Teo
Eu nunca fui chamado de tio.
Nem pai.
Nem qualquer título que carregasse afeto.
Nomes… tive vários.
Alguns podiam destruir reputações; outros podiam conquistar continentes.
Mas nenhum deles me preparou para quando uma menina de quatro anos puxou minha calça social e disse:
Tio Teo, posso te mostrar meu desenho?
Minha armadura inteira quase rachou.
Eu a olhei como se ela fosse uma incógnita recém-inventada, impossível de decifrar.
Olhos enormes, curiosidade inquieta, e uma confiança que ninguém jamais dirigiu a mim sem calcular vantagens.
Assenti.
Ou melhor: apenas não consegui negar.
Ela segurou minha mão.
Minha mão, essa que só sabe punir e assinar acordos que valem milhões — agora estava sendo puxada por dedos minúsculos, calejados apenas de brincar.
Se alguém tivesse visto…
teria dito que eu fiquei mais alto.
Ou menor.
Ou humano.
Olivier e Luana estavam ali também, com aquele olhar silencioso de quem entende mais do que deveria. Um olhar de alerta e, ao mesmo tempo, de esperança.
Bibi abriu sua mochila e tirou um papel dobrado em quatro.
Desdobrou com o cuidado de quem segura tesouro antigo.
Um desenho.
Quatro figuras.
Uma mulher de vestido amarelo.
Uma menina de tranças negras.
Um homem de terno.
E outra figura masculina maior, segurando uma espada feita de lápis de cor.
Ela apontou:
Essa é a tia Ayu.
Essa sou eu.
Esse é o meu pai.
E esse é você.
O cavaleiro que derrota monstros.
Eu engoli seco.
Monstros eu já fui.
Heroi… nunca.
Dei um sorriso torto.
E ela achou bonito.
Você gostou, tio?
Gosto não era suficiente.
Mas sentimentos não nasceram para serem confessados diante de testemunhas.
Assenti.
Ela me abraçou.
Sem pedir permissão.
E eu deixei.
Mãos pequenas em torno do meu pescoço.
Calor que eu não esperava sentir.
Quando ela se afastou, foi como se arrancasse algo do meu peito junto.
Dói.
Mas uma dor boa, que ninguém ensina a lidar.
Ayume chegou naquele instante — e o coração reconheceu antes do olhar.
Ela observou a cena como se estivesse vendo lenda e realidade se encontrarem.
Eu… com uma criança no colo da vida dela.
O mundo ficou muito pequeno para tantos significados.
Olivier e Luana disseram boa noite e foram embora com Bibi, que me lançou um beijo estalado.
E eu recebi.
Sem defesa alguma.
O silêncio após a porta se fechar foi o tipo que muda rumos.
Só restamos nós dois.
Ayume.
E o contrato dentro da bolsa dela.
O ar tremia ao redor.
Ela se aproximou devagar, como quem pisa em um campo minado de emoções.
Ela disse, quase num sussurro:
O que você fez com ela?
Eu quase respondi a verdade — que eu deixei ser cuidado.
Mas eu preferi provocar:
Ensinei a negociar com reis.
Ela riu baixinho.
Bela demais para mim.
Então ela respirou fundo e encostou a bolsa na mesa.
Tom inesperado.
Ou talvez… esperado demais.
Eu vim te entregar isso.
Ela tirou a pasta.
Abriu.
Colocou o contrato na minha frente.
Assinado.
O nome dela em letras firmes.
Corajosas.
Definitivas.
Por alguns segundos, não consegui falar.
Eu sabia que ela assinaria.
Eu contava com isso.
Me preparei para isso.
Mas saber… não é igual a ver sua coragem diante dos seus olhos.
Esse contrato não é sobre dívida.
Nem sobre poder.
É sobre ela dizer:
eu não quero estar sozinha na guerra.
— Ayume…
— Ainda não acabou — ela me interrompeu.
Virou a página.
Um acréscimo escrito à mão, em caneta preta, uma letra bonita, firme, decidida.
Cláusula pessoal nº 1:
Ele não manda no que ela sente.
Minha garganta apertou.
O mundo parou de girar por um instante.
A tinta da caneta dela substituiu as paredes mais grossas que construí ao redor do peito.
— Você está impondo condições — falei, tentando manter a voz firme.
— Regras. — ela corrigiu. — Você não vai decidir por mim quem eu posso amar. E como.
A palavra amar
bateu forte demais.
Respirei fundo.
Mas o ar veio acompanhado de um arrepio que subiu pela espinha até se alojar onde eu nunca permito.
— Está dizendo que pretende amar alguém nesse período? — provoquei.
Ela deu dois passos para perto.
Perigosa.
Linda.
Honesta.
— Estou dizendo que se isso acontecer… será porque eu escolhi.
Os olhos dela pousaram nos meus.
Sem hesitação.
Sem medo.
— Não porque você ou meu passado ditaram.
A forma como ela me enfrentou fez algo estremecer dentro de mim.
Não foi raiva.
Nem orgulho ferido.
Foi desejo.
Desejo de ser o escolhido.
— Eu não tenho interesse em controlar seus sentimentos — falei baixo.
— Tem sim — ela rebateu, suave.
E eu soube que ela tinha razão.
Ela passou o dedo pelo papel.
— Você quer o meu medo.
Quer minha confiança.
Quer meu corpo… em algum momento.
A respiração falhou.
Não por fraqueza.
Mas porque felicidade pode assustar tanto quanto perigo.
— E o que você quer? — perguntei.
Ela se aproximou mais uma vez.
Agora tão perto que eu senti sua boca quase tocar a minha.
— Quero que você sinta tudo comigo — disse.
Minha mão subiu por conta própria até a curva da cintura dela.
Um toque lento, cuidadoso.
Respeito que arde.
— Isso pode me destruir — sussurrei.
— Ou pode te salvar — ela devolveu.
Meu nariz roçou a pele do rosto dela.
Ela fechou os olhos.
A voz tremendo de ousadia:
Eu escolhi assinar porque quero viver.
E desejo viver perto de você.
Senti o corpo ceder por dentro.
Mas mantive a postura por fora.
— A partir de hoje — falei — eu respondo por você.
Ela tocou meu peito com a ponta dos dedos.
Ligeiro.
Inofensivo.
Profundo.
— E eu por você.
O mundo soube que mudou.
Mesmo que ninguém estivesse ali para testemunhar.
Ela se afastou apenas o suficiente para recuperar o ar.
— Tenho uma última regra — anunciou.
Meu peito travou.
— O que falta?
— Se um dia… você quiser ir embora. — Sua voz quebrou só um pouco. — Me diga antes.
Eu já sobrevivi a partidas sem aviso demais.
A dor dela me atingiu num lugar que eu julgava morto.
Segurei o rosto dela com uma das mãos.
Ela permitiu.
— Eu não quero desaparecer da sua vida — falei.
— Então não desapareça.
Ela pegou a bolsa de novo.
Deu dois passos para trás, respirando rápido demais para esconder.
— Boa noite, Teo.
— Boa noite, Ayume.
Ela parou na porta.
Virou o rosto para mim, de lado — como se acendesse a última faísca do dia.
E disse:
— Não tente controlar o que eu sinto.
Sorri.
Porque ela não percebia.
Eu não queria controlar.
Eu queria ser o sentimento dela.
Quando a porta se fechou, percebi que minhas mãos tremiam.
Eu, o homem do poder.
Eu, o que não se abala.
Eu, o que não sente.
Estou ferrado.
Porque agora, não importa qual monstro apareça pelo caminho…
Há uma menina que me chama de tio.
Uma mulher que me chama de escolha.
E um coração aqui dentro
que chamou o nome dela primeiro.