Olivier
Bibi finalmente dormiu.
Eu sabia que ela ia esticar o teatrinho até o limite, porque quando aquela menina encasqueta com uma coisa… ninguém ganha dela facilmente. Hoje, por exemplo, resolveu que queria dormir aqui, na cobertura, porque o “novo tio poderoso” era corajoso e não tinha medo de nada — incluindo monstros, sombras e espelhos do banheiro.
Ela cruzou os braços, fez aquele bico irresistível e declarou guerra como se tivesse quatro décadas, não quatro anos.
Mas eu sou o pai dela.
E se alguém nesse planeta sabe negociar com uma princesa — sou eu.
Expliquei que princesas dormem nos seus próprios quartos para que os reis possam proteger seus sonhos de longe. Funcionou. Ela sorriu, me beijou a bochecha e aceitou a paz… por hoje.
Fechei a porta do quarto devagar e caminhei até o meu. Entrei no ambiente silencioso e encontrei Luana diante da penteadeira, passando creme na pele como se aquilo fosse um ritual secreto de preservação da beleza — e da paciência.
Ela riu quando me viu encostar no batente.
— Venceu — disse com aquele sorriso que sempre me desmonta.
— Sou pai. Faço acordos diplomáticos todos os dias.
Fui até ela e puxei seus cabelos levemente para trás para beijar sua nuca.
Ela se arrepiou exatamente como eu sabia que aconteceria.
Casamento é feito dessas certezas pequenas.
Mas ela se virou para me olhar com uma sobrancelha arqueada.
— Aposto que você está pensando em outra coisa além de beijo de boa noite.
— Depende da régua do que você considera “pensar” — respondi, dando meu melhor sorriso convencido.
Ela balançou a cabeça, divertida.
Mas logo ficou séria.
— O Teo está brincando com fogo, Oli.
Eu sentei na cama, expulsei o sapato com o pé e a encarei.
— Ele sempre brincou. Mas agora… parece que ele quer se queimar.
Luana mordeu o lábio, pensativa.
— Ayume não é uma mulher qualquer.
Não mesmo.
Ela tem algo na postura, no olhar.
Uma fragilidade camuflada por força.
Bibi adorou ela logo de cara.
E Bibi é um radar emocional ambulante.
— Ele não vai machucar sua amiga — eu disse.
Luana se aproximou, apoiando as mãos na minha perna, o rosto sério demais para esse horário.
— Se ele machucar… — ela falou, pausado — você perde todos os privilégios.
Eu franzi a testa, tentando não rir.
— Todos?
Ela assentiu com graça perigosa.
— Todos.
— Incluindo isso aqui? — perguntei, segurando a cintura dela e puxando até sentar no meu colo.
Ela fingiu resistência.
— Principalmente isso.
Acariciei a lateral de suas coxas.
Meu sorriso veio malandro.
— E o que eu ganho se garantir que ele faça a coisa certa?
Luana deu um sorrisinho que prometia mais do que qualquer palavra poderia traduzir.
Ela se inclinou, o nariz roçando levemente o meu.
— Me tem.
Com tudo.
Sem limites.
Eu suspirei, teatral.
— Pressão demais, senhora minha esposa.
Ela riu — aquele riso que salva meus dias.
Mas quando o silêncio chegou, ele não veio vazio.
Veio pensando.
— Você acha que ele gosta mesmo dela? — ela perguntou.
— Eu acho que o problema é justamente esse — respondi. — Ele não gosta. Ele sente. E sentir… para ele é território desconhecido.
Luana cruzou os braços.
— Ayume não pode ser laboratório emocional de ninguém.
— Não vai ser — garanti.
Mas a verdade é que nem eu tinha certeza do que poderia acontecer.
Teo estava… diferente.
Antes, ele via mulheres como distrações que nunca duravam mais do que o necessário para anestesiar o orgulho ferido. Agora?
Parecia lutar contra a própria vontade de se apegar.
Luana suspirou e deitou no meu peito quando deitei.
Fiquei fazendo carinho no seu cabelo, enquanto ela continuava pensando alto:
— Você viu o jeito que ele olha para ela?
— Vi — respondi. — E por isso estou nervoso.
Ela ergueu o rosto para me encarar.
— Nervoso por quem?
Eu sorri de lado.
— Por ele.
Ela piscou, surpresa.
— Não por ela?
— Por ela eu estou cauteloso — corrigi. — Mas nervoso mesmo… é por ele. Porque se der errado, ele cai. E cai feio.
Ela voltou a se aconchegar, pensativa demais para relaxar.
— Ela também pode cair — murmurou. — Só que ela não tem dinheiro para se levantar rápido.
Engoli a verdade dessa frase.
— Então… somos nós por eles — eu concluí.
— Sempre — ela respondeu.
Ficamos em silêncio por alguns segundos até ela soltar:
— Ai, Oli… você sabe que eu amo essa tua lealdade, né?
— Amo que você ame — respondi, beijando sua testa.
Ela gargalhou baixo.
— Pobrezinho do Teo… se não fosse você, já teria afundado há muito tempo.
Eu concordei com a cabeça.
— Mas agora ele está investindo em algo que eu não posso salvar.
Se ele errar a mão com ela…
a queda será dele.
E eu só posso assistir.
Luana ergueu o rosto novamente, os olhos brilhando com aquela malícia tão conhecida e tão minha.
— E se ele acertar?
— Aí, querida… — passei o dedo pelas costas dela, num caminho lento até segurar sua nuca — quem sai ganhando somos nós.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Nós?
Meu sorriso foi puro deboche apaixonado.
— Porque eu ganho você… completamente satisfeita em saber que sua amiga encontrou um homem decente.
Ela riu de novo e me puxou pela camiseta.
— Eu já sou satisfeita.
Minha mão desceu, segurando firme sua cintura, trazendo-a mais para mim.
— Ah, Luana… ainda não — murmurei contra sua boca — mas vou te mostrar como fica satisfeita de verdade.
Ela respondeu entre um suspiro e o sorriso perigoso:
— Só não esqueça: o destino emocional do seu melhor amigo… está diretamente ligado ao seu desempenho agora.
Ri com o nariz.
Se existe mulher que sabe negociar… é a minha.
— Então está combinado — declarei, puxando sua boca para a minha. — Enquanto Teo protegê-la… eu protejo meu marido do futuro.
Luana resmungou divertida:
— Que responsabilidade a minha… ser critério de felicidade masculina em dobro.
Minha mão explorou a curva de suas costas até encontrar o que eu mais gostava:
a certeza de que ela era minha e de que a vida sempre seria mais leve porque ela estava aqui.
— Lu — falei entre um beijo e outro — se Teo estragar tudo… eu te ajudo a matá-lo.
Ela gargalhou alto — a gargalhada mais sexy do universo.
— Fechado. E se Ayume estragar tudo…
Parei o beijo, surpreso.
— Ela não vai.
— Eu sei. — Luana me olhou com carinho. — Porque alguém vai lembrar Teo todos os dias de que a vida só vale a pena quando a gente ama sem medo.
Beijei sua boca outra vez, devagar, saboreando cada pedacinho.
Eu nunca fui bom com palavras profundas.
Mas com ela… elas vinham fácil.
— Obrigado por cuidar dele comigo — sussurrei.
Ela acariciou meu rosto com ternura.
— Obrigado por cuidar de mim — respondeu.
E nós dois rimos, deitados ali, sabendo que amor não é um jogo de poder.
É uma aliança invisível.
Às vezes silenciosa.
Às vezes explosiva.
E naquele momento, enquanto minha mulher se aninhava no meu peito, eu senti algo muito claro:
Que venham contratos.
Que venham exs vingativos.
Que venham riscos, quedas e beijos proibidos.
Ayume e Teo não estão sozinhos.
Não enquanto nós estivermos aqui.
Porque amor — o verdadeiro — nunca acontece só entre duas pessoas.
Sempre existe um exército invisível torcendo para que dê certo.
E eu?
Eu luto por quem amo.
Sempre lutei.
Sempre lutarei.