Teo
Não existe luxo suficiente para silenciar o passado quando ele resolve gritar. Descobri isso no momento em que a vi rindo como se o mundo nunca tivesse machucado ninguém. Ayume estava na piscina com Bibi, e a menina dava gargalhadas tão sinceras que até o sol parecia inclinar o corpo para ouvir melhor. Era fim de tarde, e a água refletia o céu num azul quase inventado. Eu deveria estar dentro, trabalhando, negociando números e poder, cuidando da reputação que ainda me restava. Mas me vi parado na varanda de vidro, observando a cena como se fosse proibido piscar.
Ela mergulhou, e seu corpo atravessou a superfície com uma leveza que contrariava tudo que já senti por dentro. Eu esperava que ela fosse perfeita. Era mais fácil desejar alguém quando nenhuma imperfeição ameaça a construção impecável que mantemos de nós mesmos. Só que Ayume nunca foi fácil. Ela era real.
Quando subiu, a primeira coisa que vi não foi seu rosto. Foi a linha fina, torta e c***l que marcava sua barriga. Uma cicatriz. Não pequena. Não discreta. Um corte profundo que a vida transformou em lembrança eterna.
Senti o peito arder com uma brutalidade que não soube controlar.
Bibi, com boias cor de rosa nos braços, nadava desengonçada até ela, chamando: Tia Yumi, olha o mergulho de sereia! Ayume riu, segurou a menina pela cintura e a ergueu, fazendo da água um palco onde aquele pequeno ser brilhava. Luana filmava tudo com o celular, encantada com a alegria da filha.
Eu? Tudo que consegui foi ficar imóvel. Uma estátua envenenada por sentimentos que nunca desejei sentir.
Olivier apareceu ao meu lado, mão no bolso, avaliando a cena com o sorrisinho debochado de sempre. Você está olhando como se fosse dono.
Eu não respondi. É perigoso dar nome ao que ainda não admito.
Ele soltou uma risada baixa. Relaxa, chefe. Só uma tarde na piscina. E antes que eu pudesse fulminá-lo com o olhar, completou: Princesa disse que quer dormir aqui hoje.
O pensamento de Ayume dormindo sob o mesmo teto que eu, respirando o mesmo ar, caminhando por onde caminho… cada detalhe acendeu fogo onde eu fingia existir pedra.
Luana chamou do outro lado: Olivier, vem ajudar Bibi a tirar as boias! Ele respondeu com um beijo rápido no vidro e foi. Deixou-me sozinho com a visão que quase tirava meu oxigênio.
Ayume nadou até a beirada e se apoiou, virando o corpo devagar. A cicatriz brilhou úmida sob a luz. Inaceitável. Quem encostou nela com violência perdeu o direito de existir. Algo dentro de mim tentou se levantar para destruir o responsável. Não era racional. Não era estratégico. Era puro instinto.
Ela percebeu meu olhar. E percebeu o que meu olhar dizia.
Os olhos dela se apagaram no mesmo instante. A água parecia gelar ao redor. Ela retirou a mão da borda como se eu tivesse queimado sua pele apenas observando. Saiu da piscina com pressa, pegou a toalha e se enrolou tão rápido que machucou a própria proteção.
Você viu demais.
A frase silenciosa atravessou o ar entre nós sem precisar de som. E, contra todas as defesas que construí, senti dor por ela.
Luana e Olivier trocaram um olhar rápido. O tipo de olhar que amigos trocam quando sabem que devem desaparecer dali. E desapareceram. Saíram com Bibi, que protestou baixinho, dizendo que queria continuar na água.
Ficamos sozinhos.
Ela manteve a distância. Eu tentei me aproximar. Não consegui dois passos sem sentir algo me puxar pela corrente que começava a nos ligar.
Ayume acariciou a própria barriga numa tentativa inútil de apagar o que estava marcado nela. A toalha tremia nos dedos. Não era frio. Era vergonha. Uma vergonha que eu jamais permitiria que ela sentisse perto de mim. Só que eu não era bom com palavras gentis. Nunca fui.
Falei do jeito que sei. Uma voz baixa, tensa, quase uma ordem: Quem fez isso?
Ela levantou o rosto devagar. O olhar dela era um escudo. E uma ferida aberta. Os dois ao mesmo tempo.
Por um segundo pensei que ela fosse mentir. Que inventaria uma história acidental e leve. Os fortes mentem para proteger o que ainda não sabem como enfrentar. Mas Ayume não mentiu.
Algo dentro de mim se partiu quando ela respondeu: Alguém que achou que me amar era me controlar.
O sangue que corre em mim se tornou calor demais. Um soco no estômago. Outra cicatriz, invisível, marcada nela.
Ele tocou em você? Minha pergunta saiu mais grave que qualquer sentença. Ela respirou fundo, apertou a toalha contra a pele. Eu quis esmurrar o ar.
Não toque nessa parte da minha vida. Ela falou, mas era quase um pedido de socorro. Uma súplica para que eu não a quebrasse tentando consertá-la.
Respirei. Precisava de controle. Eu sempre preciso. Mas com ela, o controle escapa pelos dedos.
Não sou bom em ignorar o que importa. E você importa.
A frase escapou antes que eu pudesse conter. Ela fechou os olhos. Um gesto pequeno, mas poderoso. A defesa que resta quando o mundo começa a invadir.
Não olhe para mim como se eu fosse uma vítima. Ela sussurrou. Porque eu não sou.
Eu me aproximei mais um passo. Ela não recuou. Estremeceu, apenas. Parecia furiosa por tremer. Eu precisava escolher as palavras. Não escolheria errado.
Você não é vítima. Você sobreviveu.
Os olhos dela arderam com água que não tinha relação com a piscina. E mesmo assim ela tentou sorrir, um sorriso torto, orgulhoso e triste.
Sobreviver tem ficado caro demais.
Eu quis tocar seu rosto. Mas toque pode ser arma quando alguém já foi ferido. Contive minha vontade. Toquei o ar. Toquei com o olhar.
Ayume. Seu nome saiu como promessa. Cada letra carregada de algo que começa a viver em mim sem pedir permissão.
Ela mordeu o lábio inferior. Um gesto que matou qualquer distância racional. A toalha escorregou um pouco e a cicatriz voltou a aparecer. Raw, crua, injusta.
Senti o pulso martelar. A respiração pesar. Algo feroz dentro de mim despertou como se tivesse sido treinado só para defendê-la.
Se ele ainda estiver por perto… eu mato.
Ela abriu os olhos como se eu tivesse cometido um crime ao dizer em voz alta o que ela talvez desejasse no escuro. Mas não respondeu. Apenas respirou fundo, tentando recuperar controle do corpo que eu desestabilizava com palavras.
Você me deve respeito. Ela disse firme. Você não pode falar assim comigo.
Eu quase sorri. Quase. Porque ela estava se defendendo da pessoa errada. Eu não era a ameaça. O mundo inteiro era.
Eu não quero te assustar. Mas se um dia eu descobrir que ele volta a te ameaçar… Ele nunca mais ameaça ninguém.
Ela me estudou por alguns segundos longos. O suficiente para me desnudar sem tirar uma peça de roupa.
Por que parece que você quer destruir e salvar ao mesmo tempo? A pergunta veio com desalento e fome. Eu queria tocá-la. Eu queria que ela sentisse como meu corpo respondia àquela cicatriz como se fosse código secreto.
Porque eu não sei amar com moderação. A verdade veio crua, direta. E ela sentiu.
Os ombros dela relaxaram. O olhar dela perdeu o foco por um instante. E então voltou para mim, afiado como lâmina que corta, não por ódio, mas por sobrevivência.
Você não pode querer nada comigo. Não pode. Ela balançou a cabeça, como se convencesse a si mesma.
Eu dei o último passo. Ficamos tão próximos que meu calor vestiu a pele dela.
Diga isso olhando nos meus olhos. Se for verdade, eu paro.
Ela levantou o rosto. Não piscou. Só respirou. Uma respiração que tremia.
Eu não posso… querer você. A voz falhou. Ela fechou a mão, como se tentasse segurar a coragem. Deixe-me continuar. Eu não posso querer você porque eu não sobrevivi a mim mesma ainda. Eu ainda estou tentando.
A sinceridade dela perfurou a minha arrogância.
Então eu fiquei em silêncio. O tipo de silêncio que fala mais alto do que declarações.
Finalmente, toquei o que podia. Apenas seu queixo, com a ponta dos dedos. Leve. Quase uma prece.
Você não precisa sobreviver sozinha.
O corpo dela vacilou. O orgulho dela tentou impedir. Mas os olhos… os olhos me chamaram.
Ela se inclinou um pouco para mim. Eu me inclinei um pouco para ela. O mundo inteiro inclinou junto. O sol brilhou menos. A respiração pareceu chamejar.
Se eu encostasse meus lábios nos dela, não haveria volta. E tudo nela dizia que aquele não era o momento. Curar exige fôlego. Pressa vira ferida.
Eu soltei seu queixo devagar. Ela fechou os olhos, sentindo a falta que minha mão fez.
Guardei cada detalhe dentro de mim. A coragem dela. A dor dela. O poder dela.
Cicatrizes não me assustam. Eu convivo com as minhas o tempo todo.
Mas as dela… eu quero proteger do mundo inteiro.
E de mim mesmo, se for necessário.