de mais forte mesmo! (Disse o estranho ao lado de Lorena)
- Dia r**m? (Disse o garçom)
- Péssimo! (Respondeu ele)
Os dois permaneceram calados enquanto tomavam suas bebidas. Quando foi sair, já meio tonta, Lorena enroscou seu salto no banco e só não caiu por que o estranho a segurou.
- Obrigada. Acho Que já estou meio tonta.
- Precisa de ajuda?
- Não sei se você está muito melhor do que eu (riso discreto)
- Não, definitivamente não estou. Ia sugerir que o garçom te ajudasse. (Os dois riram)
- Obrigada, consigo chegar até o hotel, é perto e não estou dirigindo. ( a moça senta novamente e, cruzando as pernas, tira suas sandálias) mas preciso ir sem isso. (Brincou ela, rindo)
- O asfalto está quente, vai queimar seus pés. Tá um sol de rachar lá fora.
- Tenho um chinelo aqui, se quiser... trago para usar na madrugada. Vai ficar meio grande, mas vai evitar a queimadura. (Disse gentilmente o garçom).
- Eu aceito. Vou pedir para alguém te entregar mais tarde.
- Hoje fechamos mais cedo. (Olhou para o relógio) mais especificamente, daqui a uma hora.
- Quantas horas eu passei aqui.
- Umas duas horas, acredito.
- Meu Deus! Devem estar loucos atrás de mim. Preciso mesmo ir. Vou aceitar seu chinelo, te devolvo amanhã então, no mesmo horário estarei aqui.
Lorena pagou a conta e deixou uma bela gorjeta ao garçom, que disse a ela que com essa gorjeta, nem precisaria devolver o chinelo, pois ele poderia comprar muitos com ela.
- Você merece, pela gentileza e cordialidade com que trata os clientes. Até mais para vocês!