A missão

1879 Palavras
Anderson teve a terrível missão de tomar a decisão de desligar Sara dos aparelhos, e permitir a retirada de seus órgãos para doação. Foram momentos difíceis, Anderson estava destruído. Logo após o funeral, o jovem Capitão arrumou suas malas e partiu em uma missão para longe de sua cidade. Ele não teve outra escolha, se não aceitar a proposta do major. Estava atolado em dívidas no hospital, sua vida estava um caos. Estava perdido e sem rumo com a perda de Sara, tudo que ainda lhe restava era o emprego, e a paixão que tinha pela profissão que escolheu. Ele sabia que aceitar essa missão o reduzia de seu cargo de capitão. Anderson sempre gostou de participar das missões secretas, já foi infiltrado várias vezes, mas nunca o obrigaram, com a condição de que se não fosse, seria demitido. Ele se sentia péssimo pela situação a qual foi submetido, sem nem ao menos poder sofrer seu luto em paz. Mas aceitou, e prometeu pela memória de Sara, que derrubaria esse esquema, que provaria para todos que ele sempre esteve certo em relação ao tenente Coronel. E para esquecer um pouco a dor da perda que sofreu, ele se jogou de corpo e alma nesse trabalho. Quando chegou ao morro da Perpétua, foi surpreendido por uma guarita na entrada, e uma pequena portaria que controlava quem entra e sai. Ao se aproximar, Anderson foi atendido por um rapaz que queria saber qual o motivo de sua vinda até ali. - Procuro casa para alugar. - E por que aqui? - Ouvi falar que os preços de aluguéis aqui são bons. - De onde você vem? - Sou do interior do estado. Estou a procura de trabalho, e no momento não posso pagar um aluguel tão caro. - Me passa seus documentos, por favor. Vou fazer um breve registro aqui. - Mas, pra que isso? - Controle, senhor. Apenas isso. Se não veio aqui para fazer nada errado, não há o que temer. Anderson entregou os documentos ao garoto, que em seguida lhe pediu a carteira de trabalho. Ele entregou. Havia conseguido com o major documentos falsos, pois só assim conseguiria não levantar suspeitas. Ao concluir o cadastro, após algumas anotações, o jovem lhe agradeceu pela colaboração e lhe passou uma lista com quatro endereços de casas para locação. Anderson agradeceu e entrou. Ele ficou surpreso com a educação e cordialidade do rapaz. Nunca imaginou que traficantes fossem dessa forma, na verdade, estava acostumado a bater de frente com essas pessoas, e elas eram muito diferentes daquele garoto. Eram normalmente agressivos e sempre tentavam impor superioridade e medo as pessoas. Logo na primeira olhada rápida que deu pela comunidade, percebeu que aquilo ali realmente era algo diferente, assustadora e surpreendentemente diferente. E não era no sentido r**m, aquele lugar parecia bom de se viver. Não se viam pelos becos moleques m*l encarados e armados até os dentes. Ao contrário disso, se viam comércios bem cuidados e movimentados, pessoas andando tranquilamente pelas ruas, e crianças brincando. Anderson passou em todos os endereços que o garoto lhe deu, para não levantar suspeitas e para poder conhecer o máximo possível aquele lugar. Pegou os contatos de duas casas que lhe agradaram e iria entrar em contato com os donos. Ao sair, o mesmo garoto lhe perguntou se havia encontrado o que procurava. - Sim, coloquei no GPS do celular e fui certinho nos endereços que você me passou. Muito obrigado. - E alguma das casas foi de seu agrado? - Peguei o contato de duas que mais me interessaram. Irei ligar para os proprietários. - Posso ver quais são? Anderson mostrou o mesmo papel que o garoto havia lhe dado na chegada, e nele, ele havia anotado os telefones de contato das duas casas. - Tenho um telefone aqui. O senhor já pode ligar para eles daqui mesmo. - Não quero atrapalhar seu trabalho. - Não atrapalha. Pelo contrário, se confirmar o aluguel já me ajuda a agilizar sua ficha de morador aqui. - Como assim? - Aqui tudo é controlado, assim garantimos a segurança dos moradores. - Entendi... está bem. Vou usar seu telefone então, com licença. Anderson entrou na pequena portaria, o jovem permaneceu em sua posição, enquanto outro jovem o acompanhou durante a ligação. Anderson falou com o proprietário e já acertou tudo. Combinou de se mudar no dia seguinte, porém o garoto que lhe acompanhava, pediu que esperasse no mínimo dois dias, pois iriam checar suas informações para permitir sua estadia ali, ele achou estranho, mas concordou. Sabia que eles se referiam a aprovação do chefe do morro. Então foi embora, deixando antes, seu contato ao garoto da portaria, para que lhe informasse quando pudesse mudar. Ele não tinha nada para levar, apenas uma mala com roupas e objetos pessoais. Dois dias depois recebeu uma ligação autorizando sua residência na comunidade. Então, ele foi até lá, já com sua mala em mãos. A casa que escolheu, não era de luxo, não tinha muito conforto, nem era grande, pelo contrário, possuía apenas quatro peças, sendo banheiro, cozinha com lavanderia acoplada, uma pequena sala e um quarto. Porém, a vista era privilegiada, e foi por isso que Anderson a escolheu. De lá podia ter uma boa visão de toda a comunidade, na parte central e aos fundos, que dava para a mata, onde provavelmente seria um bom local de fuga, caso algo desse errado. No mesmo dia em que se mudou, Anderson saiu andar pelas ruas estreitas da comunidade, conheceu o comércio, deixou até alguns falsos currículos, para sustentar a ideia de que estava a procura de trabalho. O dono da padaria lhe falou que estava precisando de padeiro, e que se ele tivesse interesse, haviam oficinas no morro para ensinar quem não tinha experiência. Anderson ficou impressionado com o que foi feito naquela comunidade, com a calorosa recepção com que foi recebido e acolhido pelos novos vizinhos. Aquilo parecia realmente um bom lugar para se viver. Quando foi até a pastelaria tomar café, conversou um pouco com a proprietária, que também foi muito gentil. - Quando pensei em morar na comunidade, tive medo, pelas coisas horríveis que a gente ouve falar e vê na TV todos os dias. Mas mesmo assim, era a única opção que me restava, com o pouco de dinheiro do acerto que ainda tenho. Nunca imaginei encontrar um lugar como esse.(disse Anderson ao conversar com a proprietária do estabelecimento) - Hoje tenho condições de sair daqui, de morar no asfalto. Mas não troco isso aqui por nenhum outro lugar. - Como é possível uma favela assim? E o tráfico, não existe mais aqui? - É sério que você nunca ouviu falar da comunidade? - Eu venho do interior, senhora. Lá as notícias chegam sempre atrasadas, e só sabemos o que vemos na TV, nem internet pegava lá. - Meu Deus, de que buraco você saiu? Kkk o que você fazia lá? - Era funcionário antigo de uma empresa que faliu. Com o fechamento dela, e a morte da minha esposa, não tinha mais nada que me prendesse naquele lugar. Recebi parte do acerto, o que puderam me pagar a vista, e resolvi tentar a vida aqui. - Sinto muito por sua esposa. Mas que bom que escolheu o morro da Perpétua como seu novo lar. Com sorte, logo encontrará trabalho aqui Mesmo, sempre tem alguma coisa e quando não tem, aparece rápido. - E as pessoas que não trabalham aqui, elas tem algum problema em sair para trabalhar fora? - Não, desde que prove que o que faz lá fora não é ilegal. - O tráfico não existe mais aqui? - Existe. Mas, se posso lhe dar um conselho, não saia fazendo esse tipo de pergunta por aqui, podem desconfiar de você e te por pra fora. - Eu ainda não sei se entendo a política desse lugar, é meio confuso... - Não há nada de confuso aqui. Somos apenas pessoas como qualquer outro lá do asfalto, a diferença é que aqui não somos esquecidos e somos tratados com dignidade. Antes, a alguns anos atrás, a única lei que existia aqui era de exploração, morte e medo. Hoje vivemos com dignidade, trabalhamos, podemos criar nossos filhos sem medo. - O que mudou? Ou quem mudou essa realidade? - Nossa rainha, a Ruiva, a senadora Lorena. Ela mudou a vida de quem vive aqui. Quando ela chegou, eu era apenas uma jovem sem nenhuma oportunidade na vida. Minha mãe era empregada doméstica lá no asfalto, eu comecei a fazer alguns trabalhos assim também quando apareciam, mas, um dia, o chefe do morro decidiu que eu seria a p********a deles, e assim, me obrigava a participar dos bailes, atrair garotos e lhe oferecer drogas, e também a ter relações com ele e com quem mais quisesse. Eles não me forçavam diretamente sabe, eles falavam que sabiam que eu e minha mãe morávamos sozinhas, que era perigoso, que nos protegeriam... a gente sabia que eram ameaças, e não tinha o que ser feito, se não o que eles queriam. Eles me pagavam por tudo que me pediam para fazer, mas eu não gostava de fazer aquilo, queria continuar trabalhando com minha mãe, mas tive que parar para trabalhar com eles. Com o tempo, comecei a gostar, pois passei a ganhar muito mais dinheiro do que ganhava com as faxinas. Mesmo sendo tratada como lixo por eles. Meu sonho era juntar um dinheiro e sair daqui com minha mãe. Até que o morro foi tomado por uma ruiva, e ela mudou tudo aqui. Trouxe empresas, trabalho, escola e cursos profissionalizantes. Tirou as armas e drogas das mãos dos moleques e lhes deu cadernos e livros, para que pudessem ser alguém na vida. Acabou com a prostituição. E só permaneceu ao lado dela quem podia responder por suas decisões e que queria realmente ficar, que não estava lá por ser obrigado. Então, minha mãe conseguiu um trabalho aqui, assim economizamos muito com o dinheiro da passagem. Pude estudar aqui, fiz cursos, arrumei trabalho também, e junto com minha mãe, construímos essa pastelaria, graças às oportunidades que tivemos aqui. Minha mãe teve um infarto a um ano atrás e se foi, mas tenho certeza que foi tranquila, pois sabe que me tornei uma boa pessoa e que tenho condições de viver bem hoje. - Fico feliz por você. Realmente este lugar é diferente de tudo que eu imaginava de um morro. E assim, Anderson passou a viver no morro. Onde nunca imaginou que ele, um capitão de polícia, pudesse ter acesso tão fácil, na verdade, ele se fez de desentendido, mas sabia como tudo funcionava ali, as fichas de controle de quem entra e sai. Ele achou que demoraria mais para ter permissão de entrar, mas, se tudo foi tão rápido, melhor ainda, só prova que sua história fictícia foi boa, e que os documentos falsos foram bem feitos. Logo Anderson começou investigar a fundo a tão idolatrada senadora Lorena. Ele sabia que ela podia ser a chave de tudo que ele estava buscando ali. Era uma traficante com um poder enorme em mãos e certamente, muita influência. Ele desconfiava que a Ruiva fosse a chefe da facção e não iria sossegar até conseguir colocar as mãos em todos os bandidos envolvidos nisso.
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