O Major Santos conversou com seu superior, o coronel Ramos, a quem praticamente implorou pela permanecia do amigo Anderson na corporação. Como ele era um profissional muito respeitado e querido por todos, o coronel levou em conta seu pedido e cedeu. Porém, colocou como exigência, que Anderson sumisse de vista por um tempo, até a raiva do seu tenente Coronel passar, pois ele não poderia atender ao pedido dos dois, já que um ia contra o outro, mas podia tentar amenizar a situação, se Anderson fosse transferido ou enviado em missão para fora da cidade. Havia um plano de investigação com infiltrados para derrubar o esquema de tráfico e corrupção, porém era um plano extremamente sigiloso, que o major não havia nem comunicado a seus superiores, pela desconfiança que já tinha também pelo tenente coronel. Ele perguntou ao Coronel:
- Vou ver algumas possibilidades e lhe informo das opções, coronel. O senhor tem preferência do que fazer com Anderson?
- Confio em você. Sei que fará o melhor para todos. Por isso, nem me interessa saber ou opinar sobre isso. Só quero que ele suma das vistas do tenente coronel, por que não estou com paciência para briguinhas de quinta série dentro da minha corporação.
- Entendido, Coronel. Agradeço pela compreensão.
A única opção melhor que o major viu, foi enviar o capitão a missão secreta, já que ele era de sua extrema confiança, iria colocá-lo para liderar a investigação.
Anderson de início não queria aceitar, mas como suas únicas opções eram demissão, transferência, ou isso, aceitou. Porém, pediu ao amigo e superior, que lhe desse algum tempo antes de ir, pois a missão era fora do estado, e ele ainda tinha muitas pendências a resolver, pelo estado de Sara.
Ao sair do batalhão, após a conversa com o major, Anderson, que estava esgotado pelas atribulações que vinha passando, resolveu entrar no primeiro bar que viu pelo caminho. Tomou um grande porre e conheceu uma ruiva que o fez lembrar que ainda estava vivo. Sua esposa estava em coma a mais de seis meses, e Anderson, apesar de saber que o quadro dela era irreversível, que se ela sobrevivesse, vegetaria até o fim de sua vida, nunca pensou em outra mulher que não fosse Sara. No fundo, a culpa o consumia, dia após dia. E quanto mais as coisas continuavam do mesmo jeito, mais seu sofrimento era prorrogado.
Anderson continuava vendo Sara todos os dias, em em todos deixava claro a ela que estava tudo bem se ela partisse, no fundo, ele já não tinha mais forças para continuar assim. O estado de Sara só piorava, os sinais vitais eram cada vez mais fracos e ela não respondia a nenhum estímulo por um tempo considerável. Quando ele chegou no quarto de Sara, repetiu suas mesmas ações diárias, que agora, ele já fazia no automático, pois estava exausto. Quando se sentou ao lado dela, sentiu um arrepio pelo corpo e então disse:
- Eu sinto sua presença aqui, Sara. Se encostar meu rosto no seu, até posso ouvir sua voz, ver seu lindo sorriso. Você vai ser sempre o amor da minha vida, não quero que pense que digo para você que está tudo bem por que não me importo mais. Você sempre foi tão próxima de Deus, e ele sabe o quanto eu queria que você acordasse e voltasse para mim, mas não suporto mais ver seu sofrimento aqui. Seu corpo sofre nessa cama, com todos esses aparelhos. Não sei como está sua alma, mas não sinto que esteja em paz, sinto que sua alma também sofre, minha querida, e não quero Isso para você. Você pode partir, meu amor, pode se juntar a nosso filho. Eu ficarei bem, eu te prometo que ficarei. Vou lembrar doa seus conselhos e, sempre que precisar tomar uma decisão, vou pensar em você, conversar com você em meu coração, ou até, aprender a orar, se for necessário, para pedir a Deus que me deixe falar com você, caso nossa comunicação direta falhe. Mas isso é plano B, não se precipite em dar pulinhos de alegria. Mas te prometo, amor , que irei na igreja, como você sempre quis, nem que seja uma única vez, mas irei, para que você saiba que tudo que você me falou, por mais teimoso que eu seja, sempre levei em consideração. Agora, minha pequena, se você está aqui ainda e quer continuar lutando, não por mim, não para cuidar de mim ou me ver bem, mas por você, quero que me dê um sinal. Aperta minha mão, pisca o olho, mexe o dedo... não sei, mas faz alguma coisa para eu saber que você está aí, que vale a pena deixar seu corpo por mais tempo assim, para que você se recupere. Eu tenho medo, Sara, de permitir que desliguem os aparelhos e ficar com esse peso na consciência de que um dia você poderia acordar, nem que você não fosse mais Você, sabe, mas eu queria muito que isso acontecesse. Nada iria mudar o que eu sinto por você, eu cuidaria de você até nosso último dia de vida. Mas, por outro lado, tenho medo de te manter aqui, deixar seu corpo sofrendo e se acabando por sei lá quanto tempo, e você nunca mais acordar, tenho medo de não te deixar descansar. Me ajuda, amor. Eu não sei o que fazer. Vou ter que sair do estado por um tempo, talvez, um longo tempo. Vou em uma missão. Vou tentar uma transferência sua para um hospital de lá, pra que eu possa continuar te vendo todos os dias, só preciso de um tempo para pesquisar qual o melhor, por que só quero o melhor pra você. Mas, estou confuso se o que vou fazer é o correto. Os médicos me dizem que você não vai acordar, que você não vai voltar a ser quem era. Mas eu não quero acreditar neles. Só tenho medo de estar prorrogando seu sofrimento. Então, me dá um sinal Sara. Se você está aqui e quer continuar lutando, me dá um sinal, por favor, me ajuda...
Lágrimas caem de seus olhos e percorrem lentamente seu rosto, até a gola da camiseta. Anderson precisa tomar uma decisão, ele sabe disso, mas ninguém sabe o quão difícil essa decisão é, até que precise tomá-la.
Enquanto chora e espera desesperadamente por uma reação de Sara, Anderson ouve a porta se abrir, olha para trás e vê o médico de Sara, com o prontuário em mãos.
- Boa tarde, doutor. Novidades?
- Boa tarde. Chegaram todos os resultados dos exames.
- Pela sua cara, as notícias não são boas...
- Quer conversar aqui, ou prefere ir até minha sala?
Anderson olha para Sara, limpa suas lágrimas e diz:
- Estou esperando ela me dar uma resposta. Não quero sair daqui.
- Tudo bem. Só vou chamar a psicóloga, para ela acompanhar a conversa.
- Não estou louco, doutor.
- Não, eu sei disso! Você faz muito bem em conversar com a Sara, fui eu inclusive que te aconselhei várias vezes a continuar fazendo isso para estimulá-lá. É protocolo que conversas como essas tenham um acompanhamento psicológico. É apenas para garantir seu bem estar, e cumprir os protocolos.
- Está tudo bem.
O médico faz uma ligação. É enquanto ambos esperam a pisicolga, Anderson diz:
- Se fosse o senhor ali naquela cama, que decisão gostaria que sua esposa tomasse?
O médico olha para Sara, e volta seu olhar triste para Anderson, e diz:
- A que fosse melhor para ela. Não iria querer o sofrimento dela. Já acompanhei muitos casos assim, sei como é difícil para um familiar.
- E, se fosse sua esposa nessa cama. Que decisão tomaria?
- É difícil... Mas, continuaria pensando nela. Você conhece Sara, tanto quanto eu conheço minha esposa. No fundo do coração, mesmo em meio a dor, a gente sabe o que o outro escolheria, mesmo sem saber se é o certo ou não. Eu entendo você, por mais que não possa nem imaginar um por cento da sua dor, por que nunca estive no seu lugar, mas já presenciei muito.
Neste momento chega a psicóloga, que os cumprimenta, e já sente o clima que está no quarto. Ambos se sentam, o médico e a psicóloga em um sofá de três lugares que há no quarto, e Anderson, em uma poltrona, de frente para eles. O médico então começa.
- Realizamos todos os exames que podiam ser feitos, todos os tipos de teste, e pedi auxílio a mais dois colegas neurologistas, a quem confiaria minha vida, para que não houvesse nenhuma margem de erro em nossas avaliações. E infelizmente, ambos constatamos a morte cerebral de Sara. Eu sinto muito. Fiz tudo que estava ao meu alcance, mas infelizmente, acaba aqui. Já não há mais nada a ser feito.
Anderson se levanta, vai até Sara e abraça seu corpo enquanto chora como uma criança.
- O coração dela ainda bate. Sinto o calor do seu corpo.
- Ela não está mais aí, são as máquinas que fazem seu coração bater e o sangue circular. Ao desligá-la dos aparelhos, todos os seus órgãos irão parar.
- Você tem que me dar um sinal, Sara! Não é justo, eu estava aqui com você o tempo todo, por que você não me deixou saber que estava partindo? Por que fez isso comigo, Sara?!
A psicóloga se aproxima e coloca a mão em seu ombro, dizendo:
- Ela não podia fazer nada. Mas tenha certeza que ela sabe o quanto você a amou. Não faça isso com você. Você nunca a abandonou. Ela nunca esteve sozinha.
- Anderson, sei que é difícil, mas agora você precisa tomar uma decisão. Os aparelhos precisam ser desligados, para que o corpo de Sara tenha o descanso.
- Eu tenho que escolher se mato ela agora, né?
- Ela não está mais aqui. É só o corpo, só as máquinas. A Sara se foi. Eu sei que é difícil, mas precisa tomar essa decisão.
- Sei que o momento é difícil, (Disse a psicóloga) mas, precisamos falar sobre doação de órgãos. Sara era uma jovem saudável, seus órgãos poderão salvar muitas vidas.
- Quero ficar sozinho com ela, por favor.
- Tudo bem, quando se sentir pronto, estaremos aqui.
Disse o médico, que saiu do quarto acompanhado da psicóloga.