Monólogo de Anderson
Dizer adeus é uma tarefa tão difícil, ainda mais quando sabemos que é um adeus definitivo, que nunca mais iremos ver, sentir ou ouvir novamente a voz dessa pessoa. Enquanto olhava para Sara naquela cama, passava um filme em minha cabeça, de tudo que vivemos, dos sonhos compartilhados, do que ficou pelo caminho... É uma vida inteira de lembranças, nos conhecemos desde criança e não tem uma única lembrança em minha vida que a Sara não estivesse presente. Nunca soube o que era viver sem ela, pois ela sempre esteve aqui. Mesmo quando éramos só amigos, e mesmo quando brigavamos e terminavamos, sempre estávamos juntos, no fim. E agora, terei de aprender a viver em um mundo onde ela não existe mais. Mas, se pensar bem, já faz meses que ela não está mais comigo, porém, tenho para onde correr quando a saudade fica grande demais, posso ver seu rosto, tocar, sentir seu calor, e por mais que seja doloroso vir todos os dias nesse hospital e ver ela assim, eu sei que ela esta aqui, que eu podia vir e a encontraria aqui, e agora, não terei mais onde encontrá-la, se não nos meus sonhos e lembranças.
Ela falava tanto em Deus e me pedia tanto para ter fé também. Mas a fé dela não a salvou. Talvez seja culpa minha, por não ter. Talvez seja Deus me castigando e me mostrando seu poder, do qual eu sempre duvidei. Mas pensar assim só me faz ter ainda menos vontade de ter fé. Por que Deus castigaria um ateu usando uma pessoa de tanta fé? Por que uma pessoa que adorava tanto a Deus e pregava sua palavra merece pagar pela descrença de outro? Não me parece muito justo isso. Era eu quem deveria ter partido, não a Sara. Ela sempre foi tão boa, tão perfeita em tudo. Se Deus realmente existe, ele não é nenhum pouco justo. A Sara não merecia isso. Talvez eu nunca entenda por que teve que ser assim. Só sei que preciso dizer adeus, mas não sei como fazer isso. As vezes acho que estou ficando louco. Desde a conversa com o médico em que ele me preparou para este momento, venho pensando em mil formas de tirar o corpo de Sara daqui e levá-la comigo, pra onde eu for. É loucura, né? Eu sei... mas existem momentos que a dor e o desespero são tão grandes que a gente perde a razão.
Continuo olhando para Sara e acariciando seu rosto pálido, enquanto penso em tudo e falo com ela...
- Eu queria que isso fosse só mais uma briga nossa, só mais um breve afastamento que logo resolveriamos e estaríamos juntos, como sempre foi. Queria que você estivesse brava comigo por alguma bobagem que eu fiz ou falei, queria que ficasse zangada, me xingasse e batesse a porta do carro ao descer, mas ao invés disso, você está aqui, Sara, imóvel em minha frente, praticamente sem vida, sem reação. Por que você não se despediu de mim? Por que não me deixou saber que estava partindo? Não sei até que ponto estou lúcido, pois em minha cabeça escuto sua voz todas as noites me dizendo que preciso continuar a viver, mas como vou fazer isso se minha vida era você? Como posso viver sem você, Sara? Você não sabe a dor que está causando em mim com sua partida. Sinto vergonha em te dizer isso, mas, tiveram dias em que pensei que seria mais fácil se você partisse logo, por que essas vindas diárias aqui estavam acabando comigo, me perdoe por isso. Não é mais fácil, nunca vai ser fácil. Isso está doendo tanto que chego a sentir faltar o ar. O meu chão acabou de sumir, o pouco que ainda restava, e eu já nem sei mais como ainda posso estar vivo. Você não pode ir embora, Sara. Você me prometeu que ficaríamos juntos para sempre, e eu acreditei que seria para sempre, eu quis, eu quero, eu sempre vou querer. Não faz isso comigo, Sara! Acorda, por favor. Abre o olho, fala comigo..
Como eu vou continuar firme, lutando pelos meus sonhos se você não vai estar mais aqui para me incentivar? Como farei isso, Sara, Se esse é o fim do nosso amor, o fim da única coisa que achei que seria para sempre em minha vida. Eu não queria que isso acontecesse, eu amo tanto você, jamais imaginei que um dia te perderia dessa forma.
Eu olho para você aqui nessa cama, e penso como é difícil dizer adeus em meio a tanto amor que sinto por você. Como é difícil dizer adeus sem ouvir o que você teria a me dizer, caso pudesse falar. Sei que, talvez você não possa nem me ouvir. Pela ciência, isso é impossível, pois seu cérebro já parou. Mas eu precisava fazer isso, não só por mim, mas pela nossa história. Não tem como só assinar um papel e ver os enfermeiros te desligando dos aparelhos, ou, permitir que te abram e tirem do seu corpo tudo que ainda está funcionando ai. É terrível pensar nisso. Sempre critiquei e me perguntava como alguém pode não doar os órgãos para salvar outras vidas. Mas nunca estive desse lado. Agora sei o quanto é difícil essa decisão. Não queria ninguém perturbando você, não queria ninguém cortando seu corpo e arrancando de você todos os seus órgãos saudáveis. Mas sei que você assinaria esse papel, se pudesse, se tivéssemos previsto isso antes. Eu lembro das vezes que me falou que se pudesse doar órgãos quando morresse, você doaria, mas nunca te deixei falar abertamente sobre esse assunto, por que imaginar você partindo para sempre, e antes de mim, era algo que sempre me assustou, e agora, estou tendo que lidar com um dos meus maiores medos. É difícil, essa decisão, Sara.
Todos os dias que sai ou entrei por essa porta, durante todos esses meses, foi com a esperança de te ver acordar um dia. Eu nunca perdi essa esperança, nem agora, nem sabendo de tudo que sei. E mesmo sem fé, acreditei que aconteceria um milagre, pois nunca achei que seria justo isso, nunca vou aceitar, nunca vou deixar de gritar ao universo, a Deus, ou sei lá que força é essa que controla nosso destino, o quanto ele foi injusto com você. Eu sei que preciso te libertar, já conversamos sobre essas coisas e, por mais que eu não acredite muito, sei que você acreditava e me diria que eu preciso te deixar partir em paz, deixar sua alma descansar, libertar da minha dor... Essa coisas que você falava e eu achava bobagem. Mas eu quero que você tenha paz, meu amor. Você merece só coisas boas, e juro que vou tentar. Eu vou sentir muito a sua falta, mas espero de verdade um dia poder deixar de te amar tanto, para deixar de sentir essa dor h******l que estou sentindo agora. Adeus, minha Sara. Encontre nosso filho.