Os dias passam voando. Hoje é o dia em que os homens do Lobão vão roubar a carga do Polegar, inclusive o dinheiro.
É madrugada de sexta-feira. Meu marido está dormindo lá em cima e o Hugo está na principal. Hoje ele pegou o plantão da noite para criar um álibi. Alana não veio trabalhar hoje. Diz o Polegar que deu folga para ela, mas eu sei que eles estavam juntos. Eu já conheço as mentiras do meu marido.
Estou acordada, na sala, assistindo a uma série na TV só para passar o tempo. Estou cansada e ansiosa. Quero saber como vai ocorrer o assalto, se vai dar certo ou não. Quero ver a reação do Polegar quando ficar sabendo, quero ver quais atitudes ele vai tomar.
Hoje é o início dessa guerra. O primeiro passo que vamos dar para destruir o Polegar. E eu estou tão feliz em saber que, em breve, estarei livre desse lixo que sou obrigada a chamar de marido… e que nenhuma outra mulher cairá nas garras desse crápula.
Polegar: REBECCA! — grita do andar de cima, e eu tenho certeza de que ele já recebeu a notícia do ocorrido.
Eu: Tô aqui embaixo, amor! — falo alto para ele ouvir, fingindo que não sei de nada.
Polegar: O que você tá fazendo? — pergunta, descendo as escadas igual a um furacão.
Eu: Assistindo série, amor. Estou sem sono e vim ver se ele aparece — respondo, enquanto ele pega as coisas agoniado. — O que está acontecendo, homem? Você está nervoso.
Ele n**a com a cabeça.
Polegar: Só fica em casa, beleza? Não sai por nada e nem abre a porta para ninguém. Vou mandar alguém vir aqui ficar contigo — diz, me dando um beijo antes de sair todo inquieto.
Dou risada enquanto volto a assistir à minha série, super tranquila. Não demoro a receber uma mensagem do Hugo no celular que ele me deu, dizendo que deu tudo certo e que o carregamento já está a caminho do depósito que alugamos no nome de um laranja.
[...]
Acordo com uma gritaria na casa e já me levanto em alerta. Geralmente, quando o Polegar chega assim, sobra para mim.
Desço as escadas com cautela e vejo o Polegar gritando ao celular. Alana está na porta da cozinha, olhando para ele, assustada.
Eu: O que houve? — pergunto, sonolenta.
Lobão: Roubaram uma carga importante nossa — fala, entrando em casa bravão. Ou pelo menos fingindo estar bravão.
Eu: O quê? Como assim? Como isso aconteceu? — pergunto, descendo as escadas apressada.
O Polegar desliga o celular e o joga no sofá.
Polegar: Não sei, Rebecca. Não sei como aconteceu — fala irritado.
Eu: E o que você vai fazer agora, sem esse carregamento?
Polegar: Ainda tô vendo isso. Vou entrar em contato com o comando, sei lá.
Lobão: A gente teria dinheiro para pegar outro carregamento se você não tivesse feito um rombo no nosso orçamento — diz, olhando para o Polegar com os olhos fulminantes.
Polegar: Foi uma emergência, c*****o! — fala, estressado.
Eu: Como assim você usou o dinheiro do complexo? Está maluco, Lucas?
Polegar: FOI UMA EMERGÊNCIA, c*****o! — grita, e eu dou um passo para trás, assustada.
Lobão: Que emergência é essa? Como você usa o dinheiro do complexo e não me avisa nada? Eu sou teu parceiro! — fala, irritado.
Sento no sofá, esfregando o rosto.
Polegar: Vamos lá pra principal. Na minha sala eu te explico o que rolou — diz, pegando a bolsa.
Lobão: Fala aqui, c*****o! — rebate.
Polegar me olha, e aquele olhar me faz entender tudo. Ele usou o dinheiro com uma das amantes.
Eu: Eu vou subir para tomar banho. Tenho horário marcado com a psicóloga.
Polegar: Você tá vendo que eu tô precisando suprir um rombo e quer continuar gastando meu dinheiro? — pergunta alto.
Eu: Pede para uma das suas amantes te ajudar a economizar. Eu vou cuidar dos meus problemas psicológicos, que foram criados por você — falo, sem nem dar muito ibope.
[...]
Entro no galpão acompanhada dos meus seguranças e observo como tudo está acontecendo, todo o carregamento roubado sendo dividido alguns caminhões pequenos e vans, e um carro sendo desmontado para ter todo o dinheiro roubado escondido nele.
Caminho até o Osmar que está encarregado dessa missão e ficamos calados, apenas observando tudo juntos, ele me olha e aponta para uma sala com a cabeça antes de sair andando até a tal sala e eu o sigo ainda em silêncio.
Osmar: cadê o Lobão?
Eu: está enrolado com o Polegar, mas já já ele deve chegar.
Osmar: já sabe como tudo vai acontecer?
Confirmo com a cabeça enquanto me sento na cadeira à frente da sua mesa.
Eu: os carros irão sair um a cada dia da semana, todos em direção a Paraisópolis.
Lobão: parte desse dinheiro para a Priscila - fala entrando na sala.
Eu: e o restante?- pergunto olhando para ele.
Lobão: vai para você, vamos comprar uma casa em São Paulo para você com esse valor restante- fala e eu confirmo com a cabeça.
Osmar: qual o próximo passo?
Eu: eu vou começar a esvaziar as contas dele aos poucos- falo olhando para o Osmar.
Osmar: você tem certeza disso?
Lobão: se começar não vai ter volta!
Eu: eu sei, eu quero o Lucas morto, destruído, na lama, o Lucas acabou com a minha vida, acabou com a minha família, com os meus sonhos, fazem quatro anos que eu não sei nada da minha família por causa dele, eu fiquei seis meses em coma por causa dele, meu pai pode estar morto por causa dele- falo irritada e olho bem para os dois.
Osmar: a gente entende!
Eu: não, vocês não entendem, a cada quatro minutos oito mulheres são violentadas, cerca de 30% das brasileiras já sofreram violência doméstica, cerca de quatro mulheres morrem diariamente vítimas dos seus maridos nesse país, e eu quase me tornei parte desses números, eu não posso impedir que outros homens façam isso, infelizmente não posso, mas posso impedir que outra mulher sofra nas mãos do Lucas o que eu sofri!