Pré-visualização gratuita Capítulo 01
📍Complexo do Alemão, Quarta-feira, 04:50
“Uma hora a verdade aparece.”
(Emanuelle, narradora personagem)
Carla, a moça que tirou a bala da minha perna, foi delicada, mas havia pressa em seus movimentos. Era quase como se ela não quisesse criar vínculos. “Ordens do chefe”, ela disse antes de sair apressada, sem olhar para trás.
Na noite passada, minha casa virou um inferno. Homens armados arrombaram a porta, gritando e revirando tudo. Aquele barulho de móveis quebrando e minha mãe gritando ficou ecoando na minha cabeça. Tentei escapar no momento em que eles me arrastavam para fora, mas não deu tempo. Um deles atirou em mim. A dor na perna foi tão intensa que parecia que meu corpo ia ceder inteiro.
Agora, estou aqui, trancada em um lugar que não conheço, sozinha e com medo. Não sei por que fizeram isso, mas tenho certeza de que coisa boa não há.
Deitada na cama, encarava o teto tentando entender o que estava acontecendo. As paredes ao meu redor eram descascadas, o cheiro de mofo impregnava o ar. O som de passos pesados e vozes abafadas começou a vir do lado de fora. Tentei me ajeitar, mas a dor na perna me lembrou de ficar quieta. A porta se abriu com um rangido, e por um momento, meu coração parou. Mas, para minha surpresa, era a minha mãe.
Manu: Mãe!! — Levantei rápido, ignorando a dor que subiu como uma lâmina pela minha perna.
Beatriz: Não faz isso, vai acabar se machucando ainda mais! — Ela veio correndo até mim, a expressão aflita. — Me desculpa, filha… — Sua voz tremeu, e logo as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela.
Manu: O que tá acontecendo? Quem são essas pessoas? Quando vamos sair daqui? — Perguntei, atropelando as palavras, sem esconder meu desespero.
Beatriz: Olha pra mim. — Ela segurou meu rosto com força, tentando me fazer focar nela. — Escuta bem o que eu vou te dizer.
Manu: Mãe… — Minha voz saiu como um sussurro, temendo o que viria a seguir.
Beatriz: Você está em perigo, Manu. Se sair daqui, eles vão te m***r. — Ela passou o polegar no meu rosto, limpando as lágrimas que eu nem percebi que tinham começado a cair. — Eu preciso viajar, mas não vai ser por muito tempo. Enquanto isso, vamos nos falando pelo celular.
Manu: Viajar? Como assim, viajar? Para onde? E eu? Com quem eu vou ficar? — Perguntei, sentindo o desespero me consumir.
Beatriz: Não posso te contar para onde vou, é mais seguro assim. Mas você não vai ficar sozinha. Seu pai vai cuidar de você.
As palavras dela me atingiram como um golpe.
Manu: Meu pai? Que pai, mãe? — Minha voz tremeu de incredulidade.
Beatriz: Filha… — Ela tentou se aproximar, mas eu me afastei bruscamente, ignorando a dor que latejava na minha perna.
Manu: A senhora me disse que ele estava morto! A minha vida inteira você me fez acreditar nisso!
Beatriz: Eu sei que errei… — Ela hesitou, como se as palavras pesassem. — Não tenho tempo para te explicar tudo agora, mas prometo que vamos conversar. Eu só preciso que você confie em mim, tá bom?
Eu me joguei na cama, apertando os olhos, tentando controlar o turbilhão de emoções.
Manu: Isso é demais pra mim, Deus… Primeiro, eu levo um tiro. Depois, descubro que meu pai tá vivo. E agora isso…
Beatriz: Um dia você vai entender.
Manu: Não, mãe, eu não vou entender. Sabe por quê? Porque nada disso faz sentido! Tudo deu errado no momento em que você mentiu pra mim sobre o meu pai. — A dor na minha perna latejava, mas o que doía mais era o que estava por dentro. — Sai daqui, mãe!
Ela tentou insistir, os olhos dela pedindo perdão.
Beatriz: Eu te amo, filha…
Ela se inclinou e beijou meu ombro, mas antes que eu pudesse reagir, a porta se abriu novamente. Um homem entrou, segurando um fuzil. Ele nos observava em silêncio, a expressão dura.
Homem: Beatriz, tá na hora.
Minha mãe assentiu, resignada, mas hesitou ao olhar para mim.
Beatriz: Manu…
Manu: Pode ir. — Falei, enxugando as lágrimas com raiva.
Beatriz: Foi por seu bem.
Manu: O que foi para o meu bem, mãe? Me esconder que eu tinha um pai? Isso é p******o? Você estava me protegendo ou me escondendo? Se isso era para o meu bem, por que eu tô aqui, baleada? Por que você não me levou com você? — As perguntas saíam como uma metralhadora, mas ela apenas me olhou, sem responder. — Me responde!
Ela abriu a boca para falar, mas desistiu. Sua expressão era de culpa e dor.
Fechei os olhos quando ela saiu. Meu mundo desabou. Como isso pode ser verdade?
Eu sei que, para quem olha de fora, parece que estou sendo rebelde, m*l-educada. Mas quem diz isso não entende. Desde pequena, meu maior sonho era ter um pai. Apresentá-lo aos meus amigos, passear com ele, ouvir um “estou orgulhoso de você”. Eu só queria isso, e minha mãe me privou dessa chance.
“Foi para o seu bem.” Essas palavras ecoavam na minha cabeça, mas soavam vazias. Isso era p******o ou egoísmo? Se fosse para me proteger, por que eu ainda estou aqui, ferida, sozinha, sem respostas? As perguntas se acumulavam na minha mente, mas, ao mesmo tempo, eu sentia que talvez nunca encontrasse as respostas.
Chorei tanto que perdi a noção do tempo e, quando abri os olhos, tudo parecia um borrão. Aos poucos, a visão foi se ajustando, e notei um rapaz parado ao lado da cama. Ele era alto, tinha o rosto sério, e um quê de arrogância que não combinava com o rosto bonito.
— Bora, levanta. — Ele disse seco, com um tom de quem não tinha paciência pra perder.
Manu: — Pra onde? Que horas são? — Perguntei, coçando os olhos e bocejando ao mesmo tempo.
— São sete.
Manu: — Sete da manhã? — questionei confusa, ainda me situando.
— Não, da noite. Agora chega de pergunta e levanta logo. — Ele revirou os olhos, como se falar mais do que o necessário fosse um castigo.
Tentei me mexer, mas a dor na perna me fez soltar um gemido. Ele percebeu e suspirou, já vindo na minha direção.
Manu: Eu não consigo caminhar. Dá pra ajudar?
Ele não disse nada, apenas me pegou no colo de forma firme, mas sem pressa. Fiquei meio sem jeito, não sabia se agradecia ou fingia que aquilo era normal.
Manu: Não sabia que tinha dormido tanto… era pra ser só um cochilo.
Ele não respondeu. Apenas me carregou para fora do posto de saúde improvisado. Algumas pessoas que estavam por ali nos olharam, cochichando entre si, mas ele parecia ignorar tudo.
XXX: Abre a porta. — Ele me aproximou do carro, já que estava com as mãos ocupadas.
Abri a porta e, com cuidado, ele me colocou no banco da frente. Fechei os olhos por alguns segundos enquanto ele dava a volta e entrava no carro.
O motor roncou, e fiquei observando o jeito meticuloso com que ele dirigia. Era como se cada movimento fosse calculado.
Manu: Você trabalha pro meu pai?
Ele confirmou com a cabeça, sem tirar os olhos da rua.
Manu: Sabe o nome do cara que atirou em mim? E se ele ainda tá vivo?
Dessa vez, ele olhou para mim de lado, com um sorriso debochado.
— Se tá falando do Veiga, sim, ele ainda tá vivo.
Aquilo foi como uma facada. Veiga. O nome ficou ecoando na minha cabeça enquanto eu tentava engolir a raiva. Resolvi ficar quieta até chegarmos ao destino, mas a tensão no ar era quase palpável.
O carro parou em frente a um casarão que parecia deslocado no meio da favela. Era grande demais, com um portão alto e janelas fechadas.
— Vem. — Ele desceu e abriu minha porta, pegando-me no colo novamente.
Fui carregada até a entrada, e, assim que passamos pelo portão, meu queixo caiu. O lugar parecia um outro mundo: um jardim malcuidado na frente, paredes que já foram brancas um dia, e uma movimentação de pessoas por todos os lados. Homens armados conversavam em grupos, mulheres de maquiagem impecável passavam de um lado para o outro, e o som de música alta vinha de algum lugar lá dentro.
— Aqui é sua nova casa.
— Nova casa? Tá brincando comigo, né?
Ele não respondeu, apenas empurrou a porta com o pé e me carregou para dentro. O ambiente estava ainda mais lotado. Olhares curiosos e desconfiados se voltaram para mim.
Uma mulher morena, com cabelo preso em um coque e usando uma camiseta surrada, se aproximou.
Carla: Coloca ela aqui no sofá.
Ele obedeceu, me colocando com cuidado. Reconheci Carla imediatamente; era ela quem tinha tirado a bala da minha perna.
Manu: Oi, Carla…
Carla: Tá tudo bem? — Ela perguntou, ignorando os outros à nossa volta.
Olhei ao redor, desconfiada, até que meus olhos pousaram em um homem sentado no centro da sala. Ele era mais velho e uma expressão dura. Todos pareciam girar em torno dele, como se fosse o centro de tudo ali.
Manu: Quem é você?
Ele me olhou de cima a baixo antes de responder, frio:
— O seu pai.
Minha garganta secou. As palavras não saíram. Tudo o que minha mãe havia escondido de mim agora estava diante dos meus olhos.