CAPÍTULO 31 – Luana e Olivier: Alianças Invisíveis

1276 Palavras
Olivier Bibi finalmente dormiu. Eu sabia que ela ia esticar o teatrinho até o limite, porque quando aquela menina encasqueta com uma coisa… ninguém ganha dela facilmente. Hoje, por exemplo, resolveu que queria dormir aqui, na cobertura, porque o “novo tio poderoso” era corajoso e não tinha medo de nada — incluindo monstros, sombras e espelhos do banheiro. Ela cruzou os braços, fez aquele bico irresistível e declarou guerra como se tivesse quatro décadas, não quatro anos. Mas eu sou o pai dela. E se alguém nesse planeta sabe negociar com uma princesa — sou eu. Expliquei que princesas dormem nos seus próprios quartos para que os reis possam proteger seus sonhos de longe. Funcionou. Ela sorriu, me beijou a bochecha e aceitou a paz… por hoje. Fechei a porta do quarto devagar e caminhei até o meu. Entrei no ambiente silencioso e encontrei Luana diante da penteadeira, passando creme na pele como se aquilo fosse um ritual secreto de preservação da beleza — e da paciência. Ela riu quando me viu encostar no batente. — Venceu — disse com aquele sorriso que sempre me desmonta. — Sou pai. Faço acordos diplomáticos todos os dias. Fui até ela e puxei seus cabelos levemente para trás para beijar sua nuca. Ela se arrepiou exatamente como eu sabia que aconteceria. Casamento é feito dessas certezas pequenas. Mas ela se virou para me olhar com uma sobrancelha arqueada. — Aposto que você está pensando em outra coisa além de beijo de boa noite. — Depende da régua do que você considera “pensar” — respondi, dando meu melhor sorriso convencido. Ela balançou a cabeça, divertida. Mas logo ficou séria. — O Teo está brincando com fogo, Oli. Eu sentei na cama, expulsei o sapato com o pé e a encarei. — Ele sempre brincou. Mas agora… parece que ele quer se queimar. Luana mordeu o lábio, pensativa. — Ayume não é uma mulher qualquer. Não mesmo. Ela tem algo na postura, no olhar. Uma fragilidade camuflada por força. Bibi adorou ela logo de cara. E Bibi é um radar emocional ambulante. — Ele não vai machucar sua amiga — eu disse. Luana se aproximou, apoiando as mãos na minha perna, o rosto sério demais para esse horário. — Se ele machucar… — ela falou, pausado — você perde todos os privilégios. Eu franzi a testa, tentando não rir. — Todos? Ela assentiu com graça perigosa. — Todos. — Incluindo isso aqui? — perguntei, segurando a cintura dela e puxando até sentar no meu colo. Ela fingiu resistência. — Principalmente isso. Acariciei a lateral de suas coxas. Meu sorriso veio malandro. — E o que eu ganho se garantir que ele faça a coisa certa? Luana deu um sorrisinho que prometia mais do que qualquer palavra poderia traduzir. Ela se inclinou, o nariz roçando levemente o meu. — Me tem. Com tudo. Sem limites. Eu suspirei, teatral. — Pressão demais, senhora minha esposa. Ela riu — aquele riso que salva meus dias. Mas quando o silêncio chegou, ele não veio vazio. Veio pensando. — Você acha que ele gosta mesmo dela? — ela perguntou. — Eu acho que o problema é justamente esse — respondi. — Ele não gosta. Ele sente. E sentir… para ele é território desconhecido. Luana cruzou os braços. — Ayume não pode ser laboratório emocional de ninguém. — Não vai ser — garanti. Mas a verdade é que nem eu tinha certeza do que poderia acontecer. Teo estava… diferente. Antes, ele via mulheres como distrações que nunca duravam mais do que o necessário para anestesiar o orgulho ferido. Agora? Parecia lutar contra a própria vontade de se apegar. Luana suspirou e deitou no meu peito quando deitei. Fiquei fazendo carinho no seu cabelo, enquanto ela continuava pensando alto: — Você viu o jeito que ele olha para ela? — Vi — respondi. — E por isso estou nervoso. Ela ergueu o rosto para me encarar. — Nervoso por quem? Eu sorri de lado. — Por ele. Ela piscou, surpresa. — Não por ela? — Por ela eu estou cauteloso — corrigi. — Mas nervoso mesmo… é por ele. Porque se der errado, ele cai. E cai feio. Ela voltou a se aconchegar, pensativa demais para relaxar. — Ela também pode cair — murmurou. — Só que ela não tem dinheiro para se levantar rápido. Engoli a verdade dessa frase. — Então… somos nós por eles — eu concluí. — Sempre — ela respondeu. Ficamos em silêncio por alguns segundos até ela soltar: — Ai, Oli… você sabe que eu amo essa tua lealdade, né? — Amo que você ame — respondi, beijando sua testa. Ela gargalhou baixo. — Pobrezinho do Teo… se não fosse você, já teria afundado há muito tempo. Eu concordei com a cabeça. — Mas agora ele está investindo em algo que eu não posso salvar. Se ele errar a mão com ela… a queda será dele. E eu só posso assistir. Luana ergueu o rosto novamente, os olhos brilhando com aquela malícia tão conhecida e tão minha. — E se ele acertar? — Aí, querida… — passei o dedo pelas costas dela, num caminho lento até segurar sua nuca — quem sai ganhando somos nós. Ela arqueou uma sobrancelha. — Nós? Meu sorriso foi puro deboche apaixonado. — Porque eu ganho você… completamente satisfeita em saber que sua amiga encontrou um homem decente. Ela riu de novo e me puxou pela camiseta. — Eu já sou satisfeita. Minha mão desceu, segurando firme sua cintura, trazendo-a mais para mim. — Ah, Luana… ainda não — murmurei contra sua boca — mas vou te mostrar como fica satisfeita de verdade. Ela respondeu entre um suspiro e o sorriso perigoso: — Só não esqueça: o destino emocional do seu melhor amigo… está diretamente ligado ao seu desempenho agora. Ri com o nariz. Se existe mulher que sabe negociar… é a minha. — Então está combinado — declarei, puxando sua boca para a minha. — Enquanto Teo protegê-la… eu protejo meu marido do futuro. Luana resmungou divertida: — Que responsabilidade a minha… ser critério de felicidade masculina em dobro. Minha mão explorou a curva de suas costas até encontrar o que eu mais gostava: a certeza de que ela era minha e de que a vida sempre seria mais leve porque ela estava aqui. — Lu — falei entre um beijo e outro — se Teo estragar tudo… eu te ajudo a matá-lo. Ela gargalhou alto — a gargalhada mais sexy do universo. — Fechado. E se Ayume estragar tudo… Parei o beijo, surpreso. — Ela não vai. — Eu sei. — Luana me olhou com carinho. — Porque alguém vai lembrar Teo todos os dias de que a vida só vale a pena quando a gente ama sem medo. Beijei sua boca outra vez, devagar, saboreando cada pedacinho. Eu nunca fui bom com palavras profundas. Mas com ela… elas vinham fácil. — Obrigado por cuidar dele comigo — sussurrei. Ela acariciou meu rosto com ternura. — Obrigado por cuidar de mim — respondeu. E nós dois rimos, deitados ali, sabendo que amor não é um jogo de poder. É uma aliança invisível. Às vezes silenciosa. Às vezes explosiva. E naquele momento, enquanto minha mulher se aninhava no meu peito, eu senti algo muito claro: Que venham contratos. Que venham exs vingativos. Que venham riscos, quedas e beijos proibidos. Ayume e Teo não estão sozinhos. Não enquanto nós estivermos aqui. Porque amor — o verdadeiro — nunca acontece só entre duas pessoas. Sempre existe um exército invisível torcendo para que dê certo. E eu? Eu luto por quem amo. Sempre lutei. Sempre lutarei.
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