Capítulo 02

1663 Palavras
📍Complexo do Alemão, Quinta-feira, 07:10 da manhã (Emanuelle, narrador personagem) Eu ainda estava tentando processar tudo. Cada palavra, cada olhar que recebi desde que fui arrancada da minha vida “normal” parecia me empurrar para um labirinto sem saída. Eu m*l conhecia aquele lugar, e menos ainda as pessoas que me cercavam. Agora, sentada no sofá da sala cheia de gente desconhecida, era como se estivesse encenando uma peça em que todos já sabiam suas falas, menos eu. Carla, a mulher que tinha me ajudado no postinho, estava ao meu lado, mas até ela parecia distante. Meu “pai”, ou melhor, Coringa, como todos o chamavam, estava parado de pé, encarando o nada, como se minha presença fosse um fardo. Eu quebrei o silêncio, minha voz soando mais firme do que eu esperava: Manu: Se eu sou um problema pra você, é só dizer. Coringa se virou lentamente, seu rosto duro como pedra. Coringa: Não é sobre você ser um problema. É sobre você estar aqui agora, e isso muda tudo. Eu não sabia se era o tom frio dele ou a maneira como ele evitava me olhar diretamente, mas aquilo doía mais do que eu queria admitir. Manu: Eu não pedi pra estar aqui. Coringa: Nem eu pedi pra isso tudo acontecer. Mas, já que tá aqui, vai ter que aprender a conviver com isso. Maria Eduarda (Duda): Parece até novela mexicana isso aqui. Tá todo mundo tenso, pra quê? Relaxa, gente. Carla: Duda, dá um tempo. Duda: O que foi, Carla? Só tô dizendo a verdade. A menina já tá aqui, agora é só se ajustar. Não é como se isso fosse o fim do mundo. Manu: Pra você pode não ser, mas pra mim é. Duda levantou as sobrancelhas, surpresa com minha resposta. Duda: Tá vendo? A novata até que tem coragem. Gosto disso. Carla: Você devia saber a hora de parar, Duda. Antes que a discussão pudesse ir além, outra figura feminina entrou na sala. Era uma mulher alta, de cabelos pretos bem arrumados, e um sorriso calculado no rosto. Bárbara, foi o nome que me disseram. Ela parecia saber exatamente o impacto que tinha ao entrar em qualquer lugar. Bárbara: Então, essa é a famosa Emanuelle? Eu a encarei, sem saber o que responder. Bárbara continuou como se já soubesse da minha reação. Bárbara: Bom, seja bem-vinda, querida. Essa casa é um caos, mas você vai se acostumar. Manu: Não planejo ficar muito tempo. Bárbara riu, mas não parecia achar graça de verdade. Bárbara: Ninguém planeja, mas as coisas nem sempre saem como queremos. Ela se virou para Coringa, sua expressão mudando para algo mais sério. Bárbara: Você deveria ser mais gentil com ela. Não percebe que tá assustada? Coringa bufou e cruzou os braços. Coringa: Ela não precisa de gentileza agora. Precisa de verdade. Manu: Verdade? Então me diz por que minha mãe escondeu você de mim! A sala ficou em silêncio. Todos olhavam para Coringa, esperando sua resposta. Ele respirou fundo, os olhos fixos no chão por um momento antes de encarar-me diretamente. Coringa: Porque ela achou que tava te protegendo. Manu: Me protegendo de quê? De você? Ele não respondeu de imediato, mas o silêncio foi resposta suficiente. Bárbara interveio, a voz dela mais suave desta vez. Bárbara: Há coisas que você não vai entender agora, Manu. Mas uma hora, tudo vai se encaixar. Eu me levantei com dificuldade, sentindo a dor latejar na minha perna, mas o incômodo era menor do que a confusão na minha mente. Manu: Vocês têm respostas demais e explicações de menos. Carla se aproximou, segurando meu braço com cuidado. Carla: Vem, Manu. Você precisa descansar um pouco. Manu: Descansar? Como é que eu vou descansar num lugar onde ninguém me quer? Carla abriu a boca para responder, mas parou quando Coringa deu um passo à frente. Coringa: Eu não disse que não te queria aqui. Manu: Você não precisou dizer. Tá na sua cara. Ele suspirou, passando a mão no rosto, visivelmente frustrado. Bárbara colocou uma mão no ombro dele, como se tentasse acalmá-lo. Bárbara: Dá um tempo pra ela, Coringa. É muita coisa pra digerir de uma vez. Coringa hesitou, mas finalmente assentiu. Ele se virou para sair da sala, mas antes de atravessar a porta, falou sem olhar para trás: Coringa: Amanhã a gente conversa. Eu o observei desaparecer pelo corredor, sentindo uma mistura de alívio e exaustão. Bárbara se aproximou, sorrindo de leve. Bárbara: Ele é assim com todo mundo, não leva pro lado pessoal. Manu: Não é fácil ignorar. Bárbara: Eu sei. Mas, com o tempo, você vai entender melhor como as coisas funcionam por aqui. Eu não sabia se queria entender. Tudo o que eu queria era voltar pra casa, mas algo me dizia que meu mundo nunca mais seria o mesmo. Depois que Coringa saiu, a tensão na sala diminuiu, mas não o suficiente para eu me sentir confortável. Bárbara e Carla tentaram me distrair com conversas leves, mas nada funcionava. Minha mente estava cheia, tentando organizar o caos. De repente, uma mulher loira, magra e vestindo roupas justas entrou na sala, segurando um copo de café. Ela parecia segura de si, o olhar percorrendo o ambiente até pousar em mim. Maria Beatriz (Bia): Então você é a irmã perdida? — disse, como se estivesse comentando o tempo. Manu: Parece que sim. Ela riu de forma debochada e se jogou no sofá ao meu lado. Bia: Não leva pro lado pessoal, tá? Aqui todo mundo é meio esquisito mesmo. Antes que eu pudesse responder, Duda apareceu novamente, agora segurando um celular. Duda: Olha só, Manu, já tá famosa mesmo. Postaram sua chegada no grupo do morro. Quer ver? — Ela me mostrou a tela, onde havia uma foto minha sendo carregada pelo Lobato até o carro. Manu: Quem tirou essa foto? Duda: Ah, alguém que tava de olho. Aqui, as notícias correm rápido. — Ela deu de ombros. Bárbara: Duda, não precisa assustar a menina. Duda: Não tô assustando, mãe, só tô informando. — Ela piscou para mim, mas não achei graça nenhuma. Manu: Isso é um pesadelo… Carla se aproximou, tentando amenizar a situação. Carla: Não liga, Manu. Eles adoram fazer piada de tudo. Quer comer alguma coisa? Manu: Acho que não consigo engolir nada agora. Bárbara: Então talvez um banho te ajude. Vou pedir pra prepararem um quarto pra você. Antes que eu pudesse recusar, ela já estava dando ordens para uma mulher que apareceu na porta. Poucos minutos depois, Carla me ajudou a subir uma escada que rangia a cada passo. Entramos em um quarto simples, mas limpo, o que já era um alívio comparado ao lugar onde eu estava antes. Carla: Se precisar de ajuda, é só gritar. Manu: Obrigada… por tudo. Carla: Só faz parte do meu trabalho, Manu. Ela saiu, fechando a porta atrás de si. Fiquei sozinha por alguns segundos antes de soltar um suspiro. Caminhei com dificuldade até a janela e olhei para fora. O sol brilhava forte, iluminando o morro com um contraste quase irônico. Como algo tão iluminado podia esconder tanta escuridão? De repente, ouvi vozes do lado de fora do quarto. Me aproximei da porta, tentando escutar. (Voz masculina): — Não acho que foi uma boa ideia trazê-la pra cá. Carla: Não era uma escolha. A mãe dela deixou bem claro. (Voz masculina): Coringa não tá preparado pra isso. Ele pode ser bom em liderar, mas pai? Nunca. Eu recuei, encostando na parede ao lado da porta. As palavras ecoaram na minha mente. “Ele pode ser bom em liderar, mas pai? Nunca.” Peguei meu celular, que estava sobre uma mesinha ao lado da cama. Precisava falar com minha mãe, mas, ao desbloquear a tela, vi que não havia sinal. Joguei o celular na cama, frustrada. O barulho da porta abrindo me assustou, e quando olhei, era ele. Coringa. Ele ficou parado na porta por alguns segundos, observando-me com uma expressão indecifrável. Coringa: A gente precisa conversar. Manu: Agora você quer conversar? Ele ignorou meu tom e entrou no quarto, fechando a porta atrás de si. Sentou-se na poltrona do canto e cruzou os braços. Coringa: Não tô pedindo, tô falando. Manu: Tá, então fala. Ele respirou fundo, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. Coringa: Procurei sua mãe há algumas semanas. Disse que precisava de ajuda, que você tava em perigo. Eu não podia te proteger a não ser te trazendo pra cá. Manu: — E agora eu tô aqui. Mas ninguém me explica de quem ou do quê eu tô fugindo. Coringa: — De um inimigo meu. O nome fez minha respiração falhar por um momento. Manu: — O cara que atirou em mim? Coringa: — Não. O Veiga é um dos meus vapor, ele é de confiança. Isso o que aconteceu com você foi uma acidente, até porquê você queria fugir. Mas o cara que tá atrás de você é um dos meus inimigos mais antigos. Acha que atacando você pode me atingir. Manu: E por que isso tudo é culpa sua? Coringa: Porque, querendo ou não, sou o chefe aqui. Isso vem com muitos aliados, mas também com inimigos. Manu: Então eu tô aqui porque alguém quer se vingar de você? Isso é ridículo! Ele se inclinou para a frente, o olhar duro. Coringa: Ridículo ou não, é a realidade. E enquanto você estiver aqui, ninguém vai encostar um dedo em você. Eu o encarei, tentando decifrar se havia sinceridade em suas palavras. Ele parecia acreditar no que dizia, mas ainda era difícil confiar. Manu: E o que acontece agora? Coringa: Agora, você fica aqui, aprende a se adaptar e deixa o resto comigo. Ele se levantou e foi em direção à porta. Antes de sair, se virou para mim. Coringa: E, Manu… Para de me odiar tanto. Eu não pedi pra ser pai, mas tô tentando fazer o certo agora. Sem esperar uma resposta, ele saiu, deixando-me sozinha com meus pensamentos novamente.
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