Capítulo 4 Maitê

1275 Palavras
Ao caminhar pela casa em direção à laje, cruzo o olhar com Larissa e Talita, surpreendendo-me que a única preocupação delas seja chamar a atenção do líder do comando. Ao me deparar com a situação, fico perplexa com a ideia de como duas pessoas podem se rebaixar a tal nível. Como alguém tem coragem de envolver-se com o mesmo homem que sua irmã e chegar ao ponto de quase se matarem por ele? Talvez ele seja conhecido pelo famoso 'p*u de ouro', mas mesmo assim, não me permitiria descer a esse nível. Chego à laje e me permito chorar, o ar está me sufocando. As lembranças do passado, contra as quais lutei tanto para que me deixassem, ainda gritam em cada parte do meu ser. O reencontro com o passado, meu pai e minha madrasta, é um conjunto de horror que me assombra. Sinto o vento suave acariciando minha pele, enquanto contemplo o horizonte do morro. O vento cortante ecoa a frieza que tento manter em meu interior. Gostaria de poder esquecer como todos eles parecem ter feito. Se eu parasse para expressar tudo o que realmente penso, tenho certeza de que não seria apenas eu que sairia machucada. Por enquanto, guardo tudo dentro de mim, sabendo que o dia do acerto de contas eventualmente chegará, e espero que eles estejam prontos para enfrentar esse momento. Sinto minha barriga roncar, então decido descer para fazer algo para comer. Desço as escadas, torcendo para não encontrar ninguém no caminho. Chegando à cozinha, tento ser rápida e discreta, evitando olhares e interações desnecessárias. A geladeira revela algumas opções limitadas, mas o suficiente para satisfazer minha fome momentânea. Enquanto preparo algo para comer, ouço os murmúrios distantes da festa ainda em andamento. Entendo que para eles devo parecer uma chata amargurada, mas eles não estavam em minha pele nesses quatro anos. Enquanto frequentava uma universidade em outro país, na casa da irmã mais nova do meu padrinho, ela tentava fazer de tudo para me agradar, mas o vazio em meu peito não permitia que eu me abrisse. A insônia tornou-se frequente e conseguir duas horas de sono era considerado bom, isso quando as crises de ansiedade ou pânico não me atingiam primeiro. Não é que eu não quisesse viver uma vida tranquila ou me divertir como as meninas da minha idade, mas ninguém tem noção do efeito contrário que a bebida tem em mim. Lembro-me de um dia, já irritada com a vida que levava, resolvi ir a uma festa, a última festa do ano universitário, bebi e até conversei com algumas pessoas. Contudo, quando olhava para as minhas mãos, estava novamente presa naquele momento: o sangue em minhas mãos, os olhos assustados à minha frente. Nada fazia sentido, e o buraco em meu peito gritava ainda mais. Foi quando eu decidi acabar com aquela dor que me penetrava e acabava comigo. Cheguei na casa da Sandra com o Fumaça em minha cola, mas não disse nada. Vou para meu quarto, tranco a porta e entro no banheiro. Liguei o chuveiro para que não pudesse ouvir os barulhos, sentada naquele chão gelado, eu chorei desesperadamente, bati minha cabeça na parede. Estava em uma briga interna comigo mesma, a grande decisão entre viver e morrer. Então, decidida, entrei na banheira e com uma lâmina eu cortei os meus pulsos um de cada vez. A dor do corte era gritante, mas nada se comparava com a dor na minha alma que eu estava sentindo. Cada gota que caía dentro da banheira era um alívio em minha alma. A água já estava ficando em um tom avermelhado e minha consciência diminuía a cada minuto quando finalmente me deixei ser levada pela última luz que pairava sobre mim. Acordei no outro dia e eu estava em um hospital, o que me fez ver que todo o meu esforço havia sido em vão. Vi ao meu lado o Fumaça com a cara fechada e a dona Sandra com os olhos marejados. — Oi. — Acabo quebrando o silêncio que estava ali. — Graças a Deus, minha menina, você acordou. Me diga o porquê que você fez isso. — Ela diz preocupada. — Eu não aguento mais, a dor me transborda por inteira. Eu... eu nem sei quem eu sou. — Digo com as lágrimas inundando os meus olhos. — Xiiii, vai ficar tudo bem, menina. Se acalme. — É o que ela falou incansavelmente todos esses anos. Aquela noite sombria permanece como uma cicatriz na minha memória, marcando um momento em que a dor parecia insuportável. Depois disso, as restrições e os cuidados redobraram, refletindo a preocupação de Sandra e Fumaça. Cada gota de álcool tornou-se uma recordação viva do meu passado traumático. Os banhos, que um dia foram um refúgio, transformaram-se rituais rápidos e controlados. A proibição imposta por eles era uma tentativa desesperada de manter meu frágil equilíbrio. Enquanto encaro a cozinha na casa do morro, penso em como as feridas emocionais podem ser tão difíceis de curar quanto as físicas. O retorno ao ambiente familiar e suas lembranças conflitantes reacendem o desafio constante de encontrar paz dentro de mim mesma. Percebo alguém se aproximando, mesmo estando de costas. — Você não para com esse showzinho nunca? — Dizia Vanessa, a esposa do meu pai. Perco a fala, mesmo tendo tantas coisas a dizer. Continuo virada, pois sei que se abrir a boca, nada de bom sairá. Antes que ela fale mais alguma coisa, consigo ver de relance o líder do comando quando ele aparece. — Deixa a menina em paz, Vanessa. — Disse com calma o Lorde. — Humm, já não basta comer minhas duas filhas, ainda está querendo essa daí? Deus é mais. — Lave a sua boca para falar de mim, eu jamais me rebaixaria a um nível tão baixo, não me compare a suas filhas ou a você porque eu jamais serei como vocês. — Eu respondi irritada, tentando defender minha integridade. — Olha, olha. — Ela diz batendo palma. — Isso mesmo mostra a todos quem você realmente é. Antes mesmo que eu pudesse responder alguma coisa, ele a segura pelo pescoço sem se importar com quem ela é casada. — Baixe o seu tom de voz ao falar comigo, eu não sou suas amiguinhas não. Ele larga ela e a Vanessa sai apressada, deixando-me sozinha na cozinha com ele. Olho bem para o seu rosto e, mesmo com receio, decido abrir a boca. — Não precisa me defender, eu sei muito bem a cobra que Vanessa pode ser, e você interferindo só piora uma situação que já é r**m. — Deixa de ser m*l-agradecida, estava tentando te ajudar. — Ele diz irritado. — E quem pediu a sua ajuda? Só não tente mais, quando ninguém te chamar, não se intrometa. Pego meu lanche e subo para o meu quarto, sem dar a chance dele falar mais nada. Enquanto subo as escadas, sinto um misto de alívio e frustração. A presença dele, tentando proteger-me de uma situação desconfortável, mexe com sentimentos que preferiria evitar. No meu quarto, fecho a porta e encaro as paredes, deixando o peso do passado se instalar novamente. Eu sei que ele só queria me ajudar, e que provavelmente eu tenha sido mais rude do que o necessário, mas prefiro cortar o m*l pela raiz desde o início, principalmente porque minhas irmãs quase se matam por ele. Não quero ser mais uma e jamais me permitiria passar por uma situação dessas. Não que eu deseje encontrar o amor da minha vida, só não quero ser um objeto nas mãos de um traficante que não sabe nem o que quer da própria vida.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR