Monólogo de Lorena
Os dias passam rápido quando a gente tem muitas ocupações. E agenda lotada era o que não me faltava ultimamente. Tudo correu assustadoramente bem durante minha campanha. As vezes fico me questionando quem realmente são essas pessoas, e qual a dimensão do poder que elas tem em mãos. Conheço apenas uma pequena fração do que verdadeiramente é a facção. Apenas o que eles me permitem conhecer. Não vou dizer que só topei a ideia do senado por que não tinha outra opção, realmente, eu não tinha. Mas me sentia tranquila pelo fato de acreditar que a lei jamais permitiria uma pessoa com meus antecedentes lá, mas vi que realmente as leis são feitas por pessoas que têm muito poder e influência. As leis são feitas para favorecer aqueles que convém. Tudo que pudesse empatar minha candidatura foi mudado, de uma forma tão rápida que chega a ser assustador. Até mesmo a idade mínima para concorrer ao cargo, que era acima de 35 anos, eles conseguiram mudar para apartir de 30, que é minha idade atual.
Se pensar muito sobre isso, fico apavorada. Não sei ao certo com quem estou lidando, só sei que sou um fantoche nas mãos deles e tenho que fazer tudo que querem, e assim, vivo bem. Vivo super bem, por sinal, disso não posso reclamar. Mas sinto falta da favela, do calor e aconchego que sempre recebi do povo do morro da Perpétua. Tive que sair de lá, e por não estar me acostumando longe, implorei ao chefe que me deixasse voltar. E então, o mais extraordinário aconteceu. Fui liberada de Brasília e pude voltar para minha cidade. Deixaram a minha disposição um jatinho particular, para que sempre que fosse solicitada com urgência lá, pudesse comparecer. Assinei também uma procuração para o meu acessor, que no caso, era meu pai. Quando pedi ao chefe que deixasse meu pai ser meu acessor, ele não concordou, de início. Mas depois me chamou pra uma conversa e disse que autorizava, contato que nós estivéssemos na mesma sintonia e com o mesmo propósito de representar e defender unicamente os interesses da facção lá dentro, eu concordei e afirmei que faríamos isso. Mesmo por que, não há como ser de outra forma. Então, meu pai virou meu acessor, tem uma procuração assinada por mim para me representar caso necessário. Ele se manteve relutante com nossa separação, mas sabemos que não é algo permanente, já que tanto eu quanto ele podemos nos visitar sempre que quiser. Chega um momento em que precisamos trilhar nossos próprios caminhos e se desprender de tudo. Com ele em Brasília, eu me sinto até mais tranquila, pois lá sei que ele está seguro e bem, longe de todo esse caos. E também, ele esta gostando de lá, ao contrário de mim. Ele fez amizades, esta muito empolgado com o trabalho. Meu pai esta feliz lá, e eu me sinto mais feliz aqui. Lá me sinto presa, me sinto totalmente fora da casinha. Claro que não pude voltar a morar no morro. Comprei um lindo apartamento no centro, com vista para o mar. Só me sinto sozinha demais nele, sem meu pai. Porém, o morro continua sendo meu lar, amo estar presente e a frente de tudo que acontece lá. Agora me sinto mais tranquila pois sei que já não sou mais uma pessoa qualquer. Agora me tornei alguém importante e poderosa. Passei de "a ruiva do tráfico" para "a senadora do povo". As pessoas mais humildes me amam, sou venerada no morro da Perpétua. Tenho acompanhado de perto as movimentações do Tráfico lá dentro. As coisas nunca foram tão tranquilas por aqui. Já não existe mais perseguição e fuga. Estamos vivendo uma nova era, uma nova fase do crime. E nunca cheguei a pensar que diria isso, mas hoje já não vejo mais como o lado tão r**m de tudo, por que eu consegui mudar isso, consegui tirar algo bom de toda essa situação e fazer bem a muitas pessoas com isso. Mudar a vida de muitas famílias e crianças, principalmente. Gosto de ficar em minha antiga casa no morro, lá não me sinto tão sozinha pois conheço muita gente, e a casa se mantém sempre movimentada. Só não gosto muito do cara que o chefe deixou em meu lugar, ele não me parecia querer representar a comunidade como eu e meu pai fizemos. Nós treinamos por meses um dos rapazes de minha maior confiança para isso, mas, infelizmente ele sofreu um acidente de trânsito e faleceu. Como não havia muito tempo para acharmos outro, o chefe me sugeriu esse que eu nem conhecia, porém não gostei de algumas atitudes dele e pedi ao chefe que ele fosse mandado novamente para o lugar de onde veio, e assim, eu voltei ao controle, me dividindo entre Brasília e o morro. Eu tinha muita gente de extrema confiança aqui, por isso, sabia que em minha ausência eles tomariam conta de tudo, da forma como eu gostaria que fosse.
Um dia, quando estava na comunidade, parei na pastelaria que eu adorava frequentar. Tomei um caldo de cana delicioso, com pastel de frango que eu amava, enquanto conversava com a dona do estabelecimento, de quem me tornei próxima, poderia até chamar de amiga. Ela estava atendendo e quando dava uma pausinha vinha conversar comigo, em uma das idas dela até o caixa para atender um cliente, vi alguém que não me parecia estranho se sentar na mesa da frente. Fiquei olhando discretamente para aquele homem para tentar lembrar de onde o conhecia, quando a moça da pastelaria sentou novamente em minha mesa.
- Tá dando muito na cara, gata!
- O que?
- O gato que você está olhando...
- Ah sim kkkk tive a impressão que já o vi antes em algum lugar, só não lembro onde...
- Eu também já o vi... nos meus sonhos. Que homem heim!!
- kkkk Você não tem jeito heim dona Aline! (Disse rindo discretamente com ela, e continuei) ele é parente de alguém daqui?
- Ele mora aqui. Mudou para cá a alguns meses.
- Estranho, ninguém me passou nada sobre novo morador...
- Deve ser coisa daquele Rogério. Ele era estranho.. que bom que foi embora e você voltou.
- Senti muita falta daqui.
- Eu te admiro muito. Você chegou no topo e continua aqui com a gente. Continua vindo aqui na minha espelunca comer pastel e caldo de cana... Você não existe ruiva! Onde que alguém imaginaria uma senadora sentada em uma pastelaria na favela.
- Eu saí da favela, minha origem é humilde. Já morei até na rua. Um dia te conto toda minha história...
- Já sei parte dela... narrada pelas páginas de fofoca, claro, mas conheço. Você é famosa agora, não esqueça. Todo mundo sabe quem você é.
- Deve ser por isso que não consigo me encaixar em Brasília. Sempre cercada de gente nojenta, que olham dos pés a cabeça. Olhos que julgam e condenam. Aquele nunca foi meu lugar.
- Mas você foi eleita. Por que o povo te ama, e por que é essa pessoa tão boa, generosa e humilde, apesar de ser tão rica.
- As vezes me questiono se realmente sou tão boa assim... Você sabe o que faço aqui, não sou hipócrita e não escondo quem sou aqui dentro da comunidade.
- Você é a mulher que nos libertou dos traficantes que controlavam nossas vidas e nossos filhos. Você nos permitiu crescer aqui dentro, nos deu segurança e tranquilidade, coisa que nunca se viu antes por aqui.
- Eu tento fazer a coisa certa, mesmo que o caminho para isso seja o errado.
- Não se julgue. A gente te ama aqui.
Eu sorri, sei o quanto essas pessoas são reais comigo, mas também tenho consciência de que nem tudo que faço é certo. Na verdade, quase nada que faço é certo.
Quando sai da pastelaria, fui falar com o pessoal que controla as entradas e saídas da comunidade. Quis ver os relatórios e saber sobre o novo morador. Ao questionar a moça que fazia o controle, ela me disse que os meninos da entrada lhe entregam os relatórios diariamente, e semanalmente ela os entregam em ordem para a pessoa que está no comando, no caso, era o Rogério. Esse sistema se manteve como eu havia criado. Apenas era direcionado um caso diário quando haviam algumas suspeitas, caso contrário eram apenas semanais. E, segundo ela, quando o novo morador veio para a comunidade, informou que estava a procura de casa para alugar. Os meninos pegaram seus dados e lhe passaram alguns endereços que estavam disponíveis e autorizaram sua entrada, após uma revista, como era sua primeira visita aqui...
- E você levou isso ao Rogério?
- Sim, senhora. No mesmo instante os meninos me informaram e eu passei tudo ao Rogério. Ele só me disse que iria investigar.
- E quando o rapaz chegou?
- Os meninos falaram que ele informou na saida que havia encontrado uma casa, e que pegou o contato do dono para negociar. Passei isso também ao Rogério, inclusive o endereço e nome do proprietário.
- O que ele disse?
- Só falou que ia cuidar disso. Quando o rapaz chegou de mudança, informou os meninos, eles me ligaram pra saber se podia liberar o acesso, e como o Rogério não havia me falado mais nada, falei para que segurassem ele lá em baixo até eu conseguir falar com o Rogério, que não estava no morro. Quando consegui falar com ele, ele só me disse que esqueceu de me avisar e mandou liberar a entrada. Mas não me passou informação nenhuma sobre o rapaz para que eu deixasse na ficha de controle.
- Ok, vou eu mesma pesquisar isso. Pode me passar a lista, por favor com as informações que você tem.
Peguei a lista e fui para casa, essa noite ficaria na casa da comunidade.